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Olá, vizinho/a

Vamos apostar: para si, olhar o mapa eleitoral da Área Metropolitana de Lisboa não foi uma enorme surpresa, pois não?

Pode ter sido um choque, sim. O choque dos nossos piores medos realizados. Mas quem andava no terreno sabia do descontentamento, da desesperança e da distância a que as pessoas se sentem, mesmo em muitas zonas da AML, mesmo bem próximo do Terreiro do Paço. Através das nossas reportagens, os nossos vizinhos andam no terreno. Vão aos bairros onde nenhum jornalista pôs o pé. A cidades de que não se sabe nada nas notícias. Conhecem os problemas de que ninguém fala.

No Projeto Narrativas chamamos-lhes “desertos noticiosos” porque é essa a terminologia académica. Mas é uma expressão injusta, como provámos. Não são desertos. Em Mem Martins, Chelas e Casal da Boba, onde andámos com os jovens locais, contamos belas e impactantes histórias… mas que ninguém conhecia a não ser os locais. O deserto está na cabeça de quem não as conhece. Da bolha. Seja ela política, mediática, económica.

É e não é irónico que esses tenham sido alguns dos locais onde o Chega teve mais votos na AML.

  • É irónico, porque o que ali encontrámos foram lugares com alma e vida e gente com muito mais para dar ao país do que um improdutivo voto num partido populista.
  • E não é irónico, porque esse é, aqui, o voto do desconforto, do protesto. Do manguito.

Haverá razões diferentes, claro, as que se juntam nestes 326 mil votos que o Chega teve na AML e ajudou a que se tornasse a terceira força política – em tantos destes lugares foi a segunda – quebrando o bi-partidarismo, quebrando tabus, quebrando a vida e a democracia como pacificamente a entendíamos.

Ficamos tristes, que toda a energia que conhecemos nestes locais seja canalizada pela negatividade de um partido populista. Da raiva tornada voto… mas em soluções de polichinelo. Sabemos que os problemas que todas estas pessoas enfrentam não são fáceis, e que o mundo está perigoso – do ambiente à desigualdade económica.

Mas há certamente tanto mais a fazer. Há, aliás, tanto a mexer, nestas terras. Olhamos para o Filipe e o seu jardim, em Chelas, Ventura, que levou o Casal da Boba a Cannes ou os talentosos Undigrazz em Mem Martins... olhamos para todos e contamos as suas histórias que nos ajudam numa esperança que não morre. Há aqui um poder que tem de ser aproveitado, acarinhado, e posto em ação.

Aqui, na Mensagem, continuamos a acreditar que o antídoto da raiva é… a empatia. E praticamos o jornalismo construtivo com a temosia de acreditar que esta é a forma de fortalecer os laços comunitários. Esses que outros tentam destruir. Aos que nos colocam uns contra os outros, contrapomos um frente a frente, um olhos nos olhos que envergonha a raiva, que enfraquece o preconceito.

O que ouvimos, todos os dias, dos nossos leitores, é que devemos continuar. Ainda esta semana, numa conferência das Jornadas da Comunicação do ISCP, vimos os olhos brilhantes de duas alunas, porque pela primeira vez tinham visto histórias da terra delas, Mem Martins, num jornal.

A verdade é que estas eleições vão mudar o rumo de muitas das questões que afetam a área de Lisboa e o futuro das cidades. A resposta à crise da habitação e até a visão das cidades para os próximos anos.

Se o governo for de facto da Aliança Democrática (AD), saiba aqui o que pode esperar: do aeroporto, à nova ponte sobre o Tejo, à política de habitação (e ao Alojamento Local, que impacta a oferta de habitação). Se para algumas matérias há compromissos claros, para outras reina ainda a incerteza:

Nós vamos continur a estar lá, pé no chão e sorriso curioso, ouvido à escuta para falar com todos. Caneta, microfone e câmara apontados à esperança. Na missão forte de mostrar-nos uns aos outros.

Só temos um favor a pedir-lhe, vizinho. Continue connosco! Saiba aqui como pode contribuir para o projeto, e mande-nos, na volta do correio, as suas ideias, sugestões e opiniões sobre este tema.

Cá esperamos!

Até já!

Frederico Raposo e Catarina Carvalho

PS – Venha connosco nesta visita à exposição de fotografia de Luís Pavão, sobre a Lisboa que já não há: Inscreva-se! aqui.


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