Provada a extensão da pandemia de um vírus que definha a saúde pública, está por contabilizar o impacto que a covid-19 representou para a saúde mental. Já há quem teça premonições e diga que daqui vai nascer uma “pandemia” também: a das ansiedades e depressões. Esta mais silenciosa, confinada dentro de paredes, muitas vezes solitária. Sobretudo nos meios mais urbanizados – como Lisboa. É aqui que a fragilidade do bem-estar psicológico aparece com mais força, como têm mostrado diversos estudos.

Os mais recentes dados da autarquia aos quais a Mensagem teve acesso provam que, se não é uma segunda pandemia, a saúde mental representa já um dos seus maiores desafios: 42% dos lisboetas que responderam a um inquérito municipal, lançado em outubro de 2020, fizeram uma avaliação negativa deste nível do seu bem-estar.

Já no ano passado, um relatório publicado pelo Observatório da Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa alertava para o impacto da crise nos diferentes grupos populacionais, com maior incidência em alguns. O documento conclui que os mais afetados foram os idosos. Depois, os adultos dos 18 aos 64 anos e, logo a seguir, especificamente as mulheres, qualquer que seja a sua faixa etária.

Procuramos dar um rosto a estas estatísticas. Três pessoas, três histórias de como o vírus suspendeu a saúde mental.

Capítulo I

Fernanda vive há anos sozinha, sem contacto com os filhos e o ex-marido. Foto: Orlando Almeida

A sós na sua casa

Nem um minuto de conversa e Fernanda Duarte já reclamava a maldição de ter de acontecer tudo à distância, ao telefone. “Sem um abraço, sem toque, sem beijinhos?”, pergunta. Como se, sem eles, os diálogos não existissem no mundo. Respondo que sim, que assim tem de ser. “Mas eu nem sei como é que a menina sorri”, diz.

Quem a ouve falar assim não adivinha que é uma entre os milhares de idosos de Lisboa que moram sozinhos. Companhia é coisa escassa na sua vida.

Quanto mais expostos à ausência, maior a vulnerabilidade: e, de acordo com um relatório publicado em 2020 pelo Observatório da Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa, quando se distingue a população por contextos, as pessoas idosas a morar sozinhas foram as mais afetadas pela pandemia. Quer nos acessos aos serviços, quer na saúde psicológica.

Damos asas à imaginação durante os longos minutos da conversa: sobre a cor dos nossos cabelos, se temos pele mais clara ou escura e, afinal, qual a dimensão dos nossos sorrisos. Então, imagino Fernanda de pele engelhada e cabelos grisalhos, sentada numa cadeira de rodas “estilo escritório”, numa casa encastrada na cave de um prédio da freguesia de Benfica, como conta. Diz que é divorciada, há mais de 20 anos que não contacta com os filhos e há mais de 30 que descobriu ser portadora de uma doença crónica que provoca a ataxia do cerebelo, resultando na perda de equilíbrio e de coordenação física. “O meu problema é uma daquelas coisas chatas, que não têm nome, que ainda não se descobriu bem. A neurologista andava a descobrir, mas depois meteu-se isto [a pandemia].”

A demografia chama-lhe idosa, aos 73 anos. O tempo tirou-lhe 83% das capacidades físicas. Mas só o vírus lhe trouxe, pela primeira vez, o medo.

“Tenho medo de ganhar tanto medo, que a minha cabeça fique apanhada”, diz Fernanda. “Estou sempre sozinha.”

“Chego ali ao pé da janela e tenho logo de vir para trás. Eu não era assim”. Nem pelas pequenas e parcas janelas da sua casa terem grades se sente mais segura. Na rua, “vê-se muito pouca gente, mas as pessoas passam muito à pressa” e, quando passam, Fernanda é assaltada pela ânsia de “estar quase escondida, com tudo fechado”. “Eu acho que isto é mau para mim”, diz.

De onde vem a inquietação, não sabe. Diz que começou com o primeiro confinamento geral. Depois de se ter habituado à visita de assistentes sociais da associação Coração Amarelo, de repente, viu-se novamente sozinha. À solidão, acresce a dificuldade de locomoção que a doença lhe provoca desde os 38 anos.

“Medicamentos eu não tomo. A médica diz que o meu único tratamento é fazer fisioterapia. Até há um ano, eu ia sempre, uma vez por semana. E sentia-me bem. Agora, tenho os músculos mais presos”. E tudo o que normalmente até fazia com a ajuda da cadeira, como uma simples ida à casa de banho, faz agora com mais dificuldade. “Encosto a cabeça à parede, puxo a cueca para baixo, puxo a cueca para cima. Mas, agora, se me descuido, vou parar ao meio do chão. A fisioterapia faz-me falta.”

