Eram 11 da manhã do dia 7 de outubro de 2025. Mais um dia de trabalho que ia culminar num momento de convívio na Zona Franca dos Anjos para celebrar o aniversário de um amigo. Sentia-me entusiasmada. Já fazia muito tempo que estava para estrear a minha ida àquele lugar,  e não foi por falta de aviso que não fui lá a uma jam, ou a um microfone aberto de poesia, que estavam na minha lista de planos a fazer em Lisboa. 

Fui ao Instagram e vi que a Zona Franca tinha sido despejada.

Restavam 15 dias para tirar tudo lá de dentro. Lá se foi a minha primeira ida à Zona Franca, o aniversário, e a vida da associação no n.º 42 da Rua de Moçambique. Curiosamente, a primeira rua onde morei. A festa fez-se à mesma. Mesmo sem portas e paredes, dezenas de pessoas juntaram-se ao final da tarde ali ao lado, na Praça das Novas Nações em solidariedade com aquela associação cultural: um ponto de encontro entre vizinhos e amigos, um lugar onde as relações se sobrepunham à lógica do lucro, e que sustentava a vida comunitária dos Anjos.

Aquele dia doeu-me particularmente. 

Depois dos meus primeiros três anos de vida passados na Rua de Moçambique, mudei-me para a Rua Heliodoro Salgado, onde vivi até aos meus 16 anos. Com metade da rua pertencente à Penha de França, e à antiga freguesia dos Anjos (mais tarde anexada a Arroios aquando da união de freguesias), é bastante representativa do desporto mais regular de quem vive naquela zona: o de subir e descer ruas. E assim foi a minha infância e adolescência com o ponto de partida naquela rua inclinada: a subir e descer entre a Penha de França, Graça, Anjos e arredores. Foi neste eixo geográfico onde andei na escola, joguei basquete, caminhei em direção à casa das minhas avós e tias, também residentes naquela área, e vivi durante a maior parte da minha vida. Nestes lugares viveram os meus pais, avós, e até bisavós. Tudo isso mudou.

Como muitos, vi a cidade a transformar-se ao longo dos anos. O antes sossegado miradouro da Nossa Senhora do Monte tornou-se um lugar cheio de tuk-tuks, a febre dos brunchs mudou a composição dos comércios das ruas,  os alojamentos locais tiveram um boom e os preços para morar nestes sítios aumentaram.

Também eu me desloquei à medida que a cidade foi mudando. Mas, mesmo agora, vivendo alternadamente entre São Domingos de Rana e Odivelas, não me deixo de sentir lisboeta, nem da Penha de França. E se há algo que me faz continuar a regressar e perder 1h30 (ou até mais) no longo caminho de transportes desde São Domingos de Rana até ao centro da cidade, é precisamente por causa dos espaços de afeto, convívio e cultura onde tenho sido feliz, e me tenho reencontrado com outros, e com a cidade. Apesar de já não o ser na morada, Lisboa é a cidade do meu coração.

É por isso que o fecho da Zona Franca foi tão marcante. Veio reforçar a sensação de que Lisboa é cada vez mais uma cidade que habita a memória e a nostalgia, mais do que um lugar que ainda pode ser plenamente vivido. Daquele dia permaneceu a curiosidade de saber o que foi aquele lugar, a procura de soluções para proteger os espaços culturais, e a sensação de que Lisboa se está cada vez mais a tornar uma Zona Proibida. 

A Zona Franca não é um caso isolado. Como esta associação cultural muitas outras perderam os seus espaços originais e tiveram que fechar ao longo dos últimos anos. E outros espaços culturais que, não sendo associações, têm tido um papel importante na vida cultural de Lisboa… e o mesmo destino: Grémio Lisbonense, Sport Clube Intendente, Clube Recreativo dos Anjos, Seara, Os Amigos do Minho, Banco, Crew Hassan, MusicBox, Lounge, Bacalhoeiro, Valsa, Zona Franca dos Anjos, Planeta Manas, Núcleo A70, Sabotage, RA100, InBloom, Útero, Logradouro da bempostinha. E muitos outros.

Por detrás de cada um destes nomes, há muitas histórias para serem contadas. As das pessoas que deram o seu tempo para tornarem estes espaços ativos e os viram ter um ponto final na sua história. Toda a vida que por lá passou – as amizades, os concertos, as danças, as conversas, os jogos de cartas, os romances de que lá nasceram. Estes lugares não eram meras paredes – mas espaços de encontro onde se criaram comunidades, fortaleceram-se laços, criaram-se projetos artísticos, e onde se podia simplesmente existir sem o peso das responsabilidades da vida e do trabalho.

No estudo Heat Wave: A Social Autopsy of Disaster in Chicago, sobre a onda de calor de Chicago em 1995, o sociólogo Eric Klinenberg encontrou um resultado surpreendente. Bairros vizinhos, igualmente pobres e maioritariamente negros, tiveram taxas de mortalidade radicalmente diferentes. Em Auburn-Gresham, onde existiam pequenos comércios, vida de rua e redes de proximidade ativas, morreram cerca de 3 pessoas por cada 100 mil habitantes. Já em Englewood, marcado pelo abandono de serviços, lojas e espaços de encontro, a taxa subiu para 33 por cada 100 mil. O mesmo contraste verificou-se entre Little Village e North Lawndale. A explicação não estava nos recursos materiais, mas nos laços comunitários: bibliotecas ativas, centros culturais de bairro, cafés de esquina, associações locais, ruas vivas — espaços onde as pessoas se encontram, conversam e criam relações de confiança. Esta força comunitária foi decisiva para que os vizinhos se preocupassem uns com os outros, batessem às portas, partilhassem informação, e protegessem os mais frágeis durante os incêndios.

