No princípio do século XX, o poeta Guerra Junqueiro dizia que “só há dois píncaros para ver o mundo: um é o Himalaia, outro o Chiado. Eu decidi-me pelo Chiado.” Nascido no concelho do Freixo de Espada de Cinta, o poeta, que foi membro do grupo Vencidos da Vida e se popularizou com poemas nacionalistas, e pró-republicanos, por altura do ultimato inglês, evocava, com esta declaração, todo um mundo de tertúlia, alguma intriga e muita bisbilhotice, que cabia entre o Teatro de São Carlos, a Casa Havaneza e a Brasileira.
Imagine-se agora uma mulher de letras, contemporânea de Guerra Junqueiro, Carolina Michaelis de Vasconcelos, por exemplo. Ou Ana de Castro Osório. Fariam uma declaração destas? Este píncaro com vista para o mundo estaria disponível para elas, em igualdade de circunstâncias?



Este foi o tema da terceira tertúlia da Brasileira do Chiado, uma iniciativa da Mensagem de Lisboa, no âmbito da celebração dos 100 anos dos primeiros quadros modernistas expostos n’A Brasileira, efeméride que é também assinalada pelo Prémio de Pintura A Brasileira do Chiado. A conversa reuniu as diretoras do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Emília Ferreira, e do Museu Frei Manuel Cenáculo (Évora), Sandra Leandro.
O mundo do espetáculo e o “z” de Beatriz Costa
No dia em que, por coincidência, o quadro de Almada Negreiros, Auto-Retrato com Grupo, pintado de propósito para a Brasileira, em 1925, passou a estar exposto no Museo Reina Sofia, em Madrid (onde estará até janeiro, no âmbito da mostra da cultura portuguesa em Espanha), as duas especialistas em História da Arte Contemporânea recordaram as figuras de mulher representadas neste quadro: Julia Aguilar, bailarina e atriz espanhola, e a cocotte Aurora Gil.

Como referiu Sandra Leandro, “as mulheres do mundo do espetáculo gozavam de uma liberdade que as outras não tinham. Frequentavam uma certa boémia, entravam em cafés e participavam em tertúlias.” De resto, à baila veio também outra célebre frequentadora da Brasileira, a atriz Beatriz Costa que, nas suas memórias, evoca o tempo em que este local, e os homens que o frequentavam, foram para ela a escola que lhe faltou na infância. Aqui teria aprendido a desenhar o z de Beatriz, dizia com o desassombro que sempre a caracterizou.
O mesmo não acontecia com mulheres que se dedicavam às artes plásticas ou às letras, como Maria Augusta Bordalo Pinheiro, irmã de Rafael e de Columbano, que tinha atelier no Chiado. Ou com as alunas da Escola de Belas-Artes de Lisboa.
Como Emília Ferreira recordou, tal não significava que o Chiado estivesse vedado às mulheres. Ali estavam, para além das Belas-Artes, algumas das mais requintadas lojas de Lisboa, como o Ramiro Leão, a Paris em Lisboa, os Armazéns do Chiado ou o Grandella, que eram naturalmente muito procuradas por uma clientela feminina. O que não deixava de ser um outro local de observação privilegiada. Assim houvesse engenho e arte.
E houve, decerto muito mais do que podemos imaginar.
Na verdade, lembrou Sandra Leandro, a República, por que se bateram com fervor mulheres como Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo ou Angelina Vidal, entre outras, não tardou a afastá-las de qualquer centro de decisão, deixando claro que, no novo regime, a política, a literatura, as artes e os jornais continuavam a ser feudos masculinos, exatamente como acontecera na monarquia.
Às mulheres que queriam frequentar tertúlias culturais restavam os salões privados, realizados em casas como a de Veva de Lima, que estavam naturalmente reservados a uma elite muito restrita.



As protagonistas do Chiado
Ainda assim, o Chiado (e a arte portuguesa) nunca deixaram de ter as suas protagonistas. Sandra Leandro evocou a pintora Raquel Roque Gameiro (1889-1970), a sua filha Guida Ottollini (1915-1992), cujas ilustrações brilharam em revistas femininas de grande circulação como a “Eva”, dirigida por Carolina Homem-Cristo, ou em livros para um público infando-juvenil.
Emília Ferreira, por sua vez, recordou duas outras figuras da arte portuguesa de meados do século XX: Ofélia Marques (1902-1952) e Milly Possoz (1888-1968). A primeira, que foi também uma das primeiras mulheres a frequentar a universidade em Portugal, distinguiu-se no desenho e na ilustração (sobretudo para jornais, revistas, livros e outro material gráfico), embora, como referiu a diretora do Museu do Chiado, “seja muito menos conhecido o modo como transgrediu a moral puritana do Estado Novo, com desenhos homoeróticos, que só raramente viram a luz do dia.” Casada com o também artista plástico Bernardo Marques, Ofélia suicidou-se aos 50 anos de idade.
Muito diferente, mas igualmente mal conhecida, é a história da pintora e ilustradora Milly Possoz (1888-1968), portuguesa, filha de pais belgas, que proporcionaram às filhas uma educação artística, muito invulgar para a época.

Milly frequentava os salões culturais e cinéfilos da baixa lisboeta, quase sempre na companhia da sua irmã Jeanne e da sua amiga Alice Rey Colaço. Integrou o movimento modernista emergente em Portugal, sendo também das poucas artistas femininas da sua geração a organizar exposições individuais do seu trabalho em pintura a óleo, desenho a lápis, guache ou aguarela. Noiva do pintor Eduardo Viana, conviveu com Robert e Sonia Delaunay, Almada Negreiros e Sarah Afonso, Vieira da Silva, Abel Manta, Maria Keil, Estrela Faria ou António Soares.
Apesar desta notoriedade, salientou Emília Ferreira, a sua biografia é frequentemente mal contada: “Dizem que viveu mal, que morreu na miséria, num quarto do hotel Tivoli, a quem pagaria com os seus quadros. Tudo isto é mentira. Milly foi viver para Sintra nos anos 40, onde vendeu muitos quadros a refugiados abastados que tinham vindo viver para Portugal durante a 2ª Guerra Mundial.”
Em Sintra, viria a morrer em 1968. “Os quadros que estão no Tivoli foram realmente comprados pelo hotel. Nunca serviram de modo de pagamento do que quer que seja.”
A quem serve esta falsa narrativa sobre mulheres artistas caídas em desgraça, que pagariam com a ruína a ousadia de traçar o seu próprio caminho? Aos puritanos do costume. Os que nunca gostaram de ver as portas do mundo escancaradas para as mulheres.


Maria João Martins
Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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