Snott é Alex Simiema, um artista nascido em Goiânia, no Brasil, há 31 anos. Na verdade, como diz, o que nasceu naquele dia foi a pessoa, não o artista. Esse fez-se com os anos, embora crescido num ambiente onde sempre o fizeram crer que o gosto por tricot e crochet era coisa de meninas. Ou do passado. “Existia sempre aquela conversa entre os adultos que não era para me ensinar.”

Até que deixou uma carreira na conservação ambiental, numa empresa familiar. Decide regressar a Lisboa, a cidade que já o acolhera antes, onde Snott se torna finalmente o artista. É que essa decisão se junta com uma outra que estava a ser feita em Arroios: a transformação do Quartel da GNR do Largo do Cabeço da Bola – também conhecido como Quartel de Santa Bárbara -, em 2022, em centro cultural e artístico pela cooperativa LARGO Residências.

Ele virou um dos muitos artistas com a missão de mudar aquele lugar e a comunidade que dele necessitava, através do tricot, do crochet e da tecelagem. Para crianças de seis anos ou o “senhor David”, de 100, Snott criou workshops para revolucionar a ideia de arte, como um motor social e palco de discussão.

Foi este lugar em Arroios, onde ele se descobriu como artista, que deu origem ao podcast da Mensagem de Lisboa: “O Quartel”.

Este podcast tem narração de Catarina ReisTomás Delfim e Pedro Saavedra – ator e dramaturgo, que aqui dá voz a excertos de contos fictícios que escreveu sobre o quartel.
Ouça aqui o 2.º episódio:

Ouça aqui os episódios anteriores:

O fim do quartel de Santa Bárbara- e depois?

O quartel fechou. Mas quem o ocupou sempre soube que a estadia era temporária – porque outras prioridades da cidade se levantavam.

Em 2022 a LARGO Residências deixou o Largo do Intendente, para ocupar este edifício grande e vazio, um antigo quartel da GNR. Meio habitado por pessoas em situação de sem-abrigo, de um lado; e, do outro, separados por um muro, meio habitado por centenas de artistas culturais e projetos sociais, incluindo a cooperativa, que não encontraram outra casa na cidade.

De repente, os portões do século XIX, há tantos anos vedados, de onde se viam por frinchas os homens fardados lá dentro, lá ao fundo, abriram-se à comunidade. O quartel deixou de ser um monumento do passado, para ser um ator vivo na cidade.

Lá dentro, já não era a GNR que víamos em ação, mas atores, artistas plásticos, músicos, dramaturgos, arquitetos, bailarinos, mediadores sociais e culturais, cozinheiros… ao lado de uma querida mascote: o gato Capitão. Houve espaço para lisboetas e outros, os que chegavam fugidos de uma guerra num outro país.

Viraram pequenos e grandes soldados na luta por uma cidade de todos, vibrante e sem lugares mortos. Com eles, trouxeram um debate: por que não podem os vazios de Lisboa ser ocupados por quem sonha transformá-los?

E, ao final de dois anos, o que construíram neste quartel tornou-se exemplo urbano, social e cultural em Lisboa.

Mas e agora? Agora que estão de partida para uma outra morada: os jardins do Hospital Miguel Bombarda, para que o quartel sirva a habitação acessível numa cidade onde ela faz falta – bem como espaços comerciais, culturais e serviços. O que aprendemos com este sonho que eles criaram para Lisboa?


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