“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

É sexta-feira à noite no pavilhão dos Onze Unidos, na Quinta do Ourives. Lá dentro, cinquenta marchantes, homens e mulheres, tomam os seus lugares para o ensaio da coreografia, já bastante adiantada. À frente, Tiago Mota, o ensaiador, dá algumas informações, grita palavras de motivação e dá início ao ensaio, assumindo ele próprio a coreografia de um maestro que orienta uma orquestra de dois instrumentos: corpo e voz.

Tiago Mota cresceu no bairro da Quinta do Ourives e nos Onze Unidos. Era miúdo quando entrou na Marcha Infantil da coletividade e participou na Marcha do Beato desde a sua estreia, em 2003. Desde o ano passado é o ensaiador. Foto; Rita Ansone. Credit: Foto: Rita Ansone

Atrás dele, o primo Ruben Mota, cenógrafo e figurinista, a mulher Filipa Mota, da comissão organizadora, o amigo Nando, coordenador, e o pai, Amílcar Mota, presidente da direção do Grupo Recreativo e Cultural Onze Unidos, observam atentos. Este ano as expetativas são altas para a Marcha do Beato. O coletivo – feito de familiares, amigos e vizinhos, antigos ou chegados este ano mas imediatamente integrados como da casa – está focado e unido em torno de um único objetivo: representar a freguesia com brio e ganhar.

Há marchantes dos bairros todos do Beato, da vizinha Marvila, de outras freguesias de Lisboa e de fora, da Margem Sul a Loures ou até Salvaterra de Magos. A maioria tem em comum a ligação à freguesia: aqui cresceram, aqui têm família, aqui têm amigos. Podem não viver cá, mas são daqui. “Podes tirar uma pessoa do Beato, mas não tiras o Beato da pessoa”, diz alguém. A frase repete-se em vários bairros e freguesias, mudando apenas o topónimo.

O que eles marcharam para aqui chegar

Amílcar Mota tem 64 anos e vive na Quinta do Ourives desde os três. Está ligado ao Grupo Recreativo e Cultural Onze Unidos desde sempre, primeiro como atleta, depois como dirigente desde 1992. “Nos últimos anos estive mais como presidente, com intervalos em que dava a vez a outro, mas depois lá voltava. É difícil, não é?” Há muito tempo que percebeu que, na ritualística dança de cadeiras, a dele ninguém quer. É demasiado trabalho voluntário, que já poucos estão dispostos a dar.

Amílcar Mota é o presidente da direção do Grupo Recreativo e Cultural Onze Unidos, a que está ligado desde sempre, primeiro como atleta e depois como dirigente. A Marcha do Beato é a mais recente “causa” de Amílcar e da coletividade a que preside. Foto: Rita Ansone Credit: Foto: Rita Ansone

Homem pragmático, de ação mas também de reflexão, com uma compreensão clara do barco que tem em mãos e do que ele significa, e pode significar, para o bairro, conta a história do clube desde a origem, ainda ele não era nascido. Chamava-se Clube de Futebol Unidos e foi desalojado das traseiras do Convento de Santos-o-Novo, no Alto do Varejão, quando ali foi instalada a então Escola Comercial Patrício Prazeres, em 1956.

Quando a escola foi construída, o clube desceu para esta zona, que na altura era de quintas – a Quinta do Zé do Brito, a Quinta do Ourives, a Quinta da Manhada – e instalou-se numa azinhaga, a Azinhaga do Planeta, que divide a freguesia do Beato da de Marvila.

“Como antigamente o que se jogava era o futebol de onze, passou a chamar-se Os Onze Unidos. Vieram para aqui em 1954, mas a partir dos anos 1960 as barracas que ali existiam foram crescendo até aqui acima”, lembra Amílcar. “Portanto, o clube já existia quando estávamos nas barracas. A sede era na casa de um sócio. Fazíamos muitos jogos, muitos torneios.”

