Nasci em Lisboa – e nunca vivi nem desejei viver noutro lugar; e, tal como tenho muitas vezes saudades da infância, também sinto a falta das coisas que Lisboa me dava em pequena e que, com o tempo, desapareceram.

Bem sei que, à vista da maioria dos países da Europa, continuamos a ter uma das capitais mais seguras, mas ainda assim lembro-me de a minha mãe fazer uma coisa que hoje seria completamente impensável: deixava-nos, a mim e ao meu irmão, a brincar no banco de trás do carro enquanto saía para ir comprar o que precisasse: um maço de cigarros, medicamentos, cadernos pautados ou águas-de-colónia, tudo coisas possíveis de adquirir no mesmíssimo quarteirão das Avenidas Novas onde estacionava (sim, havia sempre lugar para o carro). E – pasme-se! – até deixava a chave na ignição…

Não eram tempos em que se falasse de raptos ou pedofilia, e nunca nos aconteceu nada de grave; mas uma vez – e éramos bem pequenos – começámos a cantar (alto, certamente) e um homem que por ali passava resolveu baixar-se e, sem mais nem menos, ordenou-nos com voz grossa pelo vidro entreaberto: “Calem-se, estúpidos!” Calámo-nos, claro. E ele, mal perdemos o pio, foi-se embora.

Ao regressar ao carro, a minha mãe apercebeu-se de que estávamos bastante taciturnos e quis saber se se tinha passado alguma coisa na sua ausência. Contámos-lhe que um desmancha-prazeres qualquer nos tinha proibido de cantar e, de caminho, ainda aproveitara para nos insultar. Ela ficou furiosa, olhou à roda à procura da besta, mas não achou ninguém que correspondesse à nossa descrição. Pôs então o motor a trabalhar, ligou o pisca e avançou com o Cortina rua fora visivelmente irritada com aquele desconhecido que não devia gostar de crianças e descarregara a frustração em cima dos seus filhos.

Um pouco mais adiante, quando o trânsito a obrigou a parar atrás de outro automóvel, o meu irmão, que ia sentado do lado do passeio, viu o brutamontes na paragem do autocarro e avisou imediatamente a nossa mãe de que o tipo que nos mandara calar estava mesmo ali a dois passos. O que foste fazer…

Assim que pôde, ela travou mesmo à frente da paragem. Esticou-se toda, abriu a janela do lugar do passageiro (que era de manivela, como todas) e, olhando lá para fora, reparou que havia não um, mas dois homens à espera do autocarro. Então, virou-se para nós e, num tom de voz provocador, perguntou apenas:

– Foi a besta maior ou a besta mais pequena?


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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4 Comentários

  1. Èh Éh Èh : eles que se cuidem, que as mães também azedam…..e lá foi daquilo!!!!

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