Estamos numa sala com vista para o rio Tejo, com as janelas abertas. Podia ser só um momento de contemplação de uma paisagem privilegiada, mas não: neste dia, seis jovens criadores foram desafiados a olhar para o Tejo e para as suas margens e a perguntar-se “o que nos diz este lugar?”. Que pessoas fazem parte dele? E que histórias esconde? Não viram a mesma cidade. Nem as mesmas margens. Isto ditou o arranque de uma iniciativa artística e comunitária diferente na cidade.
Ivone Fernandes-Jesus, artista multidisciplinar, estava nesta sala. De frente para o rio, contou-nos imediatamente sobre os passeios diários que fazia junto à “outra” margem, em Cacilhas, durante a licença de maternidade: no percurso, “pensava sempre em quem fazia o caminho inverso”, o que estaria a fazer e porquê, na margem onde hoje se encontra o MAAT.
Foi a partir desse olhar repetido sobre o outro lado do rio que começou a perceber que, apesar de partilharem o mesmo Tejo, as duas margens são vividas de formas muito diferentes.
MAx Provenzano trazia outra questão: a própria travessia.
Imigrante e artista interessado no corpo, na deslocação e na experiência de se mover entre lugares, começou por imaginar um cenário improvável: e se, um dia, a Ponte 25 de Abril se partisse? O que aconteceria à ligação entre as duas margens? Como mudariam os percursos de quem atravessa diariamente o rio para trabalhar, estudar e viver?
Gabriel Vileiro. naquela sala, pensava no mesmo. Ele que traz uma conjugação curiosa de papéis: é rapper, arquiteto e urbanista. Pensar os espaços faz parte do ADN dele. Falá-los – e cantá-los – também.
Foi a partir destas e outras interrogações que começou a ganhar forma o Entre Margens, um projeto de comunicação do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em parceria com o jornal Mensagem de Lisboa. A ideia era esta: convidar seis jovens criadores a pensar a cidade, a partir das ferramentas do jornalismo e da arte. E, assim, juntou-se o que não tantas vezes se une: o museu, artistas emergentes, a comunidade e os jornalistas.









O resultado é um laboratório de criatividade urbana, criado dentro de um contentor branco plantado à frente do MAAT Central, de agosto de 2026 até 4 de janeiro de 2027.
Partindo da ideia de que os museus estão muitas vezes desligados das cidades e das pessoas que as habitam, o projeto propôs uma aproximação: e se o museu pudesse ser também um lugar para observar, questionar e discutir a cidade? Um desafio que fazia sentido lançar a quem experiencia Lisboa todos os dias. Por isso, em maio, uma open call abriu as portas do projeto a jovens criadores da Área Metropolitana de Lisboa interessados em explorar a relação entre arte, jornalismo e comunidade. Depois da seleção, ficamos a conhecer os seis participantes: com vozes (e sotaques) diferentes, a viver em Lisboas distintas e a criar através de várias linguagens artísticas.

Conheça os seis criadores selecionados pela Mensagem de Lisboa:
dualgo

Ilustração
Amadora
Formado em jornalismo e baseado na Amadora, move-se entre a palavra e a imagem, seja através da colagem, da pintura, da ilustração ao vivo ou de oficinas artísticas para crianças na Linha de Sintra. Desde a ponta da caneta a desenhar no guardanapo até chegar às outras pessoas, já teve oportunidade de expor tanto na periferia como no centro de Lisboa.
Bruna Varela

Escrita
Chelas
Artista com um percurso marcado pela escrita, pela expressão poética e pelo interesse em narrativas sociais e humanas. O seu trabalho desenvolve-se na interseção entre arte, consciência social e comunicação, explorando temas ligados à identidade, experiência vivida e estruturas sociais. Já integrou projetos que cruzam arte, jornalismo e investigação social, como a Gazetta do Bairro.
Nuno Trigueiros

Pintura/Artes visuais
Mem-Martins
Pintor, colecionador de imagens e artista multidisciplinar, cuja obra está profundamente enraizada nas comunidades da periferia de Lisboa, onde nasceu, cresceu e continua a viver. A sua prática artística abrange diversas técnicas e meios, explorando as interseções entre a expressão visual e plástica. É cofundador e membro ativo do coletivo artístico Unidigrazz.
Ivone Fernandes-Jesus