Foi nessa altura que tomou consciência, na escola e fora dela, da fronteira invisível. “Havia uma discriminação de quem era dos prédios em relação a quem era das barracas. Quando íamos jogar à bola, eram os dos prédios e os das barracas. Era assim em tudo. Andávamos todos na mesma escola, mas nunca nos convidavam para as festas de anos, e depois mandavam os rebuçados cá para baixo para a gente apanhar. Nem gosto de me lembrar disso.” Faz uma pausa. “Não guardo rancor, mas é uma marca que não sai. Por isso é que às vezes os bairros são tão fechados.”

Nos anos 1970, começou a ser construído o bairro da Quinta do Ourives, em duas fases, para realojamento das pessoas que viviam em barracas. Primeiro as casas pequenas, depois os prédios. Amílcar veio para as casas, na primeira fase.

O 25 de Abril apanhou-o com 12 anos. “Veio dar uma volta a isto tudo.” Este era um território de fábricas – a manutenção militar, a do sabão, a do tijolo, a da pólvora –, onde viviam muitos operários, os que faziam as greves, os que lutaram contra a ditadura. “Havia aqui muita gente que tinha estado presa pela PIDE. Quando foi o 25 de Abril, foi uma festa aqui.”

Uma sede construída pelos moradores do bairro

Foi dessa festa que nasceu a sede do Grupo Recreativo e Cultural Onze Unidos. Quando os prédios foram feitos, os estaleiros das obras permaneceram. Os empreiteiros foram-se embora e o material ficou. “Não tínhamos sede e havia malta a pagar quotas”, lembra Amílcar. “Onde é que parávamos? Num café aqui, que esteve 40 anos fechado e agora abriu outra vez. Era lá que tínhamos os troféus.”

Os sócios começaram a escavar. A polícia veio várias vezes. Houve intimações, mas a obra foi-se fazendo. A inauguração foi a 1 de maio de 1976. Três anos depois, em 1979, a Câmara concedeu autorização “a título precário”. Um título precário que se tornou permanente.

Amílcar tinha 14 anos quando se inaugurou a sede. Em 1992 entrou para a direção. O seu trabalho na fiscalização da Câmara Municipal de Lisboa fê-lo perceber que as instalações não ofereciam segurança. “Isto estava tudo ilegal, era um pandemónio”, diz. Em 1997, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia do Beato, demoliu-se e construiu-se de novo. Mas, até hoje, há dívidas por saldar e documentos em falta, nomeadamente a escritura formalizando o direito de superfície aprovado em Assembleia Municipal.

“Foi-nos aprovado”, explica, “mas tínhamos de pagar quase cinco mil euros para fazer a escritura. Não tínhamos esse dinheiro. Já fiz tudo e mais alguma coisa para resolver essa questão, mas nunca consegui. É aquilo que tenho mais atravessado.”

Sem direito de superfície, a coletividade não pode ter o estatuto de utilidade pública, que permitiria o acesso a uma série de benefícios e apoios. “É uma pescadinha de rabo na boca que nos prende neste marasmo. Não conseguimos dar o salto”, lamenta Amílcar.

“É preciso perceber o contexto aqui. Este é um bairro que tinha um índice de analfabetismo muito alto. Havia, e se calhar ainda há, injustamente, um estigma relativamente ao bairro. Mas, como pode constatar, isto é uma calmaria. O que temos tentado é desfazer esse estigma, trazer as pessoas ao clube, diversificar as atividades.”

As paredes exteriores (e agora também as do interior do pavilhão) do Grupo Recreativo e Cultural Onze Unidos têm várias pinturas murais de homenagem a figuras que foram importantes na história deste clube feito de e por gente do bairro. Foto: Rita Ansone Credit: Foto: Rita Ansone

A decisão estratégica de Amílcar foi a de abrir a coletividade, estabelecer parcerias, formalizar apoios. Estabeleceu protocolos, fez candidaturas que ninguém antes tinha sabido fazer por falta de literacia e conhecimentos, conseguiu apoios formais da Junta de Freguesia do Beato e da Câmara Municipal de Lisboa, através das rubricas disponíveis para o desporto e para as coletividades.