Fernanda fala sobre “uma dor de barriga muito grande” que às vezes tem. “A médica da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa [que a segue] diz que estou muito carente e isto é natural: ela diz que os intestinos são a mesma coisa que a nossa cabeça. O medo mete-se na barriga”. Garante que o sente todos os dias. “Tenho medo de ganhar tanto medo, que a minha cabeça fique apanhada”, diz, ainda lúcida. E o lamento repete-se há anos: “Estou sempre sozinha”.

Da solidão para a demência pode ser apenas um pequeno passo e talvez dele tenha consciência Fernanda. É isso que têm vindo a indicar diversos especialistas, ao longo dos anos. Já no início do século passado, a psiquiatra alemã Frieda Fromm-Reichmann, contemporânea de Freud, dizia que a solidão é um dos fenómenos psicológicos mais relevantes para desenvolvimento da doença mental. Regularmente associado à sensação de pânico e de ansiedade. Mais recentemente, a psicóloga e neurocientista americana Julianne Holt-Lunstad conta que a ausência de relações sociais pode amplificar em 30% o risco de depressão e, em casos extremos, até de morte prematura.

“Se uma pessoa estiver sempre sozinha, se não tiver estímulos, as luzes vão apagando. Quando se diz que a solidão pode matar, não é um clichê, é mesmo verdade”, confere, em tom de alerta, Marisa Galante, 40 anos e há 11 a trabalhar como assistente social na associação Coração Amarelo, que acompanha Fernanda.

Fernanda vive em Benfica, num rés do chão, e sente que o medo está a tomar conta dela. Foto: Orlando Almeida

Já lá vão anos – não sabe ao certo quantos – desde que Fernanda deixou de contar com a família. Tem dois filhos, mas perdeu a ligação com ambos “há décadas”. “A culpada fui eu”, apressa-se a dizer. “Sempre fiz teatro e, depois, apanharam um choque muito grande: nunca pensaram que eu me separasse do meu marido. À frente deles, estava sempre tudo bem, mas não estava, estava tudo mal. Há uns anos que não os vejo.” Disfarçando ou não, conta o passado sem aparente mágoa. E di-lo. “A minha porta não se fecha para ninguém. Tenho sempre a porta bem fechada, para não entrar nada, mas se vierem…”

Há uns anos, Fernanda descobriu o Coração Amarelo, depois de mudar-se para Benfica, vinda da Reboleira. Veio para “uma casa de porteira”, como lhe chama, um rés-do-chão adaptado aos seus limites físicos. Encontrou uma associação onde, como conta Marisa Galante, se tenta perceber as “motivações e as necessidades” de quem está sozinho. “Esforçamo-nos, depois, para encontrar um voluntário que faça um match perfeito com o utente”, conta Marisa Galante.

Fernanda diz que os voluntários “são escolhidos a dedo”. Lá encontraram uma para ela, e, desde então, os dias tinham deixado de ser tão vazios. Havia, agora, mais vozes, mais nuances auditivas – quando se diz algo feliz, quando se fala de forma triste, quando se conversa sobre preocupações –, além das suas, dentro dos seus dias. Quando chegava a hora da visita, falavam de tudo. “Quando tenho alguma coisa de importante, conto-lhe. Se não, a menina conta-me que tem uma cadelinha, conta assim, conta assado. É uma maneira de a gente passar o tempo, que eu gosto muito. E fico tão feliz. Tenho tantas saudades. Ai, meu Deus!”. E a voz embarga-se.

A solidão não é termo novo em Lisboa, vive no seu dicionário há décadas. Fernanda faz parte de um universo de 85 mil idosos a viver sozinhos ou na companhia de alguém da mesma idade – contas feitas pelo Projeto Radar, da Santa Casa da Misericórdia, que esteve no terreno entre 2019 e 2020. De uma amostra de mais de 30 mil pessoas, 92% não tinha qualquer acompanhamento de instituições sociais, sendo a situação mais débil nas freguesias de Belém, Benfica e Lumiar.

A pandemia instigou o medo, nos mais idosos, sobre a morte. Mostram receio em ir ao hospital e ficarem infetadas com covid-19.

