E não é que Lisboa aprendeu a sambar? Quem diria que entre os tantos efeitos colaterais de anos de  imigração em massa brasileira estaria o remédio para a atávica cintura dura dos lisboetas? Não foi ninguém que me disse, eu mesmo vi com os meus olhos, o gajo fazendo jogo de ombros, dedinhos para o céu, a rapariga deslizando os pezinhos, requebrando o quadril. 

Vi no Samba da Gira no 8 de Marvila, vi no Viva o Samba no Lat.a, vi no Samba dos Democratas no Bartô e em outras sambas do bem por essa Lisboa. 

O tratamento do pé-de-chumbo lisboeta foi lento, como pedem as situações mais delicadas, em doses semanais de rodas de samba. No início, em círculos pequenos para não chamar atenção, quase como numa seita secreta, o samba ecoando na penumbra de uma antiga cave, o pandeiro, o cavaquinho e o surdo abafados pelas grossas paredes.

Hoje, não, o samba partiu as correntes e liberou geral. Não há um santo dia em que não se ouça em Lisboa a obstinação de funcionário do mês do reco-reco, a risada contagiante da cuíca, o piar de um exótico pássaro amazônico de um agogô. Para onde se vire, há um grupo de pessoas em volta de uma roda de samba e, entre eles, dezenas de lisboetas felizes.

Lisboetas felizes e sadios, pois como teorizou o maior epicurista brasileiro, Dorival Caymmi, quem não gosta de samba, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé

Falo dos lisboetas, embora suspeite que o samba se alastrou como uma pandemia rítmica pelo país e já se sambe como se não houvesse amanhã também em outros enclaves brasileiros, como no Porto e em Braga, e ainda para trás de Trás-os-Montes, para além do Alentejo e nos tépidos fins-de-tarde de verão do Algarve. 

Não é que o lisboeta tenha desistido do fado. Atenção, isso nunca! O fado segue firme, só que homeopaticamente usado para outros fins terapêuticos, no tratamento da melancolia, nostalgia e depressão, por exemplo. O samba chegou em Lisboa como aquele reforço de meio de época do seu clube, para somar ao grupo e resolver outros dilemas existenciais táticos. 

É por isso, lisboeta, que se algum amigo seu fadista inveterado criticar o interesse por outro ritmo, não se avexe e recorra a voz de veludo de Alcione em Depois do Prazer e saque da algibeira um Estou fazendo amor com outra pessoa, mas meu coração vai ser para sempre seu, pois posso gostar de alguém mas é você que eu amo

É tiro e queda. 

Afinal, o samba é feito chá de boldo: serve para tudo. 

Para quem ainda não se deu conta, o repertório sambista reúne toda a sabedoria e ensinamento ancestral de um torá, um corão e até da bíblia, pois quem nunca sentiu o frêmito do espírito nada santo baixar no corpo nos primeiros acordes de um violão de sete cordas bem afinado, que atire a primeira pedra.

O samba é ainda literatura universal, Shakespeare no tamborim. Há tanto amor em Jorge Aragão a cantar Ontem demorei para dormir, estava assim, sei lá, meio passional por dentro do que em Romeu e Julieta. Já o Ó insensato destino!, para quê tanta desilusão no meu viver de Almir Guineto é o trágico ser ou não ser shakespeariano de fundo de quintal. 

Sem falar na filosofia que o samba carrega. O que dizer do hedonismo-marxista de Zeca Pagodinho em se eu quiser fumar eu fumo, seu eu quiser beber eu bebo, pago tudo que eu consumo com o suor do meu emprego, arrematando com a reflexão schopenhaueriana de que não há nada pior do que gente que vive chorando de barriga cheia?

O pensamento zeca-pagodiano é um exemplo didático de como o samba abraça várias correntes filosóficas. Há mais estoicismo em Deixa a vida me levar do que nas Meditações de Marco Aurélio e conselhos práticos para a vida em Vacilação do que em toda a obra de Augusto Cury. Pois o samba é assim, se não auto-ajuda, pelo menos não auto-atrapalha.

O lisboeta percebeu isso, que o samba é resistência, pois não se samba de cabeça baixa. E do jeito que Lisboa anda, menos Lisboa do que nunca, sambar é marcar uma posição, é evocar a memória e a luta dos negros escravizados e a proteção dos orixás contra a opressão dos neocolonizadores, exploradores da força de trabalho, das riquezas naturais e da especulação imobiliária.

O lisboeta, portanto, só tem a ganhar em cair no samba. É o bom no bom, irmão, vai fundo.

Outros ritmos podem até tentar, mas nunca conseguirão calçar as chuteiras do samba em dois dos maiores conflitos da humanidade: o coração partido e a dor de corno. E se os dois dramas vierem embutidos no mesmo combo sentimental, então, só o mesmo o samba para desativar essa bomba atômica existencial.

A princípio, o ba-tim-bum poético pode evitar o pior, que o urânio enriquecido do ciúme detone o desinteresse da alma-gêmea e o amor evapore numa nuvem atômica. Muito por culpa sua, afinal, não é por estar na sua presença, meu prezado rapaz, mas você às vezes vai mal demais. 

E o mestre dos mestres Chico Buarque já ensinou: se é para ficar enrustido, com essa cara de marido, a menina é capaz de se aborrecer. E aí, meu querido, por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz e atrás dessa mulher, mil homens sempre tão gentis.

Pode apostar que há. 

E atenção: o conselho vale para ele, vale para ela. 

A solução para a encruzilhada sentimental pode estar na humildade franciscana proposta pelo  Raça Negra de chegar para a cara-metade, abrir o jogo na grande e pedir então me ajude a segurar essa barra que é gostar de você. E não se esqueça do digui-digui-iê, pois faz toda a diferença. 

Mas se já é tarde para atirar colete salva-vidas cardíaco, o rio por onde navega o divino timoneiro Paulinho da Viola já passou pela vida do mozinho ou mozinha e o coração com mania de amor se deixou levar, só resta ouvir o eterno Tom Zé e aceitar que dói menos, não vai ter beijo final nem happy end

A boa notícia é que o samba guarda rancor, não tem isso de dar a outra face, de perdoar. É olho por olho, dente por dente e chifre por chifre. Pois a roda um dia vai girar e um dia a vingança vai ser servida a frio. Pode perguntar a diva Beth Carvalho, se é bom ou não é festejar o sofrer, o penar de quem pagou com traição a quem sempre deu a mão

Feita às pazes com o peito, bola pra frente na companhia do sambista de tirar o chapéu Cartola. O bruxo do samba leu na palma da mão da vida que finda a tempestade, o sol nascerá e haverá de se ter um outro alguém para amar. E, vamos combinar, é sempre melhor levar a vida a sorrir.

Por tudo isso, meu caro, minha cara lisboeta, pode ter demorado, mas o samba acabou por chegar devagar-devagarinho em Lisboa, repetindo o convite do Martinho da Vila, canta, canta, minha gente

Minha gente de Lisboa. 


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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