Foto: Líbia Florentino

À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Cravos, a bandeira da Palestina e dos direitos LGBTQIA+, cartazes, livros, plantas, um mapa-mundo a encher-se de pins e a libertar-se de fronteiras, cores fortes, borboletas, as palavras paz, pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver, canta o Sérgio Godinho e o Casulo é isso, um espaço-manifesto que não se fica pelas palavras.

Rita Bourbon, 28 anos, formada em Design e apaixonada pela educação através das artes e pela mediação cultural, cresceu nas Avenidas Novas. Rafael Matos, 30, professor de português, vem da Margem Sul. Encontraram-se em Lisboa, entre Arroios e Santa Maria Maior, territórios que fizeram seus (vivem na Mouraria) e que há pouco mais de um ano decidiram trazer para Alvalade, cumprindo um sonho que Rita tinha desde miúda: criar um espaço onde toda a gente, de todas as idades, de todos os contextos, se sentisse bem-vinda.

“Sempre me chamaram naïf por acreditar que pudesse ser possível criar algo assim”, diz Rita, que continuou a acreditar e tornou possível. “Percebi que não só é possível como, acima de tudo, é necessário.”

Em conversas com amigos, foi descobrindo talentos e vontades à procura de chão: havia quem quisesse dar aulas de português a estrangeiros, ensinar tapeçaria ou desenhar em conjunto, havia quem quisesse fazer um clube de leitura, havia artistas sem lugar para se apresentar ou expor. “Havia muitas vontades e poucos espaços disponíveis.”

À sexta-feira, é dia de Almoço com Clarice, no Casulo. O prato do dia é sempre vegan. Rafael, o professor das aulas de Português para Estrangeiros, faz turno quando é preciso. Foto: Líbia Florentino

Rita andou à procura do lugar certo. Foi de passa-palavra em passa-palavra que chegou à Rua Moura Girão, uma rua escondida de Alvalade que não conhecia. “Foi um bocado tiro no escuro, mas nós agarrámos. Não pensei duas vezes. Usei as poupanças de uma vida. Não sobrou nada.”

A associação formalizou-se com nove membros fundadores. O primeiro foi Rafael, o namorado, apoiante “desde a primeira conversa de café”. “A ideia foi da Rita, ela já queria fazer isto há muitos anos. No princípio, éramos só dois, depois éramos nove e depois as pessoas começaram a trazer coisas e a ajudar a montar o Casulo”, conta Rafael.

Laura Ribeiro foi das primeiras frequentadoras do Casulo. Hoje, é sócia e parte da equipa. Foto: CP

As mesas e as cadeiras vieram de um café que fechou, o frigorífico (entretanto trocado) e o congelador vieram de amigos, as loiças e os utensílios de cozinha foram chegando – e continuam a chegar. Um móvel azul, o orgulho da sala, foi encontrado no lixo e recuperado.

O Casulo é um organismo vivo: há pessoas que o fundaram e hoje nem sequer vivem em Lisboa, e há quem tenha aparecido depois e faça agora parte da casa, como Laura Ribeiro, 36 anos, brasileira, moradora em Alvalade, que chegou como frequentadora – viu uma publicação no Instagram, apareceu, ficou amiga de Rita – e acabou a colaborar com a associação. Vinha de um trabalho que a deixava infeliz e encontrou aqui acolhimento. Formada em Direito no Brasil, nunca exerceu. Hoje, divide turnos, rega as plantas, gere o stock e as compras, dá ideias e sente-se parte deste lugar para onde vem “trabalhar feliz”.

“O espaço vai-se compondo exatamente porque as pessoas vão aparecendo e vão contribuindo com o seu tempo, com as suas manualidades, com o que seja”, resume Rita, presidente da associação, mas avessa a tudo o que seja formalidades e hierarquias. “Fui só a pessoa que deu o primeiro passo. Depois, as coisas aconteceram porque as pessoas se juntaram.”

Um ano depois, continuam a juntar-se.

O efeito borboleta

“Já são mais de 600 sócies”, garante Laura, que fez um balanço recentemente. À sexta-feira, é dia de “Almoço com Clarice”, no Casulo. O prato do dia é sempre vegan, custa cinco euros e meio e vem bem servido, coisa cada vez mais rara em Lisboa. Há quem venha todas as semanas: a vizinha que trabalha em casa e desce para comprar o almoço, o casal que já não dispensa o ritual, os que trabalham na escola ao lado ou no lar em frente.

Foto: Líbia Florentino

Há quem venha só beber um café, uma água, ler um livro na esplanada. “Se quiseres, podes ficar aqui a tarde toda”, diz Rita. “Há livros para todas as idades, cá em cima e lá em baixo, temos um espaço para crianças, podes usar a internet, podes ficar o dia todo. Não é obrigatório consumir.” Essa é uma das regras de uma casa que não gosta de regras.