Agora, a solidão tem outro nome: chama-se confinamento. Mas já existia de várias formas. Grande parte dos idosos que chega à associação Coração Amarelo, vivem em prédios sem acessibilidades, diz a assistente social Marisa Galante. “3.º andar sem elevador e as pessoas só saem à rua com a ajuda de um transporte de doentes, apoiadas por bombeiros, para ir ao médico. E fazer isto fica caro: se o médico prescrever, é gratuito; senão, os bombeiros cobram cerca de 20 ou 30 euros por viagem. Em muitos prédios há elevador, mas não vai até ao último andar, por exemplo.” 

À prisão dentro da própria casa, acresce a falta de capacidade de locomoção e de reação. Sair à rua pode ser mesmo um desafio, um risco que muitos idosos não estão dispostos a correr. “Começam a ouvir histórias de pessoas da sua idade que caíram, que foram hospitalizadas, que tiveram de pôr uma prótese, e acabam por evitar sair de casa. E a nossa calçada proporciona muitas destas quedas, as pessoas mais idosas não se sentem seguras”, diz Marisa. 

Depois, há a família. Ou não há, porque são muitos os que contam outra história comum em Lisboa: a das gerações mais novas, filhos e netos, que tiveram de sair de Lisboa para morar nos subúrbios, por força do inacessível mercado de arrendamento.

O que o confinamento legal trouxe foi mais solidão e mais medo. É isso que chega a Marisa, pelos testemunhos de idosos através da linha telefónica, agora que o acompanhamento acontece à distância: “As pessoas têm muito medo que lhes aconteça qualquer coisa, terem de ir para o hospital, ficarem infectadas com covid-19 e morrerem. Por qualquer coisa, antes, acediam ao médico, e agora adiam essa ida.” As estatísticas contam o caminho desse medo: a taxa de mortalidade de quem contrai o vírus é cinco vezes superior em pessoas com mais de 80 anos, segundo a Organização das Nações Unidas.

Fernanda Duarte suspira na hora de contar o seu dia. “Mais do mesmo”. Anda para trás e para a frente, na sua cadeira de rodas, pelos poucos metros quadrados que a casa lhe dá para passeios. Visitas só três vezes por semana, de umas assistentes da Santa Casa, que lhe vão levar as refeições da semana. Acontece tudo “muito rápido”, “cinco minutos e lá vão elas”. Tem televisão e é nela que tem procurado a maior companhia. Não nos telejornais, onde os mortos são manchete. “Não gosto, porque a gente pensa na desgraça. Agora, tudo o que seja para rir eu vejo. E gosto tanto de rir com o Fernando Mendes [do Preço Certo]”.


Capítulo II

Ricardo Crato é estudante e sofre de ansiedade, aumentada pela pandemia. Foto: Orlando Almeida

A juventude perdida a cada dia

“Se a minha vida fosse uma peça, todo o meu sucesso e o que sou são os meus bastidores. Porque no palco há um lado muito negro desta pessoa.” Ricardo Crato tem no rosto a juventude dos 21 anos, mas carrega mais idade na voz e na escuridão de que fala.  Aconteceu-lhe pela primeira vez aos 15 anos. Na altura, ainda sem nome para o definir, percebeu que estava a passar por um problema que merecia atenção clínica. O que começou na cabeça passou a revelar-se também fisicamente e isso assustou-o. O diagnóstico médico: ansiedade com sintomas depressivos. Ou seja, Ricardo não tem depressão, mas pode sofrer momentos depressivos.

Os anos seguintes têm sido uma batalha contra si próprio, mas Ricardo estava longe de imaginar uma pandemia global como a que vivemos hoje e que o confinamento tornaria a sua luta muito mais árdua. “O que me destruiu mesmo foi o confinamento geral durante dois meses [em março]”.

Ricardo estudou psicologia, no ISPA, e está a fazer o mestrado em Psicologia Social e das Organizações. Mas garante que não foi para se perceber melhor. Aliás, adianta que “é um erro ir para psicologia para tentarmos perceber a nós próprios”. “Uma coisa que aprendi é que nunca temos uma imagem correta do que realmente se passa. Nunca conseguimos olhar para a nossa vida e os problemas de forma objetiva. Por isso, eu até posso achar que sei o que está errado em mim, e até posso estar certo, mas o que está a originar isto realmente pode ser algo do subconsciente que eu nem consigo controlar.”

“Sonhava todas as noites com o meu funeral”

É extrovertido e consegue enganar quem o conhece. “Ninguém diria que eu sofro de ansiedade.” É atualmente o presidente da Associação de Estudantes. “Estar nestas posições ainda nos colocam mais em ansiedade, porque não estamos só a gerir as nossas expectativas, estamos a gerir as expectativas dos outros”, diz. Mas isso não travou a adrenalina que sente ao integrar a vida associativa. Embora admita já ter perdido a conta “às vezes em que quis desistir, por estar desesperado”.

