Veneziana
eresa, João, Clara e Angelo, a família Sala de regresso aos gelados na Veneziana dos Restauradores. Foto: Rita Ansone.

Julho chegou, com o verão já alto e uma uma deliciosa boa nova para Lisboa. No coração da Baixa lisboeta, nos Restauradores, a primeira geladaria da capital, A Veneziana, fundada em 1933, reabre as portas após, literalmente, um longo inverno, para alegria dos clientes de longa data, mas também de uma família cuja história se mistura-se com Lisboa e a arte dos gelados.

Desde dezembro, o pequeno espaço no número 8 na Praça dos Restauradores, ao pé do secular Hotel Avenida Palace, uma das lojas com história de Lisboa, permanecia fechado, para a tristeza e preocupação dos clientes.

A morte do antigo proprietário, Fulvio de Luca, neto do imigrante italiano Giovanni de Luca, um dos fundadores d’A Veneziana, instalou um ponto de interrogação no futuro da geladaria. 

Gelateria A Veneziana Restauradores
Foto: Rita Ansone.

As brumas da incerteza foram afastadas pela chegada do verão lisboeta, quando Angelo Sala, neto do segundo fundador da geladaria, o também italiano Arcangelo Sala, decidiu aceitar o convite da irmã de Fulvio e agora única herdeira de Giovanni, para manter viva a história d’A Veneziana.  Ao lado de Angelo, a mulher Teresa e os filhos João e Clara, a famiglia Sala de novo nos Restauradores.

Gelados vendidos em gôndolas sobre rodas

Este é um capítulo que começou a ser escrito em 1933, quando Arcangelo Sala e os sobrinhos Luigi Sala e Giovanni de Luca deixaram a remota Borca di Cadore, na região do Veneto, nos alpes italianos, vizinho à badalada estância de esqui de Cortina D’Ampezzo, com destino a Lisboa. 

Eram tempos difíceis, de instabilidade política e crise económica após a chegada de Mussolini ao poder. Um cenário que que anos depois culminaria com a ascensão do fascismo e adesão da Itália ao eixo capitaneado pelos nazistas.

A aventura até Lisboa prometia ser desafiadora, mas o trio de italianos traziam na bagagem no