Quando cheguei aqui pela primeira vez, não entendi nada, muito menos percebi que estava em casa. É que eu vinha de um lugar onde Lisboa parecia muito longe e não me custou a ganhar-lhe o gosto, só a perceber que quem chega não pode mais partir. Afinal, Lisboa tem um sorriso que agarra como mãos. Fascinamo-nos com ela e ela segue indiferente a bailar no seu vestido.

Lisboa é isto: uma mulher de braços abertos ao mundo, luminosa, intensa, pronta para dar a volta a tudo. Não dá para entender se é romance ou romancista. Sabe-se apenas que Lisboa nunca sofre, que é aquela menina de cor clara, cabelo solto, que dança no Terreiro do Paço em frente ao Tejo.

O amor, o desejo, os caprichos, as frustrações, tudo se move sorrateiramente nestes recantos tenebrosos, nos bares e nas vielas, nos declives.

E é o espanto de sempre a cada declive. Depois de uma curva, um fio de rio ao fundo, uma corda de espanto, uma rua que é vertigem. O Tejo surpreende sempre, azul pintado de azul por cima. Estende-se até à outra margem, tem um Cristo de braços abertos ao fundo, ao mundo, e leva ao mar onde jazem tantos mortos. Mas a vida é isto e aqui acontece, quem pode lembrar-se da história e das naus afundadas nesta cidade que combate a depressão? Há demasiadas coisas a espreitar em cada esquina. O amor, o desejo, os caprichos, as frustrações, tudo se move sorrateiramente nestes recantos tenebrosos, nos bares e nas vielas, nos declives.

Há cidades que são capitais do mundo, centros de finanças, palcos de guerras. Lisboa é uma mulher que usa cachecol, e quando me vi longe tive saudades do que só ela me dava: a sensação de que o ar é mais fino, de que o centro do mundo é este, de que de qualquer pedra brota um livro.

Pessoa dissera a Cesário, que “Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti”. Eu nem sabia onde era a Praça da Figueira.

Durante muitos anos, Lisboa foi aquela coisa enfiada nos papéis, a refulgir nas páginas de Cesário Verde, a respirar nas de Fernando Pessoa. Até Sá Carneiro a deu ao mundo antes de se retirar dele. Nessa altura, eu ainda não queria dizer a Lisboa, como Pessoa dissera a Cesário, que “Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti”. Eu nem sabia onde era a Praça da Figueira. Claro que entretanto a vida se fez uma coisa mais prosaica e hoje ou passo lá de mota ou páro para comprar chouriços.

Ouvi-lhe o sotaque envergonhado, a comer-me as vogais ao ouvido, e conheci a magia de entrar num beco escuro, procurar lologramas, tocar à campainha, entrar à socapa, comer noodles na casa de alguém. No torpor alcoólico da libertinagem extra-livros, vi homens bêbedos, mulheres drogadas, e tudo aquilo foi José Cardoso Pires a existir à minha frente.

Quando me vi longe dela, tive ciúmes. Ali estava Lisboa, nas mãos de todos, aos pés de todos, a continuar sem mim.

Quis comê-la todos os dias, senti-la na minha boca. Sempre vigiada por estátuas, passei a correr pelo Eça, vi o Camões ao longe, ignorei o Chiado, mais estação de metro do que poeta, vi o Ricardo Reis sentado e só no Rossio a agarrei pela cintura. Mesmo que eu fosse ao mundo, a ela voltaria, a esta cidade que foi conquista e hoje só pode ser chegada.

Quando me vi longe dela, tive ciúmes. Ali estava Lisboa, nas mãos de todos, aos pés de todos, a continuar sem mim. E irritou-me nem ter podido fazer mossa. Afinal, ela não precisava de mim para nada, seguia rumo ao seu destino, continuava de branco a bailar dentro do vestido. Pensei nela por não tê-la, com o coração partido, mutilado de distância, e entendi que o seu poder vinha de ser a mais fêmea das cidades.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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3 Comentários

  1. A perfeição: “ Afinal, Lisboa tem um sorriso que agarra como mãos. ” .
    Excelente crónica!

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