Ricardo conhece os seus ataques de pânico. São uma fabricação em série. Começa com uma preocupação, “quase sempre irracional” e “que muita gente não percebe”. Para quem sofre de ansiedade, ter uma preocupação é tão automático como adormecer. Depois surgem os sintomas físicos e é como se o corpo seguisse as ordens de um maestro. “O coração começa a bater fora do peito”. Depois, em segundos, deixa de sentir as extremidades do corpo. “O corpo está a gastar tanta energia para combater internamente esta ansiedade, que a circulação fica afetada”. Formigueiro e dormência da cabeça aos pés. E o corpo exalta-se, por fim, em espasmos.

“É a reação do corpo a sentir que está a perder o controlo sobre si mesmo e é isto que leva ao pânico. E é aqui que a ansiedade e o pânico se conjugam para criar uma tempestade.” É o que chama “um processo autodestrutivo não controlado.”

“Durante a pandemia, os maus pensamentos chegavam quase de forma obsessiva.” Foto: Orlando Almeida

A chegada da pandemia aumentou a ansiedade de Ricardo. Foi obrigado a encontrar novas formas para responder aos ataques de pânico – antes, os escapes eram a namorada e as saídas à noite com amigos. As discotecas eram os sítios onde tinha menos ansiedade, onde havia mais confusão e barulho. “São os sítios onde posso fechar os olhos e libertar-me. Vou para discotecas pesadas, ouço Transe e Techno ou Hard-Rock. Como Kanye West diz: ‘it gets so loud, you hear nothing’ [em tradução livre, “fica tão alto, que não ouves nada”].”

Ao ficar privado de tudo o que lhe fazia bem, “o limite [para ter um ataque de pânico ou ansiedade] ficou mais baixo”. Não significa que tenha mais, mas a propensão para acontecerem é maior, diz. Os distúrbios de sono intensificaram-se e as noites tornaram-se o antro dos pesadelos. Todas as noites, “sonhava com o meu próprio funeral”, conta. Se não era com o dele, Ricardo visitava a morte de familiares ou pessoas que lhe são queridas. Também chegou a sonhar “com o fim do mundo”. “Não de forma romantizada”, se a nossa ideia era um apocalipse bíblico. “Durante a pandemia, os maus pensamentos chegavam quase de forma obsessiva.”

A Associação Académica de Lisboa aponta as necessidades e desafios financeiros dos estudantes à degradação da saúde mental

Ricardo dá rosto a uma estatística que tem vindo a fazer soar alarmes na comunidade académica. Nos primeiros dois meses de pandemia, a Associação Académica de Lisboa (AAL) fez circular um inquérito que visava concluir quais os efeitos do confinamento geral nos estudantes de todo o país. Responderam 3281 alunos universitários de Lisboa, Algarve, Évora, Setúbal, Santarém, Tomar, Leiria, Coimbra, Aveiro, Porto Alto Douro, Minho e Açores – 94,8% deles a frequentar licenciaturas. 70% dos inquiridos sentiu-se afetado psicologicamente pelo confinamento.

Bernardo Rodrigues, presidente da AAL classifica o fenómeno de “burnout académico” e revela que a percentagem a que este inquérito chegou representa um crescimento de 10 a 15 por cento face ao ano anterior. Ainda assim, não ficou surpreendido com o acentuar da curva. “Se tínhamos alguma coisa que já estava a ser mal trabalhada, era normal que piorasse.”

Antes da pandemia, os sintomas desta doença estudantil já se espalhavam. “Tinha a ver com o custo de vida, que tem vindo a aumentar. Estamos a falar de estudantes que têm de trabalhar para sustentar o seu dia a dia e também os estudos. Temos este lado do aumento do custo de vida em Lisboa, no que toca à habitação – o custo do quarto, o custo da casa. E tudo o que está à volta: a atualização nas licenciaturas, por exemplo – antes do tratado de Bolonha, fazíamos em muito mais anos o que fazemos agora em três.”

Após o confinamento de março, as preocupações intensificaram-se, mas mudaram de direção. Vários estudantes reportaram que havia “docentes que não se habituaram a dar aulas à distância”, a AAL percebeu que muitos cursos práticos perderam parte desta vertente e que vários estudantes que trabalhavam para suportar as propinas ficaram sem emprego e sem possibilidade de continuar os estudos. As universidades continuaram, nos primeiros meses, a cobrar as propinas na totalidade.

