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Não sabemos se o arquiteto que desenhou o Bairro do Rego, nas Avenidas Novas, pensou que se plantariam ali árvores destas – há várias décadas associadas à resiliência – como prenúncio do que deveria ser a vida destes novos moradores, muitos deles vindos de velhas barracas na cidade. As Ginkgo Biloba são diferentes na folhagem, recortada e ondulada, com o feitio de um leque, e há muito que se conta como esta espécie de origem chinesa sobreviveu quase miraculosamente à radiação do desastre em Hiroshima, em 1945.

É curioso, por isso, que este grupo de artistas que agor aqui trabalha no bairro tenha como símbolo a folha de uma Ginkgo Biloba.

É como se o Rego se tivesse preparado para os receber – este grupo de atores, engenheiros, arquitetos, carpinteiros, cenógrafos, vindos de várias artes, membros de um movimento que quer revolucionar a cidade, um espaço de cada vez: a Mergulho Urbano.

Estes artistas vieram até aqui a convite do Festival Iminente, que este ano se tornou não só um festival de quatro dias, mas um motor de mudança ao levar a arte a cinco bairros sociais de Lisboa, com 16 workshops – Alta de Lisboa (PER 7 e PER 11), Bairro do Rego, Vale de Alcântara e Vale de Chelas.

Há música, dança, cinema, artes visuais, performance e sensibilização ambiental, nesta iniciativa à qual chamaram Projeto Bairros.

A Mensagem é media-partner do festival Iminente, onde fará jornalismo ao vivo. Nos dias anteriores, serão publicadas cinco reportagens sobre estes workshops, uma por bairro.

Na Mergulho Urbano, a madeirense Ivone, o italiano Michele e os amigos fazem de lugares abandonados e de betão, espaços verdes e comunitários. Sempre com a ajuda de materiais reciclados, em prol da sustentabilidade.

E não é que o pátio comprido do bairro do Rego, por detrás da Associação Passa Sabi, estivesse ao abandono. Estava sobretudo desaproveitado. O sol, quando bate, afugenta as brincadeiras dos mais novos e o convívio dos mais velhos. E o que poderia ser um espaço ativo foi-se transformando em mais um vazio na cidade.

Assim nasceu uma sombra, feita do que um dia alguém deixou de querer – tendas de outros festivais de verão; guarda-sóis que as nortadas derrubaram; a lona do palco principal de uma antiga edição do Festival Iminente; e até os guarda-chuvas que não sobreviveram aos dias de inverno rigorosos. Os arames partem, mas o tecido fica.

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Vídeo: Inês Leote

Lisboa precisava e eles voltaram

Nem Ivone nem Michele nasceram em Lisboa. Ela veio do Jardim da Serra, o topo da montanha da Madeira, para estudar representação nas Caldas da Rainha. Michele, que é engenheiro de energias, carpinteiro e cenógrafo, chegou também para estudar, vindo de Milão, “outra cidade muito pouco verde, se calhar só não tão suja”.

Compara com Lisboa – o ponto do mundo onde acabariam por se encontrar, numa noite de farra, e “nunca mais” se largar. Não discutem a beleza da cidade, mas pareceu-lhes sempre surreal como foi detentora do prémio de Capital Verde da Europa 2020.

“Como assim? Se nem a reciclagem é bem feita.”

Não é que a consciência ecológica fizesse parte da educação de Michele. Veio com a idade e foi impulsionada pela chegada a Lisboa. Viveram os dois juntos em França, em Itália e voltaram à capital portuguesa, para perceberem que não há nenhuma cidade como esta, mas também que havia muito a fazer.

“É uma cidade muito apelativa e, para mim, que nasci no campo e sempre quis viver na cidade, sempre achei que fazia falta um bocadinho de campo e foi esta a minha motivação para vir mudar um bocadinho isto. É que, de todas as cidades que visitei, percebe-se que Lisboa é exatamente a cidade que te permite fazer isto”, conta Ivone. “Se pensas em que cidade consegues criar mundinhos e aldeiazinhas, é Lisboa – esta ideia de pequenas comunidades que fazem a grande cidade. E aldeia a aldeia, podemos, depois, transformar a cidade.”

No bairro do Rego, são muitos os espaços à espera de transformação. Fotos: Inês Leote

Não há realmente aldeias, na cidade de Lisboa. Já houve Vilas, e eram normalmente operárias. Mas há espaços, muitos, e bairros, outros tantos, à espera de serem transformados. Foi por eles que a Mergulho Urbano nasceu, há cerca de três anos. Um projeto de amigos para uma cidade que “ainda não tem um pensamento ecológico” e que queriam que fosse melhor para quem cá habita.

