Tive de o fazer, foi a única saída: um ano atrás, tirei o mais novo da escola pública e o meti num colégio privado. Não foi fácil. Logo eu, fã do estado social, entusiasta do acesso universal à educação. Mas tinha de ser. Era uma questão de segurança. 

O bullying com o mais novo estava ficando arriscado demais. 

Já escrevi aqui, já contei da professora pegando no pé – ou melhor, na língua – do mais novo, do tipo ou fala português ou não passa de ano. Teve ainda o de sempre, a perseguição dos coleguinhas, o perigo à espreita nos corredores escuros da escola.

Um pesadelo que os familiares e amigos conhecem muito bem. 

Os familiares, os amigos e em breve os leitores, agora que o júri da DGLAB me deu a honra e responsabilidade de ser o primeiro escritor brasileiro a receber a cobiçada bolsa de criação literária para escrever um romance, o bullying e o périplo do mais novo como plot.

Para não dar spoiler do próximo livro, fico nestas mal-postadas linhas no efeito colateral, o de ter tirado o mais novo da escola pública e matriculá-lo num colégio particular. 

No caso, a Voz do Operário.

E não poderia ser diferente. 

Se é para apelar ao ensino privado, se render ao capital, que seja então numa escola desde 1883 de base marxista. Financiar a luta de classes ameniza um pouco a minha culpa, o constrangimento pequeno-burguês de ter um filho num colégio particular.

Para os brasileiros que não a conhece, a Voz do Operário ocupa um enorme prédio em Alfama, imponente e meio sisudo, mirando a igreja de São Vicente de Fora com sarcasmo, pois se os fiéis carregam a cruz da dúvida, Deus existe ou não, lá na Voz todos têm a certeza:

Marx existiu, sim.

Sabem ainda que ir à igreja não adianta nada. Os trabalhadores devem mesmo é enfrentar a classe dominante para criar o Paraíso aqui na Terra. 

A Voz do Operário é, como se vê, uma espécie de Hogwarts marxista. Lá, contudo, não se aprende magias baratas, abrir cofres com varinha ou a desaparecer vestindo um capuz. 

Na Voz, os alunos e alunas descobrem que o cofre esconde o valor do trabalho do proletário convertido pelo patrão em lucro e invisível nem a maléfica mão do mercado.

Ah, a magia do aprendizado da consciência de classe!

Abracadabra e ditadura do proletariado.

Um ano depois na Voz e o mais novo já não é o mesmo. Não quer mais ir à Disney, prefere Cuba, tirou o poster do Minecraft na parede do quarto, pôs o de Che Guevara e passou a construir fábricas com o Lego, para depois organizar os bonequinhos à frente, reivindicando melhores condições laborais.

Também deixou de comer na imperialista McDonald’s e trocou a Coca-Cola pela Fritz-Kola fabricada na antiga Alemanha Oriental. Só se veste agora com roupas de segunda mão para reduzir a pegada de carbono produzida pela indústria burguesa e fútil da moda. 

Ainda não se estressou em definitivo com o Papai Noel, é verdade, afinal é o Pai Natal é barbudo e anda vestido de vermelho. Embora se recuse a receber presentes no Natal, em protesto contra a exploração da classe operária dos gnomos. 

O medo de fantasma também é coisa do passado. Tudo graças ao materialismo histórico, explica o mais novo, pois vivemos num mundo material, sem espaço para o sobrenatural, apenas para uma sociedade regida pelos conflitos entre opressores e oprimidos. 

Tem sido assim.

Noutro dia, andou a recusar a salada no almoço. Era o aviso de greve pelo aumento da mesada. Se nada acontecer, ameaça parar de tomar banho. E não deve estar brincando. 

Já o vi silenciosamente recolhendo garrafas vazias no contentor dos vidros. Temo que não seja para reciclar, mas para os coquetéis-molotov.

A nossa relação também mudou um pouquinho. 

Há uns tempos, em vez de pai o mais novo passou a me chamar de camarada. Disse algo como discordar da moralidade abstrata das relações humanas. Deve ter a ver com o exemplar de A Sagrada Família que achei debaixo do travesseiro dele.

Para mim, não tem problema, o amor é o mesmo, meu filho. 

Meu filho, não.

Meu pequeno camarada.


Imagem do avatar

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *