Um inquérito promovido até Março de 2026 pelo movimento Parar o Hotel no Quartel recolheu opiniões dos cidadãos sobre a transformação prevista do Quartel da Graça em hotel de luxo. Entre os 448 consultados, as prioridades são claras: habitação acessível, regulação da actividade turística e apoio à vida de bairro que ainda resiste.
O estudo traça o perfil de um bairro que clama por espaços de uso comum e medidas urgentes contra a turistificação, incluindo a polémica transformação do antigo quartel (em mais) uma unidade hoteleira de Lisboa.

O inquérito também revela uma certa surdez do poder público em responder ao antigo apelo do Parlamento Europeu para salvaguardar a arquitectura da cidade enquanto organismo vivo “ameaçado”.
Em 1987, um apelo dos eurodeputados Coimbra Martins (PS) e Lucas Pires (CDS) uniu esquerda e direita. Para os signatários, o património edificado não devia ser encarado como um conjunto de prédios antigos, mas como suporte físico de uma cultura e de uma história acuadas por ser um urbanismo sem rosto.
Em 1988, em resposta ao chamado “apelo por Lisboa”, o Parlamento Europeu solicitou à comissão competente a elaboração de um relatório sugerindo medidas para a preservação do centro histórico da capital. Na proposta de resolução, o relator, o eurodeputado britânico Christopher Beazley, reforçou a ideia de que o património da cidade só sobreviveria com residentes e comércio local.
Considerou-se ainda que a riqueza arquitectónica de Lisboa seria inseparável do “factor humano” e que a adesão à CEE devia servir de alavanca para uma reabilitação que fixasse as populações e as actividades económicas pré-existentes.
Havia dinheiro, planos, expectativas. Beazley vira o padrão noutras capitais: bairros históricos reabilitados que se transformaram em “desertos sociais”: fachadas bonitas, despidas de moradores.
O relatório identificou o problema: o congelamento das rendas potenciara a degradação do edificado. A solução passaria pelo robusto investimento público em reabilitação com protecção social obrigatória.
Em Lisboa, como em outras capitais, deixou-se o mercado resolver.
Pouco ou nada a ganhar com o turismo
Quase quatro décadas depois, o relatório europeu de 1988 vai ao encontro do que os 448 lisboetas pedem agora. Exigia que os imóveis reabilitados continuassem a ser habitação para a comunidade local, instruía a Comissão a criar um plano de recuperação que protegesse os residentes e pedia o “apoio sistemático ao comércio de proximidade”.
Tudo isto com o necessário controlo do turismo, que reduz a existência de um bairro a um postal, sem que necessariamente traga vantagens aos negócios locais.
Ana Gama gere com os pais, Manuel e Catarina, um café na fronteira entre a Graça e a Penha de França, onde vive há 40 anos. Ao lado do marido, fala da falta de iniciativas públicas para a terceira idade que convertem negócios como o seu, o Café da Catarina, em “cuidadores informais” dos vizinhos, de importância vital para a comunidade.

Além de ser um negócio, é um ambiente familiar onde as pessoas gostam de vir e se sentem bem. Sentem-nos como família. Somos vizinhos, e todos eles, sobretudo os mais idosos, vêem em nós um apoio”, diz Ana.
Sítios como o Café da Catarina são hoje redutos em que o tempo ainda é medido em conversas e vizinhança. Para Ana, o café que os pais abriram há quase cinco décadas não é apenas um negócio, é uma infraestrutura social crítica, especialmente para a população idosa:
“Hoje em dia anda tudo muito a correr e pronto, e depois vêm aqui, lá está, sentam-se um bocadinho, estão aqui e sentem-se bem. E pronto, e nós fazemos o nosso papel que é dar a atenção devida, que eu acho que todos nós precisamos”, continua.

