Durante este verão, e antes de ir a banhos com a família para o sotavento algarvio, decidi fazer uma experiência arriscada – ou nem tanto assim: passar a última semana antes de férias como se fosse um verdadeiro nómada digital, apesar de o estar a fazer na minha cidade.

De tudo, diria que o mais inesperado foi descobrir que, atualmente, nos cafés nomad e da moda da cidade, os bolos de canela ou cardamomo são tão populares como o pastel de nata. Quase parecem autóctones. Esqueçam as duchesses, os mil-folhas, os jesuítas, os indianos (quem se lembra dos que a Confeitaria Nacional servia até há uns quinze anos, deliciosos e tão nos antípodas dos atuais?) ou mesmo os palmiers, simples ou recheados. 

Antes de ir mais além nesta crónica, tenho de confessar a pequena batota que fiz nesta minha petite aventure de pretenso nómada digital. É que, para emular um espécimen do género, impunha-se que eu me deslocasse de metro, Uber, Gira ou, para ser mais coerente, de trotinete. Não fiz nada disso. Aliás, com o meu porte atual, acredito que, em cima desta última, esta minha experiência estival teria sido rapidamente abreviada e eu teria acabado nas urgências do São José. Por isso, e graças ao meu contabilista, tomei a decisão certa. Optei pelo “camelo de quatro rodas” que tenho há quase dois anos e só vos digo: andar de carro elétrico em Lisboa é como regressar a um mundo sem parquímetros, ainda que pós-iPhone. 

Pois bem. Apesar de nómada em modo dissimulado, tentei preparar a minha semana com pés e cabeça, fazendo uma pesquisa prévia para definir os hotspots a fruir durante a semana. E assim foi. Genericamente, fui apenas o boring me de sempre, alguém capaz de montar escritório em qualquer lado onde consiga pousar o Mac por mais de cinco minutos e ligar o hotstop. Aqui, kudos para a Vodafone, que funciona sempre melhor na rua do que em casa. Vá-se lá saber porquê.

Defini como primeiro spot o Copenhagen Coffee Lab de Campo Ourique e, na segunda de manhã, lá estava eu às nove e meia da manhã a picar o ponto enquanto pedia um bolo de canela e um Cold Brew. Arranjei uma mesa junto a uma das grandes janelas e, rodeado de nómadas digitais a sério, uns suecos e uns norte-americanos (breve nota: ao contrário do que pensava até agora, o regime fiscal especial para esses novos residentes acabou – i.e., agora, depois de mais de 183 dias no país, estão sujeitos à tributação portuguesa), acabou por ser uma manhã produtiva, apesar da dose acrescida de café e hidratos – não me fossem expulsar por falta de consumo durante a minha estada. E, claro, como pretenso nómada digital bem-comportado que tentei ser, acabei a almoçar umas belas moules-frites fantásticas ainda no meu antigo bairro. 

O segundo dia, terça-feira, foi dedicado a revisitar uma zona aonde vou pouco nos tempos que correm. A Graça. Estive quase a desistir, pois estava difícil arranjar lugar e não paravam de passar tuk-tuks em modo pára-arranca. Mas lá acabei por conseguir deixar o meu camelo digital num lugar à sombra e fui a um espaço aonde não ia há quase vinte anos e que surgia nos tops como um dos melhores sítios para nómadas digitais: o Café Garagem, no Teatro Taborda. 

Acabadinho de sentar e com o pedido feito, fui prontamente informado de que os livros eram bem-vindos, mas os laptops não eram de todo. Ora, entre cancelar o meu pedido e mudar de poiso para trabalhar ou ficar ali mais um pouco e desfrutar a vista e a leitura do momento, nem hesitei. E foi assim que, numa varanda envidraçada com vista para o Martim Moniz, me deliciei e emocionei com mais algumas das peripécias na atribulada e corajosa vida da poetisa Maria Teresa Horta, A Desobediente – que, como descobri há uns anos largos, era praticamente minha vizinha na infância.  

O meu nomadismo prosseguiu, quarta-feira, no renovado café dos jardins da Gulbenkian, mais um espaço amigo dos nómadas digitais e abundante em bolos de canela. Esta acabou por ser mais uma manhã produtiva, que terminou com um almoço no também atualizado self-service. E, ainda no átrio da Fundação, ao percorrer a exposição ‘Gulbenkian – 70 anos em cartaz’, pude apreciar com nostalgia o poster ‘Jazz em Agosto- 97’, alusivo a um festival no qual trabalhei e que antecedeu, em semanas, o meu Erasmus em Estocolmo – curiosamente, a cidade onde comi os meus primeiros kanelbulle

No penúltimo dia da minha deliberada errância digital, decidi rumar a uma esplanada supersimpática e aprazível no centro do Monte do Estoril e, na sexta-feira, voltei a um sítio especial onde vou amiúde e que é um dos meus espaços de estudo e trabalho de eleição desde os tempos do liceu: o Palácio Galveias. Como sempre, e para não desiludir, consegui estar agradavelmente a trabalhar no bar do quiosque, graças ao meu hotspot pessoal e à tranquilidade do sítio. 

Conforme fui percebendo ao longo da semana, apesar da tagline sugestiva e meio romântica do termo, ser nómada digital não é assim tão glamoroso como parece à primeira vista. Pelos menos, quando é feito de forma continuada e durante dias inteiros. E já nem falo nas doses cavalares de cafeína que isso implica. Mas com a experiência concluída e sem quaisquer incidentes a reportar, pude confirmar aquilo que já sei há muito, talvez desde sempre: é um privilégio ser lisboeta.


Pedro Salazar

Nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.

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