Corria o ano de 1948. No bairro de São Domingos de Benfica, as crianças jogavam à bola na rua e os nomes dos vizinhos não precisavam de ser apresentados. Pastelarias como a Riviera, o Arabesco e o Califa eram os principais pontos de encontro para dar mais do que dois dedos de conversa. Depois do jantar, permaneciam abertas e por lá se ficava. Nesse ano foi criada, ali perto, na longa Estrada de Benfica, a primeira e a única Escola Técnica da PIDE. Era o número 239 e ficava mesmo ao lado do Jardim Zoológico de Lisboa, em Sete Rios. 

Helena Barros, 64 anos, é membro da assembleia da junta de freguesia de São Domingos de Benfica. Nasceu e cresceu em São Domingos de Benfica, recorda como era viver à sombra da PIDE. A presença de inspetores na pastelaria Riviera era assídua e sentida pelos moradores. “Era fácil identificá-los, eles tinham uma postura, um olhar e maneira de ser muito própria.”

A vida era feita com limitada normalidade, os vizinhos falavam de tudo… menos de política. Sabia-se e conhecia-se com quem se podia falar sobre determinados assuntos.

Entre os mais novos, como Helena, o medo andava sempre de mão dada com as brincadeiras na rua. “Ainda hoje tenho noção da sensação quando ouvia o bater dos cascos dos cavalos nas pedras. Era a GNR. Nós fugíamos para dentro das portas e dos cafés da zona.”

Helena Barros, moradora de São Domingos de Benfica.Foto: Geraldo Ferreira

João Xavier, 66 anos, também cresceu nas mesmas ruas que Helena. Lembra-se dos tempos em que jogava à bola com os amigos no bairro, “Ingenuamente referi  Lev Yashin, o nome de um guarda redes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (a antiga Rússia) porque ele era realmente muito bom, e os meus amigos logo a seguir disseram ‘está calado, não digas isso’.” Tinha apenas sete anos e já sentia na pele o que era viver com receio de falar.

No caminho que fazia para a escola todos os dias, passavam pelo enigmático edifício da PIDE. Sabia-se o que era, mas não o que lá se fazia.

Havia um determinado silêncio quando se passava por ali. Eu evitava passar no mesmo passeio por duas razões: o medo e a curiosidade. Queria  saber o que estava lá dentro, porque nunca se via ninguém”, recorda Helena.

Armando Serôdio, 1968- O palácio onde estava instalada a escola da PIDE. | Arquivo Municipal de Lisboa

Hoje nada no local assinala a sua existência. Em 2022, ainda se podia ver os restos do muro desta escola, que a requalificação da praça de Sete Rios fez ruir de vez.

A escola da repressão

Sofia Lisboa, 33 anos, é historiadora. Foto: Geraldo Ferreira

Sofia Lisboa, 33 anos, é historiadora e dedica-se a investigar como é que a memória da resistência se transforma em património. Como esta escola da PIDE. Para Sofia, o desaparecimento de espaços ligados ao Estado Novo não é indiferente à forma como recordamos o passado.

“Quando edifícios ou objetos desaparecem do espaço eles também vão desaparecer na nossa memória”, acredita.

A escola tinha um ginásio, um espaço de tiro ao alvo, uma biblioteca e até uma piscina.  Oferecia vários cursos, e nos nossos dias, seria equivalente a fazer uma formação na área do turismo: recebia alunos de todo o país que tinham oportunidade de alojamento.  

Nos anos finais, contava com 39 professores, que não estavam a tempo inteiro na instituição, uma vez que lecionavam também noutras escolas da cidade.

O objetivo era formar agentes para ingressarem na polícia política, para assim alcançar o cargo de inspetores da PIDE. “Esta formação passava por práticas de vigilância, interrogatórios e até mesmo informação internacional – por exemplo, sobre o comunismo”, explica a historiadora.

Durante as aulas, eram transmitidas informações sobre os direitos dos presos e como agir durante um interrogatório. “Algo que contrastava com a realidade na altura”, acrescenta Sofia.

Sabe-se também da existência de um manual de tortura. Embora não tenha sido encontrado – nem conste nos arquivos da torre do tombo –, há indicações que tenha sido estudado nesta escola técnica.

Isabel Paula, cresceu pelas ruas de São Domingos de Benfica. Foto: Geraldo Ferreira

Uma escola que não passou despercebida à oposição do regime. Em 1970, na madrugada de dia 21 de Novembro, pelas 4:00 horas, terá sido posta uma bomba junto do edifício pela Ação Revolucionária Armada (ARA), como forma de resistência à guerra colonial. A bomba rebentou 20 minutos antes e acabou por fazer uma vítima, um rapaz de 15 anos que regressava de uma noite de trabalho.

Isabel Paula, 69 anos, cresceu pelas ruas de São Domingos de Benfica. Estava lá neste dia. “Ia a caminho da escola e achei estranho o aparato à frente da escola. Não era normal estar muita gente naquele passeio. Fomos informados que tinha sido posta uma bomba e ficámos chocados porque não era algo a que estivéssemos habituados”.

Quatro anos depois, tudo mudaria.

A manhã de 27 de abril de 1974 

João Xavier, morador em São Domingos de Benfica. Foto: Geraldo Ferreira

Pode dizer-se que a revolução de Abril de 1974 se fez sentir verdadeiramente em São Domingos de Benfica apenas na manhã do dia 27, quando o Movimento das Forças Armadas chegou à escola técnica da PIDE.