Hoje, os Onze Unidos, que já tiveram uma equipa de futsal na primeira divisão, em 2008, “uma equipa de bairro, sem ganhar em dinheiro”, têm futsal de veteranos, luta livre, jiu-jitsu cheio de miúdos, vão recomeçar as escolinhas de futsal, participam em torneios de malha, petanca, snooker e jogos tradicionais, mantêm um programa social e cultural com o apoio da Fundação Aga Khan, dirigido aos mais velhos, que dinamiza aulas de pintura, ginástica de manutenção e passeios trimestrais.

E têm – desde o ano passado, depois de seis anos parada – a Marcha do Beato.

Os Onze Unidos a marchar pelo Beato

A Marcha do Beato começou a participar nas Marchas Populares de Lisboa em 2003, com organização do Ateneu da Madre de Deus e apoio das várias coletividades da freguesia, entre elas os Onze Unidos. Logo nesse primeiro ano, ficou em terceiro lugar. Nunca mais lá voltou. Em 2019, ficou em 19.º e foi remetida ao “pote”. Depois aconteceu a pandemia. Concorreu em 2022 e 2023 e não foi sorteada.

O espírito voluntarista e associativo que sempre animou os Onze Unidos levou a coletividade a assumir sozinha, em 2025, a Marcha do Beato, quando o Ateneu da Madre de Deus – coletividade amiga e vizinha – deixou de ter condições para o fazer. A 21 de maio, apresentou-se à freguesia; no dia 31, vai ao MEO Arena; e, a 12 de junho, desfila na Avenida da Liberdade pelo segundo ano consecutivo.

“Era preciso reanimar a marcha”, diz Amílcar Mota. “Nestes bairros vive-se muito a tradição, e havia pessoas daqui que iam apoiar outras marchas. Quero que esta marcha seja de toda a freguesia.” Sem o Beato em concurso, a Picheleira virava-se para o Alto do Pina; a zona baixa para Marvila. “Lá tive então de ir puxar a marcha para nós”, diz.

Reuniu pessoas em quem confiava – muitas delas da família. O filho Tiago, ensaiador. O sobrinho Ruben, cenógrafo e figurinista. A nora, Filipa Mota, na comissão organizadora. E muitos outros. Inscreveram-se. Esperaram dois anos pelo sorteio. Recomeçaram em 2025 com o objetivo modesto de não descer. Atingiram-no. Ficaram em 17.º.

Este ano querem mais e por isso foram buscar o Nando, filho do bairro e veterano das Marchas Populares de Lisboa. “Fizemos aqui umas contratações”, brinca o atual coordenador, com um piscar de olho. Tem 44 anos, é técnico de alturas e superfícies. “Gostamos acima de tudo da festa e da tradição, mas havendo competição, queremos ficar no melhor lugar possível.”

Tiago Mota, 38 anos, motorista, marchou pela primeira vez na marcha infantil dos Onze Unidos, em 1996. “Tanto eu como o Nando nascemos e crescemos aqui e fizemos parte da marcha infantil, respiramos marchas desde crianças”, diz o ensaiador, que se estreou na Marcha do Beato em 2003, quando esta foi criada.  

Hoje vive fora de Lisboa, mas durante os quatro meses de ensaios volta todos os dias ao bairro de origem. “É complicado porque os ensaios são sempre à noite, às vezes até à meia-noite, mas estamos aqui por gosto e assumimos que a marcha é a nossa prioridade durante estes quatro meses”, diz Tiago, chamando a atenção para uma diferença em relação à maioria das concorrentes.

Foto: Rita Ansone Credit: Foto: Rita Ansone

“Aqui, o ensaiador não vem de fora. Eu sou do bairro. O meu pai é presidente da coletividade há uma data de anos. Crescemos todos aqui”, explica. Nando acena que sim com a cabeça e acrescenta: “A gente tenta que tudo, em relação à marcha, tenha origem na freguesia. Esta é a freguesia mais pequena de Lisboa, mas tem muita história.”

