O arranjo de canteiros é um belo assunto. A guerra dos buxos podia ser uma boa discussão. Juntam-se diversas plantas em canteiros, o verde de arbustos e as cores de pequenas flores, e desenha-se com a técnica e a habilidade dos jardineiros lisboetas o que queremos tornar bonito – chama-se cultura-mosaico floral, uma arte a par da calçada portuguesa. E porque se pode dizer, defender ou insinuar com o que se desenha, com imagens criam-se símbolos, não só visuais e estéticos, mas de conversa.

Os brasões floridos do Jardim da Praça do Império eram um bom assunto e mereciam uma boa discussão. Eu estaria agora, aqui, a exclamar: como não amar uma cidade que discute com frenesim os seus canteiros, e até mete abaixo-assinados? 

Os brasões estão na Praça do Império, frente aos Jerónimos e adivinhando a Torre de Belém sobre o rio. Naturalmente é de História que falam. Dão-se conta? Do que temos mais para contar – e temos tanto! História… A de Fernão Magalhães, cuja morte faz por estes dias 500 anos. Magalhães foi a sonda Perseverance que, em vez de fotos de Marte, espalhou noz-moscada e cravo-da-Índia por toda a Terra. História, ah, como já fomos tão modernos e senhores de tecnologia de ponta! Era a conversa que eu gostaria de ter ouvido.  

História, encontro – uns gloriosos, outros indignos, outros só pusilânimes, não apagando nenhum, aprendendo com todos. E aprendendo, muito especialmente, à luz do que a modernidade universal (a evolução das cabecinhas) nos ensinou: o encontro foi sempre de iguais, podemos é tentar emperrar a ideia. Foi isso também o que foi a História portuguesa, somou glórias, desonras e demasiados momentos assim-assim. Mas sempre encontro de iguais, mesmo quando ainda não sabíamos que éramos iguais. Aliás, alguns ainda não sabem.

Então, na guerra dos buxos meteu-se História. Pegamos nuns arbustos, juntamos-lhes limónios, cardos, primaveras, sei lá, umas gardénias (olha, foram os portugueses que as trouxeram, da China para a Europa). Mas para voltar à discussão que devíamos ter tido: puseram os buxos floridos a representar o quê? Foram 30 brasões, assim distribuídos: 18 representando os distritos de Portugal continental, quatro, os distritos das ilhas da Madeira e Açores, e oito para os restantes territórios portugueses.

Têm disto, os símbolos, podem ser dúbios. Os brasões de que falamos pretendiam escamotear a condição colonial.

Em 1940 tinha havido uma Exposição do Mundo Português e nela construiu-se a Praça do Império, frente aos Jerónimos. Coisa grandiosa, mas pouco perspicaz na escolha do momento para expor: o outro mundo, que não o português, estava ocupado com o começo da II Guerra Mundial. Depois e também ali, houve uma exposição floral nas comemorações dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique. Aqueles brasões foram colocados em quadrado à volta da fonte circular da Praça do Império.

Os brasões são símbolos, pretendem sempre dizer qualquer coisa. Na frase anterior, a palavra mais significativa é “pretendem”. Se aqueles brasões tivessem sido feitos para a Exposição de 1940, oito deles iriam ser chamados colónias, como ordenava a Constituição de 1933, então vigente. Mas, nas comemorações henriquinas, apenas vinte anos depois, já os ventos da História anunciavam o anacronismo das colónias e as independências. Então, em 1960, oito dos brasões fizeram de conta ser de províncias ultramarinas, pretendendo ter iguais direitos aos dos outros territórios nacionais – Portugal, dizia Portugal, era “do Minho a Timor”…

Têm disto, os símbolos, podem ser dúbios. Os brasões de que falamos pretendiam escamotear a condição colonial. Mas foram, eles próprios, uma testemunha acusadora: por exemplo, Moçambique e Angola, “províncias ultramarinas” – colónias, de facto – tinham direito a um só brasão cada, enquanto os Açores eram representados por três distritos (Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta). Outra colónia, tão arquipélago e atlântica como os Açores, aparecia com um brasão só, “Cabo Verde”, e sem os das cidades do Mindelo e da Praia… Afinal, o Portugal uno era de uns e… de outros menos iguais. Expulsa-se a verdade da História com uma emenda constitucional (1951, fim das colónias) e a História voltava a galope entre buxos de jardim.