Performance
Cacilhas
Desenvolve trabalho como criadora e intérprete, explorando relações entre criação artística, participação e questões ecológicas. É cofundadora e presidente da Associação Mergulho Urbano – Ambiente e Arte, onde desenvolve projetos que cruzam práticas artísticas, sustentabilidade e envolvimento comunitário. A sua prática combina metodologias participativas, teatro documental e ecoficção.
Vileiro

Música
Reboleira
Artista brasileiro em ascensão. Com um som autêntico e letras afiadas, vem conquistando espaço na cena underground do rap nacional, mais recentemente com o lançamento do álbum “Serviços”, um projeto arquitetónico fonográfico. O seu trabalho combina influências do grime britânico com a realidade das ruas brasileiras, trazendo rimas intensas e instrumentais marcantes.
MAx Provenzano

Performance
Arroios
Artista venezuelano radicado em Portugal. A sua prática investiga o corpo como território migrante, explorando deslocamento, arquivo e mediação entre linguagens. Trabalha com performance, fotografia, vídeo, instalação e dispositivos participativos. Paralelamente, dirige o ProvenStudio, entendido como catalisador de mediações no campo da arte contemporânea.
O debate nasce no museu
Cada um deles trazia consigo uma relação diferente com a cidade e com o próprio MAAT. Nuno Trigueiros já tinha estado cá, como artista participante na exposição Interferências, curada por António Brito Guterres, Carla Cardoso e Alexandre Farto (Vhils). Duarte Ferreira, conhecido por dualgo, tinha apenas a experiência de espectador. Outros nunca tinham sequer entrado no museu. Como Bruna Varela, que foi a primeira, em três gerações da sua família, a estar tão próxima de um. A avó tinha trabalhado nas equipas de limpeza de instituições culturais em Lisboa, mas foi Bruna quem, pela primeira vez, entrou num museu como criadora.
Mas, neste projeto, todos os artistas partilhavam o ponto de partida: pensar o espaço em que vivem, desta vez não como espectadores, mas como agentes de mudança.
Ao longo do processo, foram sendo partilhadas ideias em voz alta e em post-its, descobriram-se novos conceitos de “estar à margem” e deixou-se espaço para experimentar, mudar de direção, antes de começar a criar.
Algumas das sessões contaram com convidados que trouxeram novas perspectivas para a conversa. Falámos sobre as ferramentas do Jornalismo Comunitário, com Álvaro Filho, jornalista, e Catarina Carvalho, diretora da Mensagem de Lisboa, e também sobre o lugar das periferias na arte, com António Brito Guterres, investigador e assistente social, e Nael D’Almeida, produtora e mediadora intercultural.
Pelo caminho, confirmou-se uma ideia que atravessou todo o projeto: a arte e o jornalismo não são assim tão diferentes. Partilham um mesmo superpoder: observar, escutar e tornar visível aquilo que normalmente passa despercebido.
A criação do laboratório
Em agosto, o projeto ganhou forma na Praça do Carvão, com a chegada de um contentor pintado de branco, que foi sendo transformado pelos seis criadores, com a curadoria da Mensagem de Lisboa. Tradicionalmente utilizado para o transporte de mercadorias e armazenamento, tornou-se também o lugar que guardou todo este processo e as descobertas que os participantes foram fazendo sobre a cidade.
Foi dentro destas quatro paredes que as diferentes perspectivas começaram a habitar um mesmo espaço. O acesso à cidade, o direito a pertencer a um lugar, as pessoas que fazem a vida urbana funcionar e aquelas que, apesar disso, permanecem invisíveis – são algumas das questões que atravessam os trabalhos dos criadores.


Os trabalhos expostos refletem, assim, diferentes pontos de entrada para uma mesma cidade, seja através da escrita, da música, da vídeo-performance ou da ilustração.
Saiba mais sobre os trabalhos de cada artista, dentro do projeto Entre Margens:
Compor a Mesa
dualgo
“Partindo da ideia de que os cafés são lugares de encontro onde a cidade se forma, dualgo sentou-se à mesa com as pessoas com quem se foi cruzando para conversar sobre Lisboa. Em toalhas de papel, registou fragmentos das conversas, colocando palavras e rabiscos lado a lado com as manchas de gordura, preservando assim as vivências de cada encontro. ‘Compor a mesa’ é o resultado sempre incompleto destes encontros na cidade e das pessoas que nela habitam.”

A Cidade dos Serviços
Vileiro
“Que serviços tem a cidade? Quem os faz? Para que serve uma cidade? E como se organiza? Nesta exposição, Vileiro usa a sua formação enquanto arquiteto e urbanista para responder a estas perguntas. Para ele, a cidade é um lugar de possibilidades, onde crescer significa ultrapassar fronteiras físicas, sociais e imaginárias. Por isso, utiliza o mapa como representação do território, para explorar, de forma simbólica, as margens e limites. Num vídeo, Vileiro propõe-se a escutar a cidade em funcionamento, entre os ruídos e as vozes que lhe dão vida. É inspirado no seu álbum de rap, Serviços, que reflete sobre o trabalho invisível que sustenta o quotidiano urbano.”

Ornamentações do Território
Nuno Trigueiros
“Num pano, Nuno representa códigos de sobrevivência. Através de símbolos, figuras e elementos da natureza, construiu uma narrativa visual que reúne referências a diferentes territórios e modos de vida. Cada desenho regista a relação entre a cidade e as comunidades que a habitam, preservando memórias que passam de geração em geração.”

Do Outro Lado da Margem
Bruna Varela
“A poesia acompanha Bruna Varela desde o momento em que descobriu, através de uma máquina de escrever, uma outra forma de contar histórias. Este objeto, marcado pelo tempo e pelas memórias que guarda, torna-se o ponto de partida para novas narrativas. Através da escrita, Bruna evoca temas ligados à identidade e às estruturas sociais. Essa reflexão surge também num espelho, colocado à beira-rio, que aproxima as duas margens, habitualmente observadas à distância. A leitura do poema, em diálogo com o reflexo, convida a pensar sobre as diferentes margens físicas e simbólicas que habitam a cidade.”


Ressonâncias
MAx Provenzano
“Nas imediações do MAAT, MAx Provenzano recolheu um fragmento da cidade e transformou-o num dispositivo de escuta e memória. Através da pedra, convida as pessoas que circulam junto ao museu a aproximar-se e a deixar uma mensagem para Lisboa. As diferentes vozes gravadas constroem um arquivo coletivo e, ao mesmo tempo, um espaço de participação e reflexão sobre presente e futuro. A sua prática cruza memória, identidade e lugar, refletindo sobre a forma como as histórias e as experiências se inscrevem nos lugares que habitamos, particularmente nas cidades.”

Invisível-Perceptível
Ivone Fernandes-Jesus
“Quantos “invisíveis” são necessários para tornar uma obra visível ao público num museu? A partir da própria experiência a viver na “outra margem”, em Cacilhas, a olhar para o MAAT, Ivone Fernandes-Jesus quis representar as pessoas que diariamente percorrem diferentes trajetos para vir trabalhar para o museu. Apoiando-se nas ferramentas do jornalismo, desenvolveu um processo de investigação e conheceu histórias reais de quem, no seu quotidiano, também faz o MAAT existir. O resultado é uma vídeo-performance que documenta esses encontros.”

O projeto Entre Margens fez-nos perceber que talvez não seja preciso convergirmos todos para um mesmo centro, seja ele qual for. Ao invés disso, podemos transformar um lugar num ponto de encontro para muitos outros “centros” e experiências diferentes. E o museu pode ser esse lugar.
Este laboratório não é apenas o resultado das discussões que tivemos sobre a cidade. É também uma porta aberta a todos os que queiram entrar, olhar para Lisboa de outra forma e somar as suas próprias perguntas.
O laboratório de criatividade urbana pode ser visitado na Praça do Carvão, em frente ao MAAT Central, até 4 de janeiro de 2027 – todos os dias, exceto terças-feiras, das 10:00 às 19:00.

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