O Casulo é “pet-friendly”. Foto: Casulo

Há um jarro de água à disposição, água para os cães (o espaço é pet-friendly), uma ludoteca com livros, jogos e brinquedos, uma máquina de costura que ainda procura o seu canto, mas já está disponível para quem precisar. “Claro que, consumindo, está ajudando o espaço a manter-se, mas não vamos obrigar ninguém a consumir para usar o banheiro ou sentar a ler um livro”, diz Laura.

“É muito legal, porque as pessoas vão criando uma relação de confiança”, diz, contando de um senhor que perdeu a chave na mata de Alvalade e deixou os dois cães entregues ao Casulo enquanto foi procurá-la, ou de uma mãe que perguntou se podia deixar ali o filho enquanto ia buscar o outro à creche. “Claro que pôde deixar. Todo o mundo que chega, eu faço propaganda: isto aqui é um espaço-casa. Sinta-se à vontade e cuide do espaço como da sua casa.”

Um espaço que está sempre aberto, mesmo quando não está

Durante a semana, há os clubes de crochê, de costura e de leitura, as aulas de línguas – Árabe e Português para Estrangeiros –, o Grupo Terapêutico, o Maternar, grupo de partilha quinzenal que junta recém-mães para viverem em comunidade a experiência da maternidade, os ensaios do Teatro da Liberdade ou do Coro Cantando o Mundo (mensais), ou a Horta Comunitária, todos os domingos no Jardim e Parque Hortícola Aquilino Ribeiro Machado, na avenida do Brasil. De vez em quando, também há feiras de trocas ou de artes.

De quinta a sábado, quando o espaço abre ao público, além de almoçar, beber um café, ler um livro ou simplesmente estar, a programação pode incluir sessões de cinema, no piso de baixo – “já juntámos lá vinte e tal pessoas, o que é um milagre, porque o espaço é pequeno”, diz Rafael, de “Karaoke e Panquecas”, de “Ink and Jam” (tatuagens e música), noites de jogos de tabuleiro ou de quiz, que é sucesso garantido, concertos ou encontros de speedfriending, experiência que, no fundo, tem como objetivo criar ligações, laços, comunidade.

É pelas atividades que a maioria chega. “As pessoas ainda não têm no mapa vir aqui beber um copo”, reconhece Rita. “Vêm sobretudo pelos eventos ou pelas atividades”. O clube de crochê tem um grupo fiel, o clube de leitura em espanhol é muito participado, o de leitura em português não correu tão bem. “É uma luta constante, tentar perceber o que resulta e o que não resulta”, admite Rafael. “As atividades só subsistem se as pessoas aderirem.”

Mas às vezes uma atividade abre a porta a tudo o resto. Numa projeção de um filme sobre Moçambique, seguida de conversa, “veio um grupo super diverso, pessoas mais velhas, mais novas, umas moradoras aqui, outras não”. No primeiro speedfriending, desconhecidos ficaram até tarde, a conversar, copo na mão, muito depois de o evento acabar. E foi numa apresentação da SOS Racismo que apareceu a Célia, vizinha que hoje também colabora com o espaço. «Ela dizia: isto existe? Vivo aqui ao lado e não sabia. Finalmente não preciso de emigrar para outros sítios», lembra Rita.

Alvalade alternativo

Esses “outros sítios” ficam sobretudo em Arroios, nos bairros onde as associações culturais se concentram. “Olhamos para Arroios como um modelo, sim”, diz Rafael. “São os espaços que nós frequentamos.”

O Casulo trouxe essa Lisboa para uma freguesia onde ela não existia – e continua a aprender a chegar-lhe. “Ainda nos estamos a integrar no bairro. Estamos nesse processo de descobrir como chegamos a todas as pessoas.”

Foto: Líbia Florentino

O caminho faz-se pelas relações que se vão criando, mas também pelas redes sociais. “Custa-me um bocado dizer isto, mas sem o Instagram seria muito difícil chegar a tanta gente”, confessa Rafael. Para quem não tem redes sociais, criou-se um grupo de WhatsApp através do qual a agenda semanal é enviada a quem quiser recebê-la.

Antes da inauguração do Casulo, Rita foi à Junta de Freguesia de Alvalade, que fica a poucas centenas de metros, para apresentar o projeto e criar parcerias. Não teve o acolhimento que esperava. “Acho que não me levaram muito a sério”, diz. Não desmotivou. “Vamos continuar a fazer coisas e esperamos que a certa altura o nosso trabalho seja reconhecido e as parcerias apareçam, porque há imenso potencial.”