Num inquérito de abril de 2020 da Universidade de Lisboa, metade dos alunos disse estar preocupada com a possibilidade de não arranjar trabalho.

A esta inquietação, aliou-se o defraudar de expectativas relativamente à entrada no mercado de trabalho, para os estudantes que se preparavam para o fazer, com a crise económica. Num outro inquérito feito em abril de 2020 pela Universidade de Lisboa, metade dos 10 822 alunos que responderam disse estar preocupada com a possibilidade de não serem capazes de trabalhar.

Se é certo que as aulas online trouxeram a Ricardo, a viver no Montijo, uma poupança de tempos em transportes e mais horas de sono, também é certo que trouxeram novas ansiedades. “Por exemplo, hoje eu tive um exame online e quase não consegui pregar olho à noite e, quando acordei, antes de ter o exame, sentia quase uma agonia. Comecei a pensar: ‘e se a internet falha?’. Isto cria um sentimento que me deixa mesmo desesperado. Tenho de pedir a toda a gente aqui em casa que desligue a internet, ninguém a pode usar enquanto eu estiver em exame. Porque a primeira coisa que me vem sempre à cabeça, quando há uma incógnita, é o pior cenário possível. A seguir, o segundo pior cenário possível.”

O diretor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa não tem dúvidas de que o problema começa, em grande parte dos casos, na forma como hoje os pais gerem a educação dos filhos, que torna as crianças e jovens “menos autónomos”. Luís Curral acredita num crescimento da ansiedade e de depressões entre os mais jovens, mas alerta que é preciso ter em conta que há hoje um maior rastreio e, por isso, os números serão naturalmente mais elevados.

Exemplo deste rastreio são as linhas de apoio psicológico criadas por várias instituições desde o início da pandemia. A que foi criada pela Faculdade de Psicologia de Lisboa [210 443 599], que funcionou entre 1 de abril e julho, fez um total de 100 atendimentos, 50% destes em abril e 25% em maio. As chamadas foram reduzindo à medida que o ano letivo caminhava para o fim.

A esta linha telefónica chegaram relatos de toda a índole, alarmando ainda mais a comunidade académica para o tsunami de repercussões do foro mental. Do total de chamadas, houve ainda 14% de fora da universidade, encaminhadas pela Direção-Geral da Saúde. Entre alunos, ouviram-se relatos de episódios graves de ansiedade, associada a esgotamento, medo e depressão, alunos com episódios de fúria e ataques de choro. Algumas chamadas nunca chegaram ao fim.

Mostramos algumas das notas registadas pelos voluntários que atenderam estas chamadas.


Capítulo III

Marta Teixeira, dois filhos e o fim de uma licença de maternidade em pandemia. Foto: Orlando Almeida

Nem mãe nem mulher

Os dias de Marta Teixeira repetiam-se em série desde o início da pandemia. Ainda o sol se esforçava por espreitar no horizonte da freguesia de Benfica, já ela acordava para cuidar do filho mais novo, com um ano. Às 7:30 entrava em piloto automático: vestia a outra filha, cinco anos, corria à cozinha para preparar o pequeno-almoço de todos. Todos, menos o seu, muitas vezes. “Umas vezes eu conseguia tomar o meu”. Umas vezes.

Prego a fundo no computador até às 13:00 para esta engenheira informática da Microsoft, 43 anos. Numa tecnológica, estava habituada ao teletrabalho, mas nunca esperou fazê-lo com dois filhos ao colo, como na pandemia. As tardes complicavam-se: “o meu filho dormia mal e tinha de estar com ele ao colo para que descansasse, a meio da tarde, tinha de lhes dar o lanche, e, no final do dia, era o único tempo para lhes dar atenção.” Deitava a cabeça na almofada e no dia seguinte começava um novo dia.

Foram estas memórias do primeiro confinamento, que fizeram Marta temer o segundo, que se iniciou no final de janeiro deste ano. “Tenho a sensação de que, nestes meses, não fui mãe nem mulher a 100%. Nem a 50%. Não consegui ter tempo para eles, nem para mim, nem para o meu companheiro, o meu marido.” Esse tempo cravou as suas marcas no presente de Marta. Houve alturas em que chorei de desespero e cansaço”, diz Marta, sem filtro ou pudor.

