Ainda nem entramos no bairro dos Alfinetes, em Marvila, e já se ouvem crianças. Estão no campo de futebol ou correm pela relva, outras andam de bicicleta ou chamam pelos pais, que vigiam a brincadeira enquanto estão sentados nos bancos. Parece um cenário banal numa cidade, mas não aqui, onde se esperou anos por algo assim.
O parque urbano Mar e Vila, junto ao apeadeiro de Marvila, inaugurado em abril deste ano, resume-se assim mesmo: “Deram-nos a casa, faltava o bairro”, diz Cristina Santos, uma das moradoras que ajudou a transformar o antigo descampado no atual parque. A notícia sobre o novo espaço verde na cidade correu os jornais em abril, mas faltava contar esta história: a de quem o criou – e porquê.


Cristina vem da antiga Curraleira, “o bairro do pé descalço”, como gosta de lhe chamar. Uma pequena aldeia dentro da cidade, onde se andava na rua como dentro de casa. Depois de desmantelado, ela não quis ficar pelos bairros de realojamento ali perto. “Não pelas pessoas, eu adoro aquelas pessoas.” Era pelas más memórias. A vida tem sido madrasta: aos 16 anos, foi posta fora de casa, viveu uma relação abusiva e, quando voltou a procurar abrigo na casa da mãe, que ali guardava droga, teve ela de responder na justiça. “A minha reinserção social fui eu”, diz. Ela e um bairro como o dos Alfinetes, em Marvila, onde acabou por vir morar em 2001.
Num bairro todo de betão, a meia hora a pé do único pulmão verde próximo, o parque da Bela Vista. Foi ao torná-lo mais verde que Cristina encontrou o lugar num bairro onde, durante anos, não passeava além da praceta do prédio. Quando chegou, a paisagem estava longe de ser a que é hoje. “Ainda não tinha sido feita a limpeza das obras nos prédios”, construídos para realojar pessoas vindas de bairros de barracas extintos na cidade. “Então, eu e mais umas vizinhas da frente começámos a fazer essas limpezas: as escadas, as garagens. E, depois, a praceta. Começámos a limpar os canteiros, que já só tinham azevinho selvagem plantado. E trouxe plantas. Passava por uma florista, comprava para aqui. Sempre que estava menos bem disposta, vingava-me na enxada”, ri.
Um pequeno e melhorado jardim que durava apenas enquanto havia sol ao alto. De vez em quando, lembra, “lá vinha um grupo de miúdos”, à noite, para cima dos canteiros. “Destruíam tudo o que se fazia durante o dia.” Uma vizinha de Cristina chama-lhes “anjos da noite”. “’Lá vem os anjos da noite’, dizia ela.”
Foi assim até que Cristina decidiu mudar o fado das plantas destes canteiros. Sem saber que seria apenas o início de uma carreira de ativista e que, pouco depois, estaria na linha da frente da conquista de um novo parque para a cidade. Um projeto que custou cerca de quatro milhões de euros.



À volta dela, enquanto comboios passavam, Ernesto Serafim, Teresa Romão e Adelino Silva vão completando a memória coletiva daquele espaço. Fazem parte do grupo comunitário 4Crescente. Falam uns por cima dos outros, corrigem datas, acrescentam episódios e emocionam-se. O parque nasceu assim também, de muitas vozes ao mesmo tempo.
Há poucos anos, neste lugar, só havia mato
Na frente destes prédios, não falta espaço para brincadeira. Um terreno com mais de sete hectares, que combinava estrada com zonas de relva, onde jaziam detritos, lixo e até hortas clandestinas. “É normal ver-se crianças por aqui, a andar de bicicleta, a correr”, lembrava Cristina, numa entrevista à Mensagem em 2022. Mas isso não descansava os pais, que reclamam a falta de segurança numa zona de passagem de carros.
O terreno é grande, mas estava ao abandono e era pouco seguro.