Uma história que cabe sobretudo a Ruben Mota contar. Engenheiro informático de profissão, é dele que partem os temas, a cenografia e os figurinos da marcha. “Acho que as Marchas Populares de Lisboa são das poucas coisas que ainda contribuem para preservar este espírito do bairrismo e do associativismo alfacinha. Eu faço isto pelo Beato. Não conseguia fazer por outra marcha.”

“A marcha não é nossa, a marcha é do Beato”

Os ensaios não são todos no pavilhão dos Onze Unidos. Às sextas, sim. Durante a semana são na Escola Luís António Verney, e Amílcar quer levá-los também a outros bairros da freguesia. A escolha é deliberada.

“Se eu pusesse os ensaios todos aqui, eles chegavam a um ponto em que diziam: ‘a marcha é nossa’. Não, a marcha não é nossa. A marcha é do Beato, é da freguesia toda. Somos cinco ou seis bairros e esses bairros têm de estar todos envolvidos”, diz Amílcar Mota, com a consciência de que há uma tentação grande em cada bairro de se fechar sobre si próprio.

“O Beato tem uma identidade forte e uma história muito rica e é por aí que queremos pegar para juntar esta gente.”

“O Beato é o Beato. O resto é só a freguesia onde a gente vive”, diz uma das marchantes, que herdou da mãe o amor às Marchas Populares de Lisboa. Foto: Rita Ansone. Credit: Foto: Rita Ansone

E estão a conseguir. Carina tem 34 anos, é auxiliar de saúde, e vem com as sobrinhas Iris (18, auxiliar numa creche) e Beatriz (18, estudante do 12.º ano). Já moraram aqui. Hoje vivem em Marvila. “Mas o Beato é o Beato. O resto é só a freguesia onde a gente vive”, diz Carina, herdeira de uma tradição que vem da mãe (e avó de Íris e Beatriz), que marchava por Alcântara nos anos 1980.

Nuno Rodrigues tem 30 anos, é chefe no Pingo Doce, nasceu em São Vicente de Fora e cresceu no Beato. Marchante desde pequeno, já marchou por São Vicente, pela Graça e por Marvila, mas só este ano veio para a sua freguesia. “Joguei à bola aqui, nos Onze Unidos, quando era criança. Vim para representar o bairro”, diz, confessando que o grupo está a exceder as expetativas.

“O ambiente é muito familiar. Temos 50 personalidades dentro de uma marcha. E ainda mais 10 ou 15 de direção. Às vezes não é fácil lidarmos todos, mas as pessoas dão-se bem. Está a correr muito melhor do que eu esperava.”

Muita gente que de forma voluntária se junta todas as noites, durante quatro meses, para acertar o passo, recriar a história e as tradições de uma freguesia e tentar levá-la à vitória na Avenida da Liberdade.

Os 50 anos do Grupo Recreativo e Cultural Onze Unidos celebraram-se no dia 1 de maio. Quando esta reportagem foi realizada, Amílcar Mota estava a planear um porco assado no espeto, entrega de medalhas aos sócios com 50 anos de casa e a “inauguração” das pinturas murais no pavilhão, de homenagem às figuras importantes do clube, entre elas os atletas que estiveram na primeira divisão de futsal em 2008, e às várias atividades que o clube já teve neste meio século.

A festa já aconteceu e foi bonita. As marchas ainda têm umas semanas de ensaios pela frente e Amílcar Mota vai aparecendo para animar as hostes.

“Vocês aparecem na televisão, vão ser vistos por milhares ou milhões de pessoas e estão a representar uma freguesia, o Beato. Representem-na bem.”

Para Amílcar, a marcha não é um fim em si mesma. É uma forma de unir uma freguesia e celebrar a sua história, tradições e identidade. Nos Onze Unidos ensaia-se uma marcha e ensaia-se, sem o dizer assim, um Beato que se recusa a deixar de ser bairro.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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