Aqui, o conceito de lugar ainda resiste, embora sob ameaça: o recente fecho da histórica e centenária pastelaria Ideal da Graça, no Largo da Graça, para dar lugar a apartamentos de luxo assombra os negócios locais.
Ana lamenta que património como o Quartel da Graça e o Convento das Mónicas tenha como destino a indústria hoteleira em vez de dar lugar a jardins ou equipamentos ao serviço da população, e que isso contribua ainda mais para o problema do turismo excessivo, que nem sempre se traduz em bom negócio.
“Vais à Graça, à Senhora do Monte, aquilo é uma coisa que é só tuks. Não consegues quase lá estar… parece que estás no estrangeiro. Nós aqui à volta temos muito alojamento local e raramente eles param aqui. E então não temos muita vantagem com isso”, resume.
Dono de um minimercado no Largo da Graça há 17 anos, o nepalês Mahesh divide-se entre o turismo e o bem-estar dos residentes. Mahesh recorda-se de uma Graça degradada, marcada pela pobreza e pelo consumo de estupefacientes nas imediações do seu negócio.
Para o comerciante, a forte afluência de visitantes trouxe uma nova dinâmica e acabou por funcionar como motor de “limpeza” urbana na Graça.
“As pessoas que moravam aqui, que costumavam usar drogas, não estão mais nesta zona. Os turistas que costumavam vir ver o pôr-do-sol estão perfeitamente seguros, sem ladrões, sem mendigos”, afirma.

O reforço da autoridade é visto por si como um elemento crucial para manter a ordem pública e proteger tanto os comerciantes como os moradores face à imprevisibilidade do fluxo diário de pessoas.
No que toca ao turismo em massa e à expansão hoteleira, simbolizados pela contestada reconversão do antigo quartel do bairro em hotel, Mahesh distancia-se dos protestos mais radicais. Fiel ao seu espírito empreendedor, encara o fenómeno com realismo: “Isto são negócios que geram receitas e impostos cruciais para o Estado.”
O comerciante, contudo, acredita que o progresso económico não pode esmagar a comunidade local. Com uma filosofia assente numa premissa simples de “dar e receber”, Mahesh argumenta que a instalação de projectos turísticos deve trazer contrapartidas tangíveis para os residentes.
Como exemplo, sugere a criação de dísticos ou cartões de identificação que garantam o direito de estacionamento exclusivo aos moradores, mitigando o caos na mobilidade que afecta Lisboa.
Para Mahesh, o turismo é bem-vindo e vital para a economia, mas o seu sucesso futuro dependerá da capacidade de proteger e valorizar as famílias e os residentes que constituem a verdadeira identidade do bairro.
Para que a Graça não se torne um não-lugar
O testemunho de Ana Gama reforça o que o inquérito aos 448 já mostrava: a crise não é apenas sobre onde morar, mas sobre como viver. O Café da Catarina é o exemplo vivo de que a alma de Lisboa ainda existe na rede de afectos dos seus cafés e vizinhos, mas, sem políticas públicas que sirvam a população, este lugar pode ter o mesmo destino que a Ideal da Graça.
O antropólogo francês Marc Augé teorizou a diferença entre lugares e não-lugares. Num lugar há relações, memória, identidade. A praça onde os vizinhos se encontram, o café de que todos conhecem o dono. Precisa de tempo para criar vínculos. Um não-lugar é um espaço de passagem.

