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Ciao vicino! 

Hoje quero explicar-te como eu, italiana, de Veneza, que vive em Portugal, vivo e festejo o dia 25 de Abril — uma data que, há anos, celebro três vezes, independentemente de onde me encontre.

O meu 25 de Abril, tal como eu, tem três almas. Primeiro, a de uma italiana que celebra La Liberazione – a libertação da Itália do regime fascista e da ocupação nazista, em 1945. Depois, a de uma veneziana que celebra o padroeiro da cidade, São Marcos. E, por último, a de uma portuguesa, que comemora a Revolução dos Cravos, o 25 de Abril 1974.

O dia 25 de Abril é, por isso, o dia que marcou o fim da ditadura, não só no país onde nasci e cresci, mas também naquele onde decidi viver. O que me tem despertado um sentimento de pertença muito particular: é como se a partilha desta data me fizesse sentir mais em casa neste país que me era estrangeiro.

Como se não bastasse, na cidade onde cresci, este dia tem ainda um significado adicional: é o dia de São Marcos, o nosso padroeiro. E é precisamente esta a história que vos quero contar hoje. Uma história que, ao contrário da libertação de Itália e da Revolução dos Cravos portuguesa, provavelmente nunca ouviram.

Tal como em Portugal é costume passear e até oferecer cravos vermelhos no dia 25 de Abril, em Veneza temos a tradição de oferecer um botão de rosa vermelho — em dialeto veneziano, “bòcolo”.

Esta tradição popular terá origem no mito de Maria Partecipazio — chamada “Vulcana” pelos venezianos, devido aos seus olhos muito escuros — e Tancredi. Sendo ela uma nobre, filha de um “patrício veneziano”, e ele um plebeu… já conseguem imaginar a história. A união deles não era bem vista. Por isso, Tancredi, para provar o seu valor ao pai de Vulcana, Orso, partiu para combater os árabes na Península Ibérica, ao lado de Carlos Magno. Lá, morreu.

Mas a lenda conta que, nos seus últimos suspiros, Tancredi caiu sobre um roseiral, tingindo-o de vermelho com o seu sangue, e colheu um botão de rosa, que entregou a Orlando, seu companheiro de batalha, para que o levasse à sua amada Vulcana. E assim fez Orlando, entregando a flor a Vulcana na véspera do dia 25 de Abril. Mas Vulcana foi encontrada na sua cama, no dia de São Marcos, morta de dor pela perda do seu amado, apertando contra o peito a flor que lhe foi oferecida por Tancredi.

Esta é uma das lendas que explicam a tradição veneziana de oferecer o “bòcolo” no dia 25 de Abril. Um gesto romântico, tradicionalmente de homens para mulheres, mas hoje trocado entre todos.

Já para celebrar a Libertação, em Itália, é habitual juntar-me aos meus amigos e família para churrascos e festas no jardim ou na rua.

Mas há alguns anos que, no meu 25 de Abril, os churrascos e o botão rosa foram substituídos pelos cravos vermelhos e estar numa manifestação pela liberdade, em qualquer cidade portuguesa onde me encontre, Lisboa ou não. Celebrar com os portugueses esta data que nos une.

No fim, sejam rosas ou cravos, em casa ou na rua, portuguesa, italiana ou veneziana, o importante é celebrar e recordar, e aproveitar a sorte que temos de poder comemorar, todos, este dia.

Até breve.

Sara Bassini

Estagiária na Mensagem de Lisboa


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