“O máximo que faço por mim é um banho”  

Quando tudo começou, Marta não previa que a experiência fosse tão complexa. Por causa da situação complicada que já se vivia em Lisboa, e porque a família tinha possibilidades de trabalhar à distância, acabaram por arrancar o confinamento uns dias antes de ter sido decretado oficialmente. “Era o desconhecido com que estávamos a lidar e creio que fomos mais extremistas.” Evitavam sair até para ir às compras – remediaram com compras online ou saíam de muito em muito tempo. O filho mais novo só voltou a sair pela porta de casa um mês e meio depois.

Nessa altura, o filho ainda era mais dependente: precisava de mamar, ainda não andava sozinho e estava a aprender a regular o sono. “Várias vezes lhe dei de mamar enquanto estava a trabalhar. Muitas das vezes com que falei com clientes – eles não viam -, eu estava com o meu filho nos braços”.

A filha mais velha já tinha um “bom grau de autonomia” para a idade, mas um dia inteiro a brincar sozinha deixava-a revoltada com o que se passava e que não conseguia compreender. “Ela foi quem mais sofreu. Houve alturas em que pedia muita atenção. E dizia: ‘Ninguém brinca comigo, ninguém me liga nenhuma’.”

Crescia em Marta o sentimento que havia de corroê-la, de culpa por estar a aplicar com a filha o oposto daquilo que os livros de pedagogia incentivam e em que ela própria acredita. Parece um drama, mas esta foi a realidade de muitas casas portuguesas. Um relatório publicado em 2020 pelo Observatório da Luta contra a Pobreza de Lisboa mostra que a “dificuldade no acompanhamento do ensino/escola” dos filhos foi um dos principais impactos desta crise causada pela pandemia.

Marta lembra-se dos gritos. “Eu tinha de parar, pedia para os clientes esperarem. Houve uma situação em que me desligaram a chamada, porque estava aqui um autêntico caos e nenhum de nós se ouvia.” Vida profissional e pessoal, com dois filhos, já é difícil. Na pandemia, com todos em casa, era “a tempestade perfeita”. Foi o que sentiram muitas famílias. E muitos casais. A relação também foi um desafio constante: “Estamos os dois o dia inteiro no mesmo lugar, há meses. Não há saudade e isso importa muito.” A pandemia chegou quando Marta tinha acabado de regressar ao trabalho depois da licença de maternidade – que já tinha passado em casa, oito meses. 

O resultado ficou à vista: emagreceu vários quilos. “O stress e as noites mal dormidas… dá-me para não comer.” E a autoestima passou a ser um assunto delicado. Marta deixou de escolher roupas pelas cores e a não prestar atenção aos padrões. A peça que estiver mais perto da sua mão é aquela que ela vai agarrar. Hoje, diz: “o máximo que faço por mim é um banho”. Apesar de todos os sinais, em momento algum procurou ajuda. 

“É interessante pensar nisto: um dos fatores que sabemos que está a afetar mais a saúde mental é a incerteza quanto à duração”

Beatriz Lourenço, ManifestaMente

Foi logo em março que os especialistas da saúde mental começaram a adivinhar os riscos que a pandemia podia trazer. Não era só uma questão de saúde do corpo, era também da alma. Várias experiências com outras doenças infecciosas apontavam no sentido de crescimento destes problemas: além do medo, da solidão, a incerteza, que se agravou num segundo confinamento. 

“É interessante pensar nisto: um dos fatores que sabemos que está a afetar mais a saúde mental é a incerteza quanto à duração”, diz Beatriz Lourenço, psiquiatra no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (antigo Júlio de Matos) e cofundadora da iniciativa ManifestaMente, associação sem fins lucrativos. E garante: “Quanto maior o confinamento, maior o impacto”. Como uma bola de neve, que vai rolando, levando consigo todos os flocos que apanhou pelo caminho. 

A médica fala especialmente do impacto gerado pelo teletrabalho, que “apesar de manter a produtividade das instituições acarreta riscos para o trabalhador, ao misturar-se facilmente o tempo de trabalho e de não trabalho, com tudo a acontecer no mesmo sítio e à mesma hora”. Quando juntamos a isto filhos que não vão à escola e que dependem dos pais a toda a hora, o dia a dia é ainda mais exigente.

Este risco ficou refletido nos pedidos de ajuda encaminhados pela linha de apoio que a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior abriu no ano passado, por exemplo. Dos 527 telefonemas no total, com maior afluência à linha em maio, o grupo dos “pais e dos mais de 65 anos” foi quem mais recorreu à linha, segundo dados disponibilizados pela freguesia.