Podíamos continuar a falar de assunto tão bonito (cultura-mosaico floral) e tão profundo e complexo (História de Portugal). Mas bastou um abaixo-assinado, “Contra o apagamento dos brasões na Praça do Império”, para a conversa enviesar para oito brasões floridos em risco de secar, num deserto em que os outros 22 também estão mal regados. À partida, a diferença entre os brasões até era uma boa conversa (dediquei o parágrafo anterior a ela) mas o abaixo-assinado mascarou-se em cortejo de joias fanadas de nobres falidos. Órfão do império. Têm disto, as polémicas… Não gostam de discutir.

Discutir era: vale a pena os brasões? Vale. Se valem o que custam, isso é outra conversa, porque só somos o que podemos ser. Ao discutir um plano para resolver o descuido de décadas a que foram votados todos os 30 brasões floridos, a Câmara de Lisboa vai ter em conta as contas. Os 30 brasões no Jardim do Império valiam muito pelo buxo artístico. Se servirem para manter uma profissão admirável, muito bem; se o dinheiro escassear, pode pensar-se em outra forma de expressão, calçada à portuguesa, por exemplo. Se a economia obrigar a cortes mais drásticos também não virá daí grande mal ao jardim. Há outras formas de mostrar o passado português e, por ali à volta, felizmente, há muitas e melhores.

Como interesse histórico, os brasões são razoavelmente irrelevantes. Simbolizam pouco mais do que uma tabuleta. Dão uma informação básica e curta: “Olha, Timor já foi português”…

A arquiteta paisagista Cristina Castel-Branco, deputada municipal pelo CDS e autora do projeto de renovação do Jardim da Praça do Império, escreveu para o Público um texto dando conta das exigências financeiras dos brasões florais. “Bom senso”, aconselhava ela e admitia que os brasões podiam ser em calçada portuguesa. Façam as contas. Entretanto, Simonetta Luz Afonso, conservadora por vocação e deputada municipal pelo PS, foi convidada a fazer uma proposta, a apresentar este mês de março, para se discutir a renovação do Jardim da Praça do Império.

Como interesse histórico, os brasões da Praça do Império são razoavelmente irrelevantes. Ali os brasões simbolizam pouco mais do que uma tabuleta. Dão uma informação muito básica e curta: “Olha, Timor já foi português”… “Olha, Bragança também cá está”… Mas, atenção, a História é também um legítimo recordar, e ela até pode ser só isso, um ponto de vista sentimental. E o só isso, saudade, pertença, identificação, até pode estimular a curiosidade.

Talvez alguém se espante por um remedeio, o administrativo Estado português da Índia (com brasão), ter apagado uma ocasião de lembrar a mítica Goa (sem brasão). É a segunda vez que me apanho a mostrar que um dos interesses históricos dos famosos brasões é denunciar o pouco interesse deles nessa matéria. Pois é, um dos erros do Estado Novo salazarista foi a sua pequenez perante a grandeza de Portugal.

Como propus há dias na Mensagem, teria maior valor histórico um jardim de especiarias na mais universal das praças lisboetas, o Martim Moniz. Seria mais evidente, simbólico e útil. Entre os seus novos e antigos lisboetas, gente da cidade, não só turistas, mostrar a grandeza que foi Portugal pelo mundo fora seria um elemento de integração.     

No Martim Moniz a versão florida do brasão do Funchal ficaria melhor. Ele é o mais substantivo da heráldica das cidades portuguesas: o seu escudo tem “cinco pães de açúcar” e “quatro cachos de uva”. Estes, homenageiam o vinho da Madeira, bom de beber e de puxar galões históricos: com vinho Madeira, George Washington e outros Pais da Nação americana brindaram à independência dos Estados Unidos, em 1776.

Essa é a presença de Portugal no Mundo que mais me aconchega e orgulha. As trocas entre gentes e o trabalho partilhado. Mas a atual guerra dos buxos, como é comum nas discussões públicas, descambou para polémica, já o disse, adulterada.

Quanto aos pães de açúcar, esses têm uma presença ainda mais relevante na feitura do mundo. Quando uma agroindústria, a da cana do açúcar, se expandiu da ilha da Madeira para as ilhas atlânticas de Cabo Verde e São Tomé e daí para o Brasil, levava uns moldes de barro nos barcos portugueses.

