
Olá, vizinho/a
Há três anos, estávamos por esta altura a conhecer Jorge Costa, um homem de barba farta, camisolas com referências a Quentin Tarantino, com sensibilidade para a cultura e o humor, mas que o decorrer da vida o fez viver na rua, durante oito meses. Dizia-nos ele que “oito meses não é nada”, comparativamente aos que vivem anos em situação de sem-abrigo, para logo depois dizer “que é tudo”, porque oito meses equivalem a anos quando são dormidos na rua.
Não poderia ser mais simbólico falar dele no Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, hoje.

Jorge tornou-se cronista da Mensagem de Lisboa, num feliz encontro de vontades e ideias. Aqui, encontrou um espaço seguro e de liberdade para contar aqueles oito meses, já ele a viver numa casa, ao abrigo do programa Housing First. Primeiro, crónicas escritas num telemóvel. Depois, num computador que lhe foi cedido por uma leitora da Mensagem.
Foram muitos os leitores atentos e solidários – Jorge nem queria acreditar nas centenas de mensagens que recebia.
Através do “Diário de um sem-abrigo”, relatou-nos vezes sem conta o drama de ter o céu de Lisboa como teto, mas também como a esperança está nos mais pequenos detalhes das ruas desta cidade.
Ficámos a conhecer o amigo “Zé”. “Olha, Zé, já tenho uma casa, vês? Gostava que estivesses aqui, vivo, meu amigo”, escreveu.
Mas também ficamos a saber que as casas de banho das estações podem ser sítios muito sombrios, que um barbeiro pode salvar uma véspera de Natal, o que é preciso para se ser levado a sério como arrumador de carros, e a felicidade que é conhecer uma casa sua quando não se pensou ter mais alguma na vida.
“Tomei três duches quentes e ando pela minha nova casa nu, a dançar”, disse o Jorge.
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Jorge Costa morreu um ano depois do início desta aventura, no IPO, vítima do cancro que o afetou desde esses tempos na rua. Tinha 55 anos. Deixou-nos a olhar para Lisboa como nunca antes tínhamos olhado. E que nos pediu, a nós, jornalistas, que fizéssemos mais por quem passa por aquilo que ele passou.
Foi daqui que nasceu um livro póstumo, editado pela Oficina do Livro/LeYa, com as crónicas e prefácios de Marcelo Rebelo de Sousa e Nuno Markl. Diário de um Sem-Abrigo: Os dias (e noites) de Jorge Costa a viver nas ruas de Lisboa encheu a sala do centro de acolhimento de Santa Bárbara, em Arroios, no lançamento.


E nós voltámos lá, depois, para ouvir as pessoas em situação de sem-abrigo, sobre os seus desafios e sonhos – que isso é coisa que não se deixa de ter, dizia-nos o Jorge.

Mas tínhamos mais para fazer.
Assim, decidimos que o valor das vendas do livro de Jorge Costa reverteriam para uma Bolsa de Jornalismo sobre sem-abrigo na Área Metropolitana de Lisboa. Recebemos dezenas de candidaturas, que provaram que a missão de Jorge está ainda viva e quer perdurar. O júri da bolsa, com Maria Teresa Bispo (técnica da Câmara Municipal de Lisboa e amiga de Jorge), Francisco Sena Santos (jornalista reconhecido e docente de jornalismo), Américo Nave (diretor da CRESCER), Pedro Sobral (diretor-geral do grupo LeYa e presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) e Catarina Reis (jornalista e editora na Mensagem de Lisboa) decidiu atribuir a Bolsa de Jornalismo Jorge Costa à candidatura de um coletivo de professores e alunos da Nova FCSH (António Granado, Carolina Arnedo, Catarina Santos, Dora Santos Silva, Gabriela Ferreira, Leonor Ferrão, Maria Inês Mendes, Marta Abreu e Rita Lourenço). O júri considerou a inovação, rigor, atualidade, impacto, foco geográfico e preocupação com um conteúdo direcionado para as soluções e para a comunidade, além de multiplataforma.
Mas, acima de tudo, o júri considerou que esta proposta correspondia à vontade de Jorge Costa em transformar a cidade através da informação.
Que é, no fundo, o que nos traz a responsabilidade que vem com a Liberdade de Imprensa. Obrigada a todos por partilharem esta missão connosco.
– A equipa da Mensagem de Lisboa
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