Os jantares comunitários, que aconteceram até há pouco tempo, uma vez por mês, refletem bem o espírito da casa: cada pessoa trazia um prato, geralmente do seu país, as mesas dispunham-se para que ninguém ficasse sozinho, jogava-se um icebreaker e, a certa altura, já ninguém precisava de mediação.

Ao primeiro vieram seis pessoas. “Ficámos: será que isto funciona? Mas foi tão bonito, do nada estavam a partilhar coisas super profundas”, lembra Rita. Como a rapariga italiana que fez uma massa com batata e quase se emocionou: não cozinhava aquela receita desde que saíra de casa, e prepará-la ali, para desconhecidos, na cidade onde agora vive, devolveu-lhe a família à mesa. “Sentarmo-nos à mesa e partilhar sabores e experiências é muito poderoso”, considera a fundadora do Casulo e impulsionadora destes jantares, que financeiramente se revelaram um desastre.

“Sempre me chamaram naïf por acreditar que podia criar algo como o Casulo”, diz Rita. “Percebi que não só é possível como, acima de tudo, é necessário.” Foto: Casulo

Entrada gratuita. «É generoso demais», ri-se Laura, para quem aquela comunidade de idades e nacionalidades diferentes foi «tipo, uau». Rita encolhe os ombros: «A maioria das coisas que fazemos aqui são péssima ideia do ponto de vista financeiro, mas está-se bem. Não estamos aqui para ganhar dinheiro”.

“Não tinha noção até ter noção”

“Fizemos um intervalo nos jantares comunitários, mas havemos de retomar», garante Rafael, que explica que o caminho tem sido percorrido muito por tentativa e erro, com a finalidade de ir ao encontro da comunidade.

Foto: Líbia Florentino

No início, o espaço abria todos os dias – “foi um tiro no pé”, diz Rita, que chegava a fazer turnos de 12 horas sem que as receitas chegassem para lhe pagar um ordenado. Agora, tem atividades todos os dias, mas só abre de quinta a sábado, único período em que é necessário quem assegure os turnos.

Rita, que começou há uns meses a trabalhar na Renovar a Mouraria, com crianças e jovens, continua a garantir, de forma voluntária, a gestão das redes, da agenda e da programação.

Foto: Líbia Florentino

“A Rita agora não está tão presente fisicamente, mas continua a ser ela a ‘manda-chuva’”, ri Laura, explicando que a expressão se aplica aqui não no sentido de mandar, mas de nutrir e cuidar. É isso que se espera de todos os que participam no espaço. Ser sócio do Casulo custa três euros por ano, “um valor irrisório” que já mais de 600 pessoas assumiram.

Há atividades pagas, por um valor simbólico, partilhado entre o Casulo e o artista, formador ou organizador, e outras gratuitas. A maior fatia das receitas reverte para a renda, as contas, a licença de esplanada e o que é preciso para desenvolver as atividades. “Eu não tinha noção até ter noção”, ri-se Rita. “Às vezes é tirar daqui para pôr ali.” O balanço é feito por Rafael: “Conseguimos manter o espaço, não temos dívidas, essa é a pedra basilar.”

Open call permanente

Antes do Casulo, havia ali uma tasca. “Muitas pessoas que vêm cá, dizem-nos que o ambiente não era dos melhores, havia quem evitasse esta rua, e acham que agora está lindo e que vão voltar”, conta Rita.

Mas nem toda a gente ficou contente com a metamorfose. De vez em quando, aparece alguém com discurso de extrema-direita ou a reclamar com a bandeira da Palestina pendurada. “É uma minoria”, diz Rita, sem dramatizar. “Aqui pode entrar toda a gente, desde que respeite as pessoas que aqui estão. Se não respeitar, tchau. Não há lugar para isso.”

O Casulo assume-se contra o racismo, o fascismo, a homofobia, a transfobia, a xenofobia, a guerra, as desigualdades. Na verdade, tudo o que está na Constituição da República Portuguesa, que fez este ano 50 anos. É a brasileira Laura que sintetiza: “Independente de idade, género, religião, a única coisa que a gente não tolera é a exclusão e a intolerância”.

O futuro é uma open call permanente: quem tiver uma proposta – um workshop, um concerto, uma exposição –, que a traga, “vamos ver o que faz sentido”. A 12 de setembro, há festa do 1º aniversário, que a equipa já está a preparar. Antes, daqui a pouco, juntar-se-ão aqui várias pessoas para mais um evento de speedfriending, que também é uma bela metáfora do Casulo: eram dois, depois eram nove, agora são muitos, que numa rua escondida de Alvalade teceram uma casa onde cabe toda a gente.

Mas que precisam de apoio para que continue a caber.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 52 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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