Em forma de cone, uma pequena montanha com o topo arredondado e perfurado, os pães de açúcar eram feitos no Barreiro, frente à Lisboa das Navegações. Invertido, a parte larga do molde em barro recebia o mosto da cana prensada e o melaço passava pelos furos, refinando o açúcar.

Um jovem carioca, a descansar no Martim Moniz entre duas entregas de pizzas, gostaria de saber que aquela saudade da sua terra, em forma de colina longa de topo arredondado, onde ele um dia subiu de bondinho, foi batizada de Pão de Açúcar por causa da semelhança com o que há centenas de anos partiu da Outra Banda, onde hoje ele mora. Viu, Edizivaldo? As pertenças fazem-se também com coincidências.

Essa é a presença de Portugal no Mundo que mais me aconchega e orgulha. As trocas entre gentes e o trabalho partilhado. Mas a atual guerra dos buxos, como é comum nas discussões públicas, descambou para polémica, já o disse, adulterada. O abaixo-assinado “Contra o apagamento dos brasões na Praça do Império”, publicado no princípio de fevereiro, partia do nível da discussão surda, do “ou por ou contra”, mas teve o mérito de sublinhar uma obrigação: o que acontecer de mau aos oito brasões coloniais, acontece a todos os 30. A História nunca é para apagar, porque mesmo quando ela está errada, ensina.

Outro mérito que teve o abaixo-assinado foi levar-me a ler o acima-assinado. Cita-se no texto da petição uma entidade que é uma não-existência. Falando da História como cimento de civismo e “razão de unidade”, acrescenta-se de que unidade se fala: “(…) unidade entre portugueses, entre todos os povos que partilham a nossa língua e cultura, família a que chamamos Portugalidade”.

Chamar Portugalidade ao que outros povos partilham connosco é um abuso. Porque as contribuições são recíprocas, sempre. Os povos que partilham parte da nossa cultura têm o direito de na pia batismal não verem o seu contributo apagado.

A História nunca é para apagar, escrevi há pouco. Ora, também o disse, os erros da História têm a vantagem de deixar o rabo de fora, dão oportunidade aos vindouros de emendar. Por mais sorrateiro que seja, o erro, com o tempo, revela-se o que é, erro. Por que insiste o abaixo-assinado na tolice?   

Chamar Portugalidade ao que outros povos partilham connosco é um abuso. Porque as contribuições são recíprocas, sempre. Os povos que partilham parte da nossa cultura têm o direito de na pia batismal não verem o seu contributo apagado. Falar de portugalidade na música de Cesária Évora é usurpar o que o Mindelo cria há séculos. Eu dizer “a morna é minha!” é uma obrigação num lisboeta, como eu, que sabe o que deve a Bana. Eu ir para a ilha de São Vicente pavonear-me como pai da morna é simplesmente tontice, um não ser.   

E mesmo num tronco comum onde se convencionou livremente chamar português à língua, esse português é de cada povo que o vive. Um dia, o escritor angolano Luandino Viera ouviu num disco de Amália: “Ó rua do Capelão, juncada de rosmaninho…” Não descansou enquanto não arranjou um personagem que falasse de “arroz maninho…”

Qualquer angolano, mesmo que não o diga, está convencido disto: “O português é meu!” Os portugueses deviam gostar disso, e não atrapalhar.

Pudera, na terra dele não há Lavandula stoechas, o tal rosmaninho, mas há arroz pequenino atirado para o chão nos dias da procissão a sair, não da capela da Senhora da Saúde, na Mouraria, mas da luandense igreja do Carmo. Qualquer angolano, mesmo que não o diga, está convencido disto: “O português é meu!” Os portugueses deviam gostar disso, e não atrapalhar.

Sendo o abaixo-assinado tão recente, deste fevereiro em que decorreu a polémica, eu devia, talvez, esperar pela sageza do tempo para saber onde se errou ao convocar “todos os povos que partilham a nossa língua e cultura” para família a que eles, os abaixo-assinados chamam Portugalidade.

Pois não espero, digo já: é abuso. E não me precipitei porque conheço um momento igualzinho a essa Portugalidade e que já é quase centenário. Já passou tempo mais do que suficiente para se poder decretar: a História foi tonta. Venham comigo a esta estória de 1932, em Luanda…  

O governador de Angola, tenente-coronel Eduardo Ferreira Viana, convocou as forças vivas dos nativistas angolanos, negros e mulatos, homens cultos, de famílias que levavam quase um século a publicar jornais e a influenciar a câmara de Luanda e, algumas delas, ricas, até serem desapossadas dos seus vastos terrenos porque, apesar de tudo, eram cidadãos de segunda.

