Agora, que chegou o Verão e tantos alfacinhas deixam Lisboa rumo a outras paragens, é a vez de a capital portuguesa receber os visitantes estrangeiros (e também os portugueses de outras paragens).
Muitos deles percorrem a cidade em autocarros vermelhos de dois andares, com um guia que nunca lhes aparece à frente para responder às suas muitas perguntas, falando-lhes unicamente pelos auscultadores. Outros, em grupos menores, metem-se num tuk-tuk com um condutor mais próximo e comunicativo, com quem trocam conversa e tiram dúvidas, ficando a saber um pouco mais.
Há, porém, quem fuja decididamente dos roteiros turísticos – que não costumam ir muito além dos monumentos óbvios e da zona ribeirinha, mostrando, no máximo, o que se fez em termos urbanos na Lisboa Oriental – e queira uma viagem diferente, norteada por interesses pessoais.
É o que acontece com os verdadeiros apreciadores de fado, que não se querem ficar pelo programa que o hotel, regra geral, lhes propõe: o de passarem uma noite numa casa de fados típica (e o “típico” já significa normalmente de qualidade discutível) com jantar incluído e quase sempre caro.
Vá lá que o Turismo de Portugal não esquece esses amantes do fado e propõe no seu site uma rota que inclui meia dúzia de bons estabelecimentos, e também uma breve história do fado, um glossário (onde não faltam termos como “marialva”, “desgarrada” ou “castiço”) e até uma lista de figuras fundamentais (intérpretes, músicos e letristas) que contribuíram para que o fado chegasse aonde chegou – e da qual ressaltam, claro, os nomes de Amália, Marceneiro, Alain Oulman, Carlos do Carmo, Ary dos Santos, Ana Moura ou Camané.
Mas qualquer apreciador de fado digno desse nome tem todas as possibilidades de construir o seu próprio trajecto, percorrendo, de preferência a pé, os bairros emblemáticos da canção de Lisboa: visitar a Madragoa, deambular por Alfama, subir ao Bairro Alto, descer à Mouraria, e só por aí apanhar o cenário e a paisagem de tantos fados que já escutou: a roupa estendida nas varandas, as vielas estreitinhas, os santos à janela, os xailes enfeitando as vitrinas…
Se lhe agradarem os locais e as ruas coloridas, pode então sentar-se numa tasca e provar as sardinhas ou o chouriço assado, além de, pelo caminho, ir parando diante das portas abertas a auscultar as vozes que ora convidam a entrar… ora a passar adiante.
Mas também pode optar por um percurso desenhado pelas biografias dos seus intérpretes favoritos, correndo à Bica de Carlos do Carmo, à Igreja de Santo Estêvão de Fernando Maurício, à Casa de Amália em São Bento, ao bairro de Campo d’Ourique onde Alfredo Duarte trabalhou como marceneiro, ao Parque Mayer onde Hermínia Silva cantou, muito jovem, no Valente das Farturas, ou mesmo à Rua de Santa Catarina, onde hoje a casa de Mísia é uma residência de criação artística.
Por fim, para os que não possam caminhar tantas horas, há, no Largo do Chafariz de Dentro, o fantástico Museu do Fado, que sintetiza toda a informação essencial sobre a canção portuguesa e os seus protagonistas, providencia cursos, seminários e oficinas e inclui programas de todo o tipo, logo a partir dos três anos.
Cada um pode criar um itinerário à sua medida.

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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