Foi também a pensar nisso que a Ordem dos Psicólogos Portugueses lançou um documento de apoio aos pais em teletrabalho, designado “Kit de sobrevivência para famílias”. Beatriz Lourenço diz que “os estudos mostram que são as camadas mais jovens que reportam um aumento da ansiedade, mais problemas de sono”. Foi a faixa etária que mais viu a sua rotina alterada “e não têm a maturidade para lidar com isto”. Até porque, lembra, “um ano na vida de um jovem não é o mesmo que um ano na vida de alguém de 60 anos”.

“Mas, de uma maneira ou de outra, o que a pandemia mostrou é que todos nós podemos estar vulneráveis ao sofrimento psicológico”. Quer tenhamos mais ou menos recursos. A diferença pode estar, contudo, na zona onde habitamos – mais do que a casa, a área circundante. A cidade. A psiquiatra explica que em lugares urbanos, com falta de espaços verdes, e aglomerados populacionais com mais de um milhão de habitantes – como é o caso da Grande Lisboa – aumentam o risco de doença mental. E o contrário – espaços verdes e azuis (de água) – pode funcionar como um sérum calmante.

A associação ManifestaMente ajuda os técnicos da Câmara a lidar com problemas de saúde mental. “Não podemos deixar isto só para os técnicos de saúde”, diz Beatriz.

Esta é mais uma preocupação para as autarquias. A associação que Beatriz Lourenço dirige, a ManifestaMente, lançou um programa de Capacitação de Dinamizadores Locais, co-financiado pela Direção-Geral da Saúde e trabalha com a câmara de Lisboa para “empoderar as pessoas-chave que trabalhem nas autarquias ou que trabalhem em grande proximidade com elas em temas sobre saúde mental, para que possam dinamizar e catalisar os recursos que já existem”. 

A ManifestaMente está no terreno desde 2017, embora só desde 2019 é que tenha sido constituída oficialmente como associação, e pretende juntar cidadãos, decisores e especialistas para falar sobre os caminhos da saúde mental. Por isso, decidiram formar quem “conhece melhor as necessidades, conhece o que existe, o que pode ser feito, e mudar o paradigma de uma comunidade”. “Não podemos deixar isto só para os técnicos de saúde”.


Capítulo IV

Como uma cidade pode sarar

Lisboa é o retrato do país. O que se passa na cidade não se extingue no seu território. No entanto, quando o assunto é a saúde mental dos portugueses, viver numa área tão urbanizada como a capital pode atiçar episódios de ansiedade e depressão, mais do que aconteceria com quem vive em regiões mais rurais. A conclusão está explanada no relatório que serve de base para a implementação do Programa de Saúde Mental municipal e ao qual a Mensagem teve acesso.

O documento, redigido pelo consultor Pedro Machado dos Santos, do CINTESIS (Centro de Investigação em tecnologias e Serviços de Saúde), explica que “descrever e medir a ‘saúde mental’ de uma cidade é uma tarefa complexa’”, mas há determinados fatores dos quais tem de depender este olhar. O risco pode ser tanto maior consoante o “nível do ambiente construído”, por exemplo. Isto é, a existência ou não de espaços verdes e de poluição sonora e atmosférica.  Mas também depende do ambiente social: se há solidão, alta ou baixa criminalidade e se é ou não percecionada a igualdade social.

Tal como viver na cidade tem impacto reconhecido na saúde física, nomeadamente nas altas taxas de doenças cardiovasculares e respiratórias, “também pode ter efeitos adversos sobre a saúde mental”.

O risco, em Lisboa, previu-se alto. E as estatísticas vieram comprová-lo. No dia 7 de outubro, a Câmara Municipal de Lisboa lançou a público, online, o inquérito de opinião “Saúde Mental em Lisboa”, para perceber que efeitos deste foro estava a pandemia a deixar nos lisboetas. Entre o dia de lançamento e o dia 5 de novembro – o período no qual existem dados disponibilizados pela autarquia -, foram validadas 1662 respostas, a maioria vindas de pessoas de nacionalidade portuguesa (98%), que vivem (70%) e trabalham em Lisboa (73,5%), grande parte também mulheres (74%).

Entre todos, 57,4% disse conhecer alguém próximo com problemas de saúde mental e 42% faz uma autoavaliação negativa do seu estado psicológico.

Manuel Grilo, vereador dos Direitos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa
Foto: CML

“Creio que os números são sempre compreensíveis num determinado contexto. Tem a ver com a angústia que a pandemia veio acrescentar à insegurança que já era sentida”. Di-lo Manuel Grilo, vereador da autarquia com o pelouro dos Direitos Sociais, em entrevista à Mensagem.