João Xavier regressava a casa depois de encontrar o liceu de portas fechadas, num país ainda em festa. Viu um alvoroço junto à escola e aproximou-se com curiosidade. “Juntei-me à multidão e fiquei a saber que aquela casa era a escola técnica da PIDE. Os militares estavam a capturar legionários e polícias políticos que moravam ali perto.”

Do outro lado do muro, dentro da escola, os militares tinham outras preocupações. 

Victor Louro tinha 29 anos na altura e era o oficial dos fuzileiros do Movimento das Forças Armadas. Tal como muitos militares, não sabia ao certo o que funcionava naquele edifício. Este desconhecimento ajuda a explicar porque é que a escola só foi tomada dois dias depois do 25 de Abril. 

A entrada foi feita sem resistência. Mas, antes disso, os militares estavam receosos que a escola primária ao lado fosse utilizada como escudo por parte dos agentes da PIDE. 

“Na realidade não foi difícil. A minha primeira surpresa foi que não estava lá ninguém dentro. Procuramos bem porque não conhecíamos as instalações e poderia haver esconderijos. Mas sem sucesso. No entanto, percebemos que estiveram lá pessoas ainda nessa noite – nos lavatórios havia salpicos de água”, recorda Victor.

A chegada dos militares à escola técnica da PIDE. Foto: Casa Comum – Fundação Mário Soares/Carlos Gil

À porta, uma bazuca apontava para o edifício. Era sobretudo para impressionar : a arma não estava carregada, tinha apenas o tubo e o suporte e ainda alguns cabos elétricos pendurados. O ex-militar refere que fazia “muita vista”.

Os militares continuavam as buscas quando se depararam com um museu. Fotografias de presos políticos, cartazes de manifestações e algumas medalhas expostas em vitrines. Era ali que a memória da repressão se guardava.

 O que mais impressionou Victor foram uns lençóis, “Utilizaram-nos na fuga de peniche de 1960, ainda estavam amarrados, tive uma emoção muito grande quando vi aquilo”, conta o ex-militar. 

Nas horas seguintes foi exigido aos militares que capturassem os inspetores da PIDE que viviam nas redondezas da escola. Coube a Victor ter de prender uns quantos. “Foi uma tarefa ingrata. Apesar de ter de fazer o que me competia, sentia-me mal em fazer o que me fizeram inúmeras vezes em casa, as buscas e as sucessivas detenções do meu pai”.

João Xavier recorda-se da revolta que pairava no seu bairro, quando estas buscas começaram. “A minha vizinha do lado lançava impropérios ameaçadores da varanda quando percebeu que os militares iam buscar alguém da Legião Portuguesa, o vizinho do prédio em frente. A fúria fê-la descer num ápice do 3.º andar à rua. Nunca tinha visto os meus vizinhos assim.”

Victor Louro, militar. Foto: Margarida Filipe

O militar Victor Louro passou a noite na escola. No dia seguinte, os populares indicavam que podiam estar armas escondidas no canil municipal que estava ao lado do edifício. Começaram as buscas. O chão foi picado com os canos das G3 (arma), mas nada foi encontrado.

“Nessa situação tive de disparar um tiro para o ar, para conter as pessoas. Invadiram o canil de uma tal maneira, que foi preciso tomar rédeas – queriam mesmo vingança.”

A recolha de arquivos foi outra ação levada a cabo pelas Forças Armadas. Desde fichas individuais de presos e formandos da PIDE. Alguns militares ficaram com peças que encontravam para recordar a sua intervenção. 

Vitor Louro, o oficial, na transferência de arquivos da Escola Técnica da PIDE. Foto: DR

“Fazer parte para não esquecer” 

Há quem se recuse a esquecer a memória desta escola. 

Desde 2024, o Atelier Artéria tem vindo a desenvolver um projeto de arte participativa, em parceria com a Faculdade de Belas-Artes. Conta ainda com o apoio da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, que tem colaborado com a divulgação e realização das sessões em comunidade.

Trata-se de um projeto que envolve moradores, artistas e investigadores. O objetivo é criar uma obra de arte pública no local da antiga Escola Técnica da PIDE.

O atelier Artéria, em São Domingos de Benfica. Foto: Inês Leote

Ao longo das várias sessões a população foi convidada a partilhar memórias e registos daquele passado para contribuir para a criação de propostas artísticas.

Apelidada de “Anti-monumento”, esta obra integra as silhuetas dos próprios participantes, desenhadas ao longo do processo, que irão formar um muro junto ao local onde esteve esta escola.

Helena Barros participa neste projeto. A moradora conta que quando foi eleita pela junta de freguesia disse que não sairia  sem deixar algo que recordasse à escola. “Acho que é importante manter a memória viva. Lembrar o que foi o 25 de Abril, que foi um dia maravilhoso mas também do que aconteceu antes desse dia.”  


Tatiana Martins

Nascida e criada nas ruas de Lisboa. Encontra no simples “bom dia” e na conversa de café a matéria-prima para a sua escrita. Para ela, contar histórias começou na vizinhança.É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Autónoma de Lisboa e está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

*Texto editado por Catarina Reis

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *