Conhecido como o herói de dois mundos, Giuseppe Garibaldi foi o unificador de Itália. Para mim, talvez por ter crescido num país que é uno há vários séculos, o garibaldi foi e será sempre o expoente da pastelaria fina lisboeta – descobri agora que esta delícia nasceu em Almada em 1969, pelas mãos de Álvaro Pereira, um pasteleiro beirão – e, até prova em contrário, o melhor era o da Central da Baixa. Infelizmente, não só a antiga pastelaria ao lado da icónica e também antiga sede do Banco Totta & Açores fechou (what else!), como o último que provei há umas semanas era particularmente desenxabido e sensaborão.

Quando era pequeno, trincar e degustar em simultâneo aquela explosão de sabores e texturas de chocolate, com uma base fina de pão de ló, uma mousse cremosa no meio e uma cobertura crocante do dito, era uma experiência irresistível, quase divina – idêntica à sentida pelo pequeno Patsy do Era Uma Vez na América, quando preferiu abocanhar uma apetitosa duchesse com uma carnuda cereja no topo a uma experiência mais escaldante com a um pouco mais velha Peggy. Nesses anos, não tenho dúvidas, a nossa pastelaria era realmente (mais) fina e nada ficava a dever à sua congénere gaulesa.

O exemplo e um garibaldi. Ilustração: Nuno Saraiva

Há uns largos meses, no final de um compromisso de trabalho ali perto, decidido a subir a Rua do Ouro e devorar um dos saudosos garibaldis da Central da Baixa, uma das pastelarias da minha infância, qual foi o meu espanto ao perceber que esta já não existia. Meio atarantado, ainda tentei perceber se estava no quarteirão certo. Nada disso. A velhinha Central era agora mais uma Starbucks à portuguesa. Ganhou em simpatia, mas perdeu em genuinidade e, claro, em garibaldis elegantes e deliciosos.

É verdade que, da última vez que lá entrei, há uns bons quinze anos, o garibaldi era uma pálida recriação da délicatesse da minha meninice e a conceituada pastelaria já nada tinha a ver com a Central da Baixa a que ia com a minha avó (na verdade, uma habituée da também desaparecida Ferrari) e as minhas irmãs aos sábados nos idos anos setenta, numa altura em que apanhar o metro para a Baixa era, para mim, quase como ir a Espanha, mas sem os caramelos. Como tantos outros cafés históricos de Lisboa, acharam que o moderno passava por arrancar à bruta o antigo e o tradicional e espalhar fórmica, tetos falsos e espelhos por todo o lado.

O resultado foi o óbvio: o que era, deixou de o ser… até fechar.

Houve três tendências entre o risível e o catastrófico que marcaram a pastelaria lisboeta dos anos oitenta e noventa (e também as barbearias e as farmácias, mas isso é outra história) e que mereciam uma análise antropológica aprofundada: a destruição indiscriminada de património edificado e ornamental que deveria ser da cidade por um conceito desvirtuado de modernidade, a introdução de bolos enormes e sem sabor e, acima de tudo, esse hábito estranho de partir os bolos ao meio, que me encanita sobremaneira.

Aqui chegado, não quero parecer saudosista ou panfletário em nome de uma pastelaria quase de relojoaria que passou. Nada disso. Até porque surgiram, nos últimos anos, espaços muito cool e sofisticados na cidade, com todo o tipo de doçaria, combinados e brunchs demorados capazes de deleitar tanto nativos como visitantes, desde que uns e outros não se espraiem em modo contemplativo ou de livro na mão. 

Parece-me, mesmo assim, que o futuro não deve obliterar o passado. Senão, é um pouco como aquele ditado russo, relembrado amiúde pelo José Milhazes: “o futuro é resplandecente; o passado é imprevisível”. E todos sabemos aonde esses caminhos costumam levar.


Pedro Salazar
Nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campolide, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.


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7 Comments

  1. Obrigado pelo artigo. Foi um reviver também à minha memória de infância. Completamente de acordo eram os melhores Garibaldis de Lisboa . A “gulo-diversidade” 🙂 de Lisboa era rica. O meu roteiro incluia também Eclairs no antigo Nicola, Rolhas na Nacional, Estádios na Suiça, croassaints na Benard e Alsacianos na Pastelaria com o mesmo nome 🙂

  2. Já nem me lembrava dos Garibaldi, mas sim, eram um ícone das pastelarias Lisboetas na altura em que elas faziam parte das rotinas de encontro familiar, juntando gerações e cimentando amizades. Juntaria os duchesses da Versailles, os russos da Ferrari e a lindíssima sala da Império junto ao elevador de Sta Justa, de paredes forradas a espelhos com moldura de madeira escura e assentos estufados de veludo vermelho da Império. Quase que tive uma síncope no dia em que lá entrei e tudo tinha sido destruído para gáudio dessa modernice chamada McDonald’s!!!

  3. Caro Pedro.

    Aventure-se até a Pastelaria Santo António na Costa de Caparica e delicie-se com um belo Garibaldi.
    Pela descrição suprarreferida, creio que não se irá arrepender.

    Cumprimentos

  4. Estudei no Externato Paula Vicente,no Areeiro e todos os dias comia um Garibaldi, na Cinderela , deliciosos, bem assim como os Discos, feitos com massa folhada, recheados de ovos moles .
    O ano passado fui fazer umas análises, passei pela Cinderela ( quanta saudade), vi Garibaldi e, mas nem de perto nem de longe eram iguais.
    Dos 6/10 anos
    E agora , aliás o ano passado com 74 anos ,revivi com uma lágrima, esses dias.
    Também o Bolo Rei da Cinderela era avançadíssimo e delicioso e o brinde era um elefante em ouro.
    Lutegarda Marquês

  5. Os Garibaldi da Pastelaria Mexicana também eram do outro mundo, hoje em dia confesso que não sei. Outras delicias de Lisboa era os bolos Esquimós e São Marcos!

  6. Olá Pedro, li com mt agrado este seu artigo. Morei muitos na Rua do Crucifixo e muitas tardes ia à Central comprar um garibaldi e um esquimó para comer em casa. Ou então a minha mãe chegava do trabalho e lanchávamos lá. memórias incriveis do que era a vida na baixa. Moro em Beja há mais de 20 anos e até me custa andar a passear na baixa, não tenho uma única referência. Hoje um amigo, comprou 2 esquimós na suiça para eu provar quando ele voltar. Espero não ficar desiludido, sempre foram os meus preferidos, com o papel à volta e aquele travo a bebida que eu adorava. Domingo já vou saber. Agora garibaldis é que nunca mais vi em lado nenhum. Ficam as memórias. Um abraço e tudo de bom para si.

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