Aos Assis, Pinto de Andrade, Van Dunem, Bessa Victor, Vieira Dias, o governador comunicou: “Portugal vai erguer estátuas em Angola às grandes figuras da Pátria e vocês vão participar.” E antes de os mandar embora, disse: “Começamos por D. Afonso Henriques.” Se não falou de Portugalidade, era nisso que estava a pensar. Os angolanos foram para a sua Liga Nacional Africana humilhados. Aquilo era uma desconsideração sem o pudor de a esconder.

Parecia um impasse, mas logo eles tomaram uma decisão e fizeram-na saber ao senhor governador: “Que sim, e até mais!” Claro, explicaram os angolanos, aplaudiriam a edificação da estátua do Fundador da Pátria portuguesa, mas, sobretudo, eles queriam pagar dos seus bolsos uma estátua ao grande militar que ganhara ao reino do Congo, na batalha de Ambuíla (1665), e ao reino de Ngola, na batalha de Pungo Andongo (1671): “Como Vossa Excelência sabe, falamos de Luís Lopes de Sequeira!” O tarimbeiro tenente-coronel Viana não sabia, e disse: “Eu sei, eu sei”.

Entretanto, o governador Viana soube que aquelas batalhas foram fundamentais para os portugueses poderem ficar em Angola, e ficou muito contente com a ideia dos angolanos. Pouco depois, o governador surpreendeu-se ao saber que Sequeira era um filho da terra, de pai português e mãe negra – e a tradição luandense lhe chamava O Mulato dos Prodígios por causa dos seus feitos militares. À surpresa o governador-geral resolveu-a de uma penada: em vez da estátua com carapinha colocou-se no pedestal um canhão. Mas lá ficou, em Luanda, e ainda lá está, a placa: “Largo Luís Lopes Sequeira”.

Que aqueles angolanos de há 90 anos tenham percebido que um dos seus, um filho da terra, derrubando dois reinos antigos, merecia uma homenagem porque, afinal, sem ele, provavelmente Angola não seria hoje um só país, é, à vez, admirável e controverso. Deixemos essa discussão para os angolanos. Mas sabermos da pesporrência de um governador todo poderoso a querer impor portugalidade a outros a quem negava a condição de cidadãos de pleno direito, já seria uma boa razão para encetar uma conversa com um desconhecido no Alfa para o Porto. E não esquecer o remate irónico: “E o tolo do governador acabou ludibriado pela inteligência de homens tidos por ele como inferiores…” Ah!, Ah!, Ah!…

Mas o que eu não entendo é que não tenha havido uma valente guerra de buxos. E que, de uma vez por todas, aproveitando a beleza da cultura-mosaico floral, a prudente preservação dos erros da História, que mais não seja para aprender com eles, e a necessidade de guardarmos a sanidade mental nas discussões públicas, o que eu não entendo, mesmo, é ninguém se ter sobressaltado com aquela frase: “(…) unidade entre portugueses, entre todos os povos que partilham a nossa língua e cultura, família a que chamamos Portugalidade.” Em 2021.

Esta é uma crónica em Mensagem, jornal digital feito sobre Lisboa e para Lisboa. A cidade que tem História em cada pedra e canteiro, por isso não queremos apagar nada, nem esquecer, pois temos a confiança dos amantes.   


Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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11 Comentários

  1. Grande texto meu velho camarada, de profissão e de chão. Pedro Cid (sénior)

  2. FF como só ele! Concordo, claramente concordo. Não devemos apagar a parte da história em que somos maus, fazendo sobressair apenas a parte (menor!) em que fomos grandes. E essa parte é, como diz FF, sempre a das trocas entre as gentes, o trabalho partilhado, o encontro entre iguais.

  3. Muito obrigado. Culto, inteligente, bem humorado, é sobretudo um excelente exemplo de cidadania e de liberdade. A reler periodicamente

  4. Bem haja, Ferreira Fernandes!
    Muito grato por esta crónica bonita e inteligente.

  5. Excelente análise como é habitual.
    História com erros e sem apagamentos, precisamos.

  6. Como sempre nos habituou, um excelente texto, uma crónica absolutamente extraordinária, uma lição!
    Muito obrigado Ferreira Fernandes

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