Um espaço abandonado de cada vez

Para alguns, Lisboa é apenas a cidade adotiva. Mas foi por ela que Ivone e Michele largaram a vida em Itália, na altura. “Lisboa é muito suja”, são perentórios. E um tanto vazia em alguns lugares que poderiam ser lugares das pessoas.

Foi assim que decidiram mudar um espaço de cada vez.

“A nossa primeira ideia era recuperar sítios abandonados, que não estivessem a ser utilizados, e transformá-los em pulmões verdes, em jardins, e um espaço com curadoria artística”, lembra Ivone. Mas, como quase tudo na vida, os planos soam sempre menos tortos quando ainda são só isso mesmo, um plano.

O primeiro trabalho foi identificar estes sítios abandonados ou maltratados na cidade, que tinham de ter terra para que houvesse esta transformação. “Mas como é muito difícil invadir um espaço público, sobretudo ainda não sendo nós uma associação conhecida, começámos a contactar associações já criadas e perceber onde poderíamos começar a intervir.”

Foi então que surgiu a primeira intervenção, na Arroz Estúdios. Tinham acabado de mudar-se para um espaço em completo abandono, “cheio de lixo”, e que eles transformaram num jardim e numa pizzaria construída com materiais reciclados.

O mais recente projeto tem uma vista de tirar o fôlego: no jardim do Forte de Santa Apolónia, “que muito poucas pessoas conhecem”. “Vivíamos lá ao lado e só nós e mais duas pessoas é que usufruíam daquilo. Mudámos aquilo para um jardim agradável e os vizinhos agradeceram, porque disseram que, em 40 anos ali a viver, nada tinha acontecido, ninguém tinha feito nada.”

Lá, imprimiram em madeira uma grande folha de Ginkgo.

Tudo isto acontece com uma grande dose de missão, porque o trabalho é totalmente voluntário – a par com uma rede de parceiros logísticos e fornecedores de materiais. E porque não querem ser heróis solitários, estão à procura de um lugar na cidade onde possam abrir uma oficina, através da qual ajudem outros cidadãos a reutilizar velhos materiais.

“Claro que as políticas de transformação têm de vir lá de cima, do poder, mas nós também temos a capacidade de mostrar como eles podem funcionar numa pequena escala. O nosso pensamento foi: como habitantes da cidade, com experiências diferentes (arquitetos, engenheiros, atores, carpinteiros), podemos melhorar a cidade.”

E já está a acontecer.

O novo pátio do Rego

Depois de uma pizzaria e uns tantos jardins, chegaram agora ao pátio do Rego para lhe dar uma nova vida. Mas não fizeram a mudança sozinhos: tinham jovens do bairro para ajudar.

“Se forem eles a fazer, haverá também uma maior vontade de estimar”, diz Ivone, que aposta na participação ativa.

“O Iminente foi muito claro em dizer que não era para virmos aqui fazer um trabalho, mas virmos trabalhar com a comunidade, perceber as necessidades deles e como podemos ajudar.” Então, chegaram a estas duas soluções: além de uma sombra, para que mais nenhuma brincadeira fosse interrompida pelo sol, quente e persistente durante a tarde, também uma mesa de ténis.

E porque se quer uma cidade mais verde, este toldo foi recortado e depois cozido a partir de restos vindos dos festivais, como a lona de uma edição antiga do Festival Iminente, tendas encontradas no lixo, guarda-chuvas, cortinas de banho, e guarda-sóis. Coisas que tomamos logo como perdidas quando quebram um arame ou rasgam uma ponta.

A engenharia de Michele, tal como se previa, fez mesmo falta: com giz rosa, esquadro e material de costura, lá desenharam, com vários jovens do bairro, um grande hexágono que ficaria por cima das suas cabeças – e que vai estar exposta no Iminente.

Este toldo estará em exposição no festival Iminente. Foto: Inês Leote

Já a mesa de ténis foi pensada como um lugar de cruzamento de gerações.

“É um desporto em que consegues integrar toda a gente, ter uma criança de seis anos a jogar com um senhor de 60 anos.” Só teriam de arranjar maneira de ser tudo reciclado: uma pedra de mármore feita com retalhos da pedreira e uma rede nunca fixa – como lembra o engenheiro, “sem ela acaba por ser apenas uma mesa de convívio”.

O Iminente decorre entre os dias 22 e 25 de setembro, na Matinha, em Marvila. Veja aqui o programa dos quatro dias


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Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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