Por que não fazer um documentário?

O fecho da Zona Franca inspirou um artigo escrito para a revista do MIL com o objetivo de procurar soluções para proteger estes lugares em Lisboa, republicado nas páginas da Mensagem de Lisboa. Na altura, pedi uma câmara emprestada a uma amiga, e um microfone a outra, e comecei a gravar de forma amadora.

O resultado não foi o melhor.

Para garantir a qualidade que estas histórias merecem, juntaram-se outras caras ao projeto – Inês Dust, Beatriz Dinis, Rhuana Pimentel, João Veloso e Iolanda Loba. E assim nasceu a Zona Proibida – um documentário em construção sobre o impacto da gentrificação no fecho dos espaços culturais em Lisboa. Estes fechos têm motivos muito mais profundos que ultrapassam os senhorios destes espaços – são o reflexo da forma como a cidade se tem expandido nos últimos anos ao sabor do mercado imobiliário, e um espelho das políticas públicas que são feitas para os proteger. 

É por isso que queremos refletir sobre as causas estruturais da gentrificação e sobre os mecanismos económicos e políticos que têm tornado Lisboa uma cidade cada vez mais cara, inacessível e restritiva no acesso à cultura. E pensar quais são as soluções que podem permitir cuidar e manter estes espaços ativos na cidade.

Mas, mais do que um documentário, queremos fazer parte de um movimento com o propósito de proteger estes espaços, e de explicar o porquê de serem uma infraestrutura importante para a vida da cidade.

O nosso projeto multiplica-se assim, noutra vertente: a de divulgação de informação, a criação de arquivos de memória de espaços que fecharam, e a criação de pontos de encontro entre artistas, agentes da cultura, investigadores e cidadãos para refletir sobre o futuro dos espaços culturais da cidade, através de rodas de conversas. Acreditamos que, para que se possam fazer mudanças concretas, é preciso mostrar dados, explicar o porquê da importância deste tema. E a criação de memória é fundamental para guiar o nosso futuro. 

Queremos contribuir para um debate público que vá além do diagnóstico e se aproxime de soluções concretas: que políticas podem apoiar e proteger estes espaços? Que exemplos de outras cidades podem servir de referência? Queremos abrir o espaço ao debate, e contribuir para uma reflexão coletiva sobre o futuro da cultura e de Lisboa.

Casa Independente. Foto: Rhuna Pimentel

Até acabarmos o documentário, há espaços que ainda estão abertos, mas vão ver o seu fim chegar. Um desses casos é a Casa Independente. Após 14 anos de atividade, no qual foi essencial para a transformação cultural da cidade, ajudando a dar uma nova vida ao Largo do Intendente, vai encerrar em dezembro deste ano. Em risco estão outros espaços como o Arroz Estúdios, no Beato, a Sirigaita nos Anjos, e a SMOP – Sociedade Musical Ordem e Progresso, na zona das Janelas Verdes, cujo destino pode mudar muito em breve. Por outro lado, o movimento “Parar o hotel no quartel”, que se posiciona contra a manutenção do Hotel do Grupo Sana, no Largo da Graça, está a lutar por “Mais bairro e menos turismo”, procurando que aquele lugar possa ser destinado a um uso comunitário. Queremos escutar e ampliar estas vozes.

O trabalho que já fizemos até aqui tem sido totalmente voluntário: desde reuniões (muitas reuniões), gravações a carregar material, escrita de conteúdo para as redes sociais, edição de vídeo, montagem de um orçamento para o projeto, organização de eventos. A lista do que está no “behind the scenes” é longa, e por vezes cansativa, para quem como todos nós tem outros trabalhos, e tem dado o seu tempo e compromisso à continuidade deste projeto.

Acreditamos que esta é uma história que precisa de ser contada, que é urgente procurar soluções para este problema que a cidade está a enfrentar. E que a melhor forma de o fazermos é em conjunto – ouvindo as perspectivas de vozes da academia, pessoas que trabalham em espaços culturais, artistas, o público que usufrui destes espaços. Conseguimos agregar mais valor e conhecimento se ele for partilhado, e abrir a conversa é um ponto de partida crucial para que se encontrem soluções.

Acreditamos que ainda vamos a tempo de construir uma outra cidade com mais convívio, comunidade e cultura. É por isso que decidimos abrir um crowdfunding no PPL, ainda que vá apenas cobrir uma parte do financiamento do projeto. Toda a ajuda é importante. Se também acreditam que Lisboa pode ser uma cidade com mais comunidade, cultura e convívio, apoiem a nossa Zona Proibida!


Margarida Valença

Margarida Valença (Lisboa, Portugal, 2002) acredita que é possível vivermos num mundo mais humanista do que aquele que habitamos. Passou por vários órgãos de comunicação social e plataformas independentes onde escreveu sobre vários temas, com um foco em direitos humanos, cultura e política. Ambiciona fazer jornalismo com linguagem mais acessível, feito com tempo, e em formatos audiovisuais.

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