
Olá, vizinho/a
Ouvi dizer que é assim que nos cumprimentamos por aqui. E até já me sinto mesmo uma vizinha, um pouco lisboeta e até jornalista, desde que cheguei a Lisboa e à redação da Mensagem. Mas ainda não tinha tido oportunidade de lhe contar a minha história.
Chamo-me Norina Sohail e tenho 27 anos. Cresci em Cabul, no Afeganistão, uma cidade de milhões de habitantes cercada por montanhas. É difícil explicar Cabul a alguém que apenas a conhece através das notícias. Para mim, nunca foi apenas guerra, como terá aprendido a ver nas notícias, a partir de Portugal. Era a neve branca do inverno, a cidade a renascer na primavera, o calor do verão e as cores do outono. Era a minha família, os meus amigos, a minha universidade.
Acima de tudo, era o lugar onde viviam todos os meus sonhos. Também se sonha em Cabul.

Foi também lá que conheci mulheres que se recusavam a aceitar que o seu futuro já tivesse sido decidido por elas. Mulheres que estudavam, trabalhavam, protestavam e insistiam em ocupar o seu lugar na sociedade. Estive ao lado delas. Como ativista, tentei contribuir, mesmo que de forma modesta, para uma ideia que nos parecia simples: uma mulher deve poder estudar, trabalhar e escolher a vida que quer viver.
A 15 de agosto de 2021, tudo mudou.
Quando os Talibãs entraram em Cabul, não se tratou apenas de uma mudança política. Entrou pelas nossas casas, pelas nossas universidades, pelos nossos locais de trabalho e pelos planos que tínhamos feito para o dia seguinte.
Eu estava no segundo ano da licenciatura. De repente, continuar os meus estudos deixou de ser uma certeza. Para muitas mulheres, o trabalho, a escola e a liberdade de circular na vida pública também começaram a desaparecer.
Para quem estava ligado ao ativismo pelos direitos das mulheres, chegou também outra coisa: o medo.
Durante cinco meses, vivi com a sensação de que algo podia acontecer a qualquer momento. Depois, surgiu a oportunidade de partir. Aproveitá-la significava encontrar segurança, mas também deixar para trás a minha família, os meus amigos, a minha universidade e a cidade onde tinha imaginado todo o meu futuro.
Em março de 2022, cheguei a Portugal como refugiada.
Deixei uma cidade de milhões e mudei-me para Mértola, uma pequena vila no Alentejo. Não falava português e muitas das pessoas ao meu redor não falavam inglês. Pela primeira vez, não estava apenas longe de casa. E também me custava encontrar as palavras para explicar quem eu era…
Comecei a trabalhar na agricultura através de um programa de permacultura que tinha ajudado a trazer-nos para Portugal. Tinha o apoio de pessoas que tentavam ajudar-nos a construir uma nova vida, mas há coisas para as quais programa nenhum nos consegue preparar.
Havia dias em que as saudades de Cabul, da minha família e da vida que tinha deixado para trás se juntavam à solidão e à incerteza em relação ao futuro. Nesses dias, descia até ao rio Guadiana ou subia às colinas em redor de Mértola. Ficava ali durante algum tempo, a respirar, a tentar convencer-me de que tinha de continuar.
E continuava a pensar na universidade.
Durante o tempo em que estive afastada dos estudos, o sonho de me tornar jornalista nunca desapareceu. Eu queria contar as histórias dos outros, promovendo os Direitos Humanos. Após cerca de um ano no programa, comecei a candidatar-me a universidades. Enviei candidaturas, esperei e tentei novamente.
Recebi resposta da Universidade Católica Portuguesa.
Em 2023, mudei-me para Lisboa e recomecei a minha licenciatura a partir do primeiro ano.
Mas a oportunidade veio com outro desafio: teria de estudar em português. Entrei na universidade com um nível aproximado de A2 de português. Enquanto alguns dos meus colegas podiam estudar uma matéria apenas uma vez, eu muitas vezes precisava de a estudar duas ou três vezes. Houve aulas, sessões extra com professores, traduções, pesquisas online e muitas horas a estudar sozinha.
Hoje, estou no último ano da licenciatura.
Quando olho para trás, a distância entre Cabul, Mértola e Lisboa parece muito maior do que qualquer coisa que se possa medir num mapa. Pelo caminho, perdi uma universidade, uma casa e a possibilidade de regressar facilmente à vida que um dia conheci. Mas não perdi o sonho que tinha antes de tudo mudar.
Agora, o estágio na Mensagem de Lisboa está a aproximar-me da profissão que queria seguir quando ainda vivia em Cabul. E a mostrar que, sim, os sonhos que nascem em Cabul também se concretizam.
A vida continua sem me dizer exatamente o que vem a seguir – e talvez tenha aprendido a não exigir mais essa certeza. Por agora, continuo a fazer o que faço desde que deixei a minha terra: a seguir em frente.
E, de alguma forma, continuo a tentar realizar os sonhos daquela pequena Norina num canto de Cabul, que não fazia ideia de quantas fronteiras teria de cruzar para os alcançar.
Tal como Subin, que entrevistei há uns dias. Fique a conhecer a história dele também:
Até breve,
– Norina Sohail