As crianças brincavam na estrada. Andavam de bicicleta entre carros à procura de campos improvisados noutras zonas do bairro, o que era um constante perigo. Era, além disso, um terreno abandonado onde “havia fogos constantemente e os bombeiros no verão vinham várias vezes”.
A ideia começou pequena: conversas entre vizinhos, uma avó a pensar nos netos, pessoas a olharem para aquele vazio todos os dias e a perguntarem-se porque é que ali não podia existir outra coisa. “Cada um de nós imaginava: por que é que não constroem um parque?”, lembra Cristina.
O processo demorou anos.
Entre candidaturas ao orçamento participativo que foram reprovadas com mudanças políticas e obras em atrasos, os moradores passaram por momentos em que tudo parecia voltar ao zero. “Tivemos dúvidas”, admite Adelino Silva. “O Sr. Presidente [da CML, na altura Fernando Medina] perdeu as eleições, e isto ficou um bocadinho estagnante”. Mas ninguém desistiu. “Foi um não baixar os braços”, remata a vizinha Cristina.
A inspiração veio também de fora. O jardim do Caracol da Penha mostrou-lhes que moradores podem e devem efetivamente mudar a cidade em que vivem.
“A ideia foi ganhando asas e entrámos de corpo e alma”
Ernesto Serafim
Com a ajuda de associações locais, Prodac e Gebalis, e o apoio do atelier Rés de Chão e a Junta de Freguesia, “agarramos nas armas, entre aspas, naquilo que podíamos fazer, e fomos à luta”, lembra Cristina. Poucos moradores, muito trabalho e uma ideia que foi crescendo à medida que percebiam que o parque podia mesmo acontecer.
Mas a construção também teve custos sociais. Durante mais de dois anos de obras, os moradores perderam estacionamento e assistiram a ambulâncias impedidas de entrar na zona. Cristina lembra que “houve pessoas doentes, acamadas, que saiam à chuva porque a ambulância ficava do lado de lá da estrada” – foi o que mais lhe doeu ver, admite.
Mesmo assim, continuaram.
Como a paisagem mudou (e o bairro também)
Os moradores falam do parque como se fosse uma casa. Reparam se a relva está seca, ou se há alguma coisa estragada. Exige um certo cuidado. “Como é que eu vou destruir uma coisa que é nossa”, insiste Ernesto, reformado e com experiência em agricultura. Ele mesmo um dos rostos da mudança no bairro – participante no festival Co.Cidades, que mostrou o trabalho cidadão e verde nestes bairros, para contagiar outros.
O dia da inauguração continua difícil de explicar para quem lá esteve. Cristina fartou-se de chorar. Sem hesitar, a vizinha Teresa Romão diz o mesmo: “nunca chorei tanto como naquele dia”. Já não era só um sonho.
O nome “Mar e Vila” foi escolhido por moradores, crianças e jovens da escola EB 2,3 de Marvila.
“Não eram os políticos que estavam lá que me interessavam. Era a multidão. Era o povo a tomar posse daquilo que é seu”
Cristina Santos


Agora, ao fim de semana, o parque enche-se de pessoas. Os mais velhos sentam-se nos bancos a olhar para o Tejo e há até moradores de outros bairros que chegam para fazer piqueniques. “Antes as pessoas vinham cá, davam um beijinho e iam embora, agora ficam”, diz Ernesto. E os pais conseguem, finalmente, ficar sossegados: acompanham os filhos ao parque, em vez de ficarem em casa, aproveitando a nova paisagem da zona.
Para Adelino Silva, a mudança ainda emociona. “Nunca tive uma alegria tão linda”, admite. “Ver tanta criança a brincar, a correr… isto antes não acontecia”.
Ao longo da conversa, os moradores repetem a mesma ideia: a cidade não pode ser pensada apenas por técnicos ou políticos. “Não interessa só reclamar nas redes sociais. É preciso agir.” Para Cristina, o parque Mar e Vila é uma lição sobre participação.
O plano inicial previa sete hectares, por agora existem apenas quatro. A futura linha de alta velocidade adiou a expansão, mas ninguém acredita que a história fique por aqui. “Temos esperança e não vamos parar”, garante Adelino. Até porque já provaram que conseguem.
“O Jardim do Caracol foi um exemplo para nós”, remata Cristina. “Agora o Mar e Vila pode ser um exemplo para outros.”

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