Aeroportos, auto-estradas, tuk-tuks são a materialização perfeita desse conceito: entra, consome a vista, sai. Não há permanência. A Graça ainda não é um não-lugar. Mas as políticas públicas das últimas décadas foram desenhadas para a transformar num.
Ao analisar o relatório Beazley, impressiona notar como o documento já identificava a génese dos problemas que hoje afectam a maioria dos moradores do centro da cidade. Embora o contexto económico tenha mudado, as causas estruturais apontadas há quase quarenta anos permanecem actuais.
Em 1988 percebeu-se que, se Lisboa não conseguisse garantir que os bairros históricos continuassem a ser locais de trabalho e habitação para todas as classes, a cidade perderia a alma.
O presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, André Biveti, disse recentemente em entrevista ao Expresso que os turistas entram para “ver um bocadinho a paisagem” sem trazer um impacto positivo à freguesia. Assim como testemunhou Ana, Biveti reforça que os turistas não frequentam o comércio local nem se tentam integrar nas dinâmicas do bairro, chegam apenas para admirar a vista e partem num tuk-tuk.
A Graça tem alma. Sempre teve. Pode ter também políticas públicas à altura. Os 448 que responderam ao inquérito pediram habitação acessível, limites ao turismo e apoio a projectos da comunidade.
O relatorório de 1988 sublinhava a necessidade de um controlo rigoroso do planeamento para “reduzir ao mínimo a especulação”. Temia-se que os imóveis deixassem de ser locais de habitação para todas as classes sociais, transformando-se em meros activos financeiros. Esse receio tornou-se a norma.
Sucessivos governos enfrentaram a mesma escolha fundamental: servir residentes ou servir turismo. Os Vistos Gold, criados em 2012, venderam nacionalidade portuguesa em troca de investimento imobiliário, inflacionando preços.
Dois anos depois, o Alojamento Local foi legalizado, permitindo a conversão maciça de casas em negócio turístico. A Lei Cristas e o NRAU facilitaram o fim das rendas antigas, deixando os inquilinos mais idosos numa posição de vulnerabilidade.
A força da mobilização popular
Existem exemplos de comunidades que conseguiram dizer “Basta!” alto o suficiente para reclamar os bairros à voragem da turistificação e da gentrificação.
Em Barcelona, a paciência esgotou-se e os moradores chegaram a usar bisnagas de água contra turistas para exigir o direito ao descanso. Em Poblenou, foram os vizinhos que fizeram nascer hortas e jardins onde antes havia vazio. Em Vauban, grupos de moradores (os Baugruppen) tornaram-se os seus próprios promotores, construindo sem as margens de lucro pornográficas da especulação.

Estes bairros só deram a volta quando o esforço de quem lá vive encontrou eco nas entidades públicas.
No caso da Graça, durante anos a engrenagem política tem escolhido a ausência, materializada na conversão de património do Estado em hotel de luxo. No esforço conjunto para salvaguardar o quartel do bairro, a comunidade sofreu uma metamorfose invisível: ao proteger o que é de todos, está a resgatar-se a si própria, afirmando-se como força.
Um desses movimentos de resistência é a Assembleia da Graça, que tenta ser um grão de areia a travar as engrenagens do hotel que se pretende construir no antigo quartel.
“A luta popular pode ser uma forma de resgate porque nos permite recuperar aquilo que muitas vezes nos é retirado sem nos darmos conta: a convivência entre vizinhos”, diz Mariana Soares, uma das integrantes da Assembleia.
Também participante da Assembleia da Graça, Hugo Aguiar Cruz afirma que “o papel dos cidadãos está confinado às eleições e ao voto, mas eu penso que a cidadania é muito mais do que isso. É preciso mobilizar a população para uma vivência mais activa e exigente para com os decisores políticos. Somos um povo resignado com o que tem e com as decisões políticas como um dado absoluto em que nada se pode fazer.”
Ainda segundo ele, “independentemente do resultado final”, a “vivência colectiva” já deixou a sua impressão nas novas gerações. É “revitalizante” para os mais velhos saber que inspiraram os mais jovens na luta popular. “Para terem a certeza da força que nós o povo temos quando consciente, organizado e activo”, completa.
Essa é a beleza sem preço do movimento colectivo: o poder político pode ditar o urbanismo, mas a Graça descobriu na luta popular a sua maior graça.
Esta história faz parte do projeto “Vida com Graça: uma redação no bairro”.
Da iniciativa de quatro mulheres nasceu a luta e a esperança de mudar um bocadinho Lisboa. Mais precisamente, o bairro da Graça, que assim como outras zonas históricas da cidade tem sofrido os efeitos da pressão do turismo e da gentrificação. Preservar a memória e a vida em comunidade estão entre os objetivos do projeto capitaneado por elas, o Vida com Graça. A iniciativa faz parte do projeto BIP/ZIP Vida com Graça, dinamizado pela Cooperativa Criar Cidade com o apoio da Mensagem de Lisboa.
As autoras escrevem com o antigo Acordo Ortográfico.

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