Gonçalo Riscado aciona o pequeno interruptor na caixa metálica e a luz invade o imenso salão, iluminando o bar e o palco mais adiante. O gesto é igual há quase duas décadas, quando Gonçalo abria as portas do espaço cultural Musicbox, no Cais do Sodré, em 2006, e começava a carreira de gestor cultural que prometia trazer uma luz diferente para a noite de Lisboa.
Agora, 19 anos depois, Gonçalo prepara-se para desligar o interruptor do Musicbox pela última vez, encerrando a porta de madeira escura sob o arco de pedra formado entre a rua do Alecrim e a rua Nova do Carvalho, a mítica Rua Rosa (ou “Pink Street“). O anúncio oficial do fecho está prometido para breve.


A casa de concertos aberta juntamente com Alex Cortez, através da empresa CTL (Cultural Trend Lisbon), marcou o ponto de viragem do percurso eclético e errático de um jovem lisboeta entre a filosofia e o audiovisual, para se transformar no “homem da noite”, dono de uma visão holística da vida económica, social e cultural de uma cidade após o sol se pôr.
De uma Lisboa que desperta quando a outra Lisboa se vai deitar.
O hoje cinquentão de ar jovial, pele bronzeada e outfit casual protagonizou uma revolução na vida noturna de Lisboa, criando espaços e eventos culturais numa busca constante pela integração do lisboeta com a cidade.
A lista de iniciativas inclui, para além do Musicbox, os festivais Slam Lx, Lisboa é Poesia, Lisboa Capital República Popular, o Festival Silêncio e o MIL. Além do Povo, um misto de bar e residência cultural que movimentou a Rua Rosa, até recentemente ceder espaço ao Lambe-Lambe, o curioso projeto que une artes visuais, música eletrónica e smash burgers.
“Tudo o que fiz até hoje foi pensando para quem habita a cidade”, defende Gonçalo Riscado, insistindo na tecla de que a noite de uma cidade não se resume ao niilismo desenfreado ou às “lojinhas de dois metros quadrados que despejam cerveja madrugada fora”.
Segundo o gestor cultural, através de “espaços de proximidade” administrados com a devida curadoria, a noite pode operar como amálgama para os moradores pensarem a cidade onde vivem e realizarem transformações no tecido urbano.
“A cidade é feita das pessoas que a habitam e daquilo que constroem em conjunto. E muitos destes encontros acontecem no espaço da noite”, acredita.

Seguindo esse fio da meada, Gonçalo Riscado abre a 18 de setembro um novo espaço, desta vez no Beato, levando assim a noite de Lisboa para a tangente do perímetro entre o Bairro Alto e o Cais do Sodré.
Ocupando as dependências da antiga casa do comandante da manutenção militar do Exército, a Casa Capitão terá um espaço de 1200 metros quadrados de área. Um projeto ambicioso, criado nos últimos oito anos, com a pretensão de ser um centro cultural ligado às culturas de base, à literatura e à performance.
Um espaço de criação e, acima de tudo, de comunhão entre os lisboetas.
“As pessoas precisam de espaços como este nas cidades, onde possam conhecer-se sem algoritmos pelo meio, num encontro para o debate crítico e a troca de ideias”, afirma.
A expetativa de Gonçalo Riscado é que a Casa Capitão cristalize a importância “da noite” no contexto cultural e económico de Lisboa, uma ideia defendida por este experiente gestor cultural lisboeta, como se pode ler na entrevista abaixo, realizada antes do anúncio oficial do fecho do Musicbox.

O Gonçalo Riscado considera-se um homem da noite ou da cultura?
Noite é cultura. A economia da noite é fundamental para as cidades. O que acontece à noite é o que não acontece de dia, quando normalmente as pessoas estão a trabalhar. É à noite que as pessoas se encontram, conversam, é à noite que as pessoas criam. É à noite que as pessoas vão normalmente ao cinema, jantar fora, ver concertos. É à noite que há estes espaços de encontro tão necessários para que jovens e menos jovens possam discutir ideias e começar a criar e a fazer coisas.
Se a noite é cultura, por que às vezes é vista como um problema a ser resolvido nas cidades?
Existem os consumos e os excessos que estão ligados à noite, mas que também ocorrem no dia. Se eu for ver um jogo de futebol às 17h, vou encontrar excessos gigantescos. Olha os excessos que às vezes acontecem nos almoços de família ou nos casamentos. Isso tem a ver com os momentos de descontração das pessoas e depois a sua relação com substâncias que podem gerar problemas. Então, há problemas na noite de Lisboa, mas o problema não é a noite, e sim, a forma como a noite é gerida. As cidades têm que saber gerir esses momentos para que possam ser compatibilizados. O problema começa quando, politicamente, se tenta não olhar para a noite como um espaço tão importante como o dia. Normalmente, olha-se como um evento acessório, do tipo “ah, as pessoas estão a divertir-se“. Mas o que é mais importante do que o nosso momento de lazer e de diversão?
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Lazer e diversão que parecem perturbar a relação com os vizinhos…
É possível ter uma cogestão da noite, prezando a convivência com os vizinhos. Uma cidade que não tenha noite, que só tenha dia, é uma cidade morta, parada, portanto, a noite tem que existir e ser compatibilizada.
“Mas a noite não significa espaços só de uma portinha a inundar de cerveja a rua a noite toda. Isso não é noite, isso é oportunismo capitalista, que parece ser a única atividade a ser protegida na cidade.“
A noite não é isto, são os espaços de encontro, de convívio, de criação, de partilha de pensamento e debate crítico, de lazer e, claro, também de escape.

Há outras capitais europeias que desataram o nó com a vizinhança?
Berlim há anos que estuda o movimento de música, dança, de criatividade e de criadores na cidade, o que se reflete na forma como esses espaços foram impulsionados e protegidos. E proteger um espaço não significa dizer que vale tudo. Proteger um espaço é dar condições para que possam existir e sejam compatibilizados com outros usos e vidas da cidade. Hoje, se falarmos em termos de gestão da noite e da economia da noite, todas as cidades começam a ter estratégias, fazer mapeamentos, criar as figuras dos night mayors ou das night commissions, que não são polícias, mas pessoas que habitam a cidade e ajudam a gerir os passos e a fazer as coisas bem feitas. E Lisboa está atrasada nesse processo.
Lisboa sempre esteve atrasada nesse processo?
Lisboa tinha um charme de descoberta e uma noite com uma programação que ao longo de décadas foi crescendo. Era um espaço muito livre, muito interessante e hoje em dia esses espaços estão-se a perder e a noite de Lisboa tem virado para o consumo barato na rua. Eu não vejo em nenhuma grande capital, mesmo com uma vida noturna incrível e uma cultura gigante, espaços de dois metros quadrados a despachar bebidas para a rua até às quatro da manhã.
E por que é que esse cenário tem mudado em Lisboa?
Os espaços vão fechando. Primeiro, porque este lado predatório e de turistificação das cidades exerce uma pressão ao criar públicos que já não são sequer os públicos das cidades e invadem as zonas. Depois, vem a pressão financeira. Ter um espaço com curadoria e programação tem custos e lógicas que são completamente diferentes da lógica do capital de exploração de turismo de massas. Sem falar que as rendas vão subindo e estes espaços não conseguem comportá-las e vão desaparecendo. É preciso proteger os espaços de encontro, de criação e de comunidade, de quem habita a cidade.
Este tema da noite não aparece em programas de lista partidária. Vai-se falando agora, de vez em quando, mas Lisboa está muito atrasada no olhar para a noite como um dos ativos principais culturais das cidades.
Proteger os espaços e também proteger as pessoas das zonas?
Temos de olhar para isso com muita atenção, cuidado e com muita proteção, no sentido de dar espaço para que as atividades aconteçam bem reguladas. Mas a noite de Lisboa está entregue a si própria, porque não é vista como um ativo importante. E isso é um problema crónico. Não vou dizer que é só deste presidente da Câmara, pois vem dos anteriores. Parece tão difícil olhar para este ativo, que é um ativo da cultura. Este tema da noite não aparece em programas de lista partidária. Vai-se falando agora, de vez em quando, mas Lisboa está muito atrasada no olhar para a noite como um dos ativos principais culturais das cidades. Normalmente, quando se olha para a noite, tem a ver com segurança, higiene urbana e ruído. É obviamente uma preocupação que tem que existir mas o ativo da noite é muito maior do que isso.
Como tem sido a relação da noite com a atual gestão camarária em Lisboa?
A Câmara mudou há quatro anos, agora vamos ter eleições. Com a Câmara que estava lá, parecia que já queríamos avançar para trabalhos interessantes. Depois, politicamente, as coisas mudam. Parece que os ciclos começam todos outra vez. Isto é assim, sempre, vai de um lado ao outro. Mas não sinto que esteja ainda na agenda política da gestão autárquica de forma central.
A noite de Lisboa sendo um ativo económico e cultural importante, então, merecia um pelouro?
A gestão da noite deveria estar ligada à gestão camarária da cultura, cruzando cultura, economia e urbanismo. Um departamento aliando os serviços da Câmara e as pessoas que gerem a noite, numa construção para criarem regras lógicas de apoio e mapeamento, para além da simples fiscalização, que é correta e necessária, atenção, mas não se pode restringir a isso.
Gerir a noite em Lisboa passa pelo Bairro Alto e o Cais do Sodré? São áreas saturadas?
Estão saturadas de uma oferta que, para mim, não faz sentido. Voltamos às lojinhas com dois metros quadrados a despejar cerveja nas ruas até às quatro da manhã. Isso não é gerível, não é a bandeira da cultura, isso para mim não é noite, acontece durante a noite, mas não é noite. Veja o caso do Musicbox que está no epicentro do turismo em Lisboa, mas é um espaço para quem habita a cidade. Pode haver um público ocasional a passar na rua e que tem curiosidade e entra, mas não é nem 5% do público da casa. Pois tudo o que fazemos é para quem habita a cidade, como foi o Polvo também aqui na Pink Street e é o projeto que o substituiu, o Lambe Lambe, espaços que se comunicam com a população através de conceitos e dos artistas, como será também a Casa Capitão.

A gestão da noite deveria estar ligada à gestão camarária da cultura, cruzando cultura, economia e urbanismo.
A Casa Capitão vai ao Beato para fugir da saturação do Bairro Alto e do Cais do Sodré?
O Beato tem essa capacidade de ser uma nova centralidade para a cidade. É um bairro de menor população em Lisboa, portanto, deve sofrer alguma transformação nos próximos anos. Embora, ao contrário do que acontece noutros grandes centros, a especulação imobiliária chegou primeiro do que a cultural. Noutras cidades, os artista chegam à frente, em busca de um galpão com renda barata para montar um estúdio, depois do lado daquele estúdio abre um café, um bar, um espaço para programação, um ponto de encontro. Uma movimentação orgânica que não deve ocorrer naturalmente no Beato, pois Lisboa, como um todo, já foi tomada pela especulação imobiliária e o Beato já não é aquele lugar onde se pode encontrar espaços baratos.
Apesar dos problemas e da necessidade de ajustes de gestão, a noite em Lisboa ainda é uma boa opção?
A noite de Lisboa oferece espaço para todos os momentos, de criação, de curadoria, de encontro e partilha com a sociedade, mas também de escape, do raving, da loucura. E a cidade tem que dar esse espaço às pessoas, garantir que estejam seguras, protegidas, durante esse registo de convívio e escape, quando se pode largar algumas defesas. Nós temos que dar segurança às pessoas, temos que dar essa confiança de que quando se está no momento sensível e livre, estaremos lá para as proteger. Isso é olhar para esses momentos de noite e de liberdade como um direito, tal como a cultura é um direito. Noite é cultura, um direito das pessoas e que os governos e os políticos têm que proteger.

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