Os resultados não foram, por isso, uma surpresa, e vieram provar uma fragilidade decorrente “de condições laborais muito precárias, que garantem sempre algum rendimento, mas que em tempo de pandemia se revelam excessivamente fracas e atiram as pessoas para o desemprego”. “Isto paga-se em termos de saúde mental”, não tem dúvidas. Porque “daqui à doença mental, muitas vezes, vai um pequeno passo”.

Mas o que as conclusões deste inquérito vêm provar é que há muitas outras causas além da iminência da perda de rendimentos. A grande maioria (53,3%) dos inquiridos apontou o distanciamento social como o fator que mais impactou a sua saúde mental neste último ano. Depois, seguem-se consequências e receios trazidos pela pandemia, de forma geral, a todas as casas. Há 46,8% a responder que a sobrecarga de trabalho foi um influenciador do mal-estar mental. Ainda, a redução da atividade física (40,4%), e ainda os medos de contagiar alguém com covid-19 (39,7%) ou de adoecer pela mesma razão (36,8%).

Mas se, por um lado, a cidade pode ser um problema, pode também ser a solução. No relatório da autarquia, está exposto que uma cidade saudável “contribuirá para mudar a forma como os indivíduos, comunidades, organizações privadas e voluntárias, e governos locais pensam, compreendem, e tomam decisões sobre esta dimensão da saúde”.

Uma ideia, aliás, reiterada pela psiquiatra Beatriz Lourenço, da ManifestaMente, “os espaços verdes e azuis (de água) apontam para o aumento de bem-estar e podem funcionar como fatores protetores da doença mental”. Durante o programa de Capacitação de Dinamizadores Locais, que ajudou a coordenar, levou esta mensagem, mas garante que verificou que “isto é cada vez mais uma preocupação das autarquias, ter mais ambientes saudáveis dentro das cidades”. Lisboa inclusive, onde o programa atuou.

O vereador Manuel Grilo diz que Lisboa já há muito que debate este tema. “Este trabalho vem antes da pandemia. Houve um primeiro Fórum da Saúde Mental em Lisboa, no final de 2018. Já havia esta preocupação e é uma das áreas da saúde em que houve menos investimento. Está muitas vezes ausente dos cuidados de saúde primários. Mas, sendo uma parte importante da vida das pessoas, entendemos que era necessário dar especial atenção à saúde mental.” Uma necessidade da qual nasceu o inquérito online, que serviu “para transferir conhecimento efetivo sobre aquilo que se está a passar na cidade”.

O envolvimento das pessoas e associações “é a pedra-de-toque naquilo que queremos que sejam as novas políticas públicas.”

Manuel Grilo, vereador dos Direitos Sociais (Câmara Municipal de Lisboa)

“Temos de conhecer, para depois fazer propostas de intervenção.” Daqui para o plano municipal para a saúde mental sai a ideias de organizar “mini-fóruns” online e temáticos “de grupos considerados especialmente vulneráveis nesta área”: “sobre pessoas LGBTI, sobre o emprego, sobre demências, sobre interculturalidade, crianças e jovens, e pessoas em situação de sem-abrigo”. Manuel Grilo garante que decorrerá ao longo deste ano.

À questão sobre que impacto direto poderá ter este plano na vida de quem sofre ou venha a sofrer com um problema do foro mental, o vereador declara que quem pode organizar respostas a este nível são as autoridades nacionais. “Não podemos nós organizar respostas de saúde mental, porque somos um município e não o Serviço Nacional de Saúde.” Mas fica uma certeza: no que for pensado localmente daqui para a frente, terá de acontecer com “o envolvimento de associações e das próprias pessoas com problemas de saúde mental”. “É a pedra-de-toque naquilo que queremos que sejam as novas políticas públicas.”

Se precisar de ajuda, pode acorrer ao serviço “Liga-te” da Câmara Municipal de Lisboa, uma linha de apoio gratuita e disponível através do número
800 916 800, 24 horas por dia, sete dias por semana

A psiquiatra Beatriz Lourenço deixa dicas para se manter saudável em confinamento:

  • Manter rotinas
  • Respeitar o tempo de descanso (para hobbies e para dormir)
  • Manter a ligação com outros, de forma virtual
  • Fazer exercício físico
  • Fazer uma boa alimentação
  • Reduzir o consumo de informação sobre covid-19 e escolher fontes de informação credíveis

Se conhece mais histórias sobre saúde mental que merecem ser partilhadas, contacte-nos:


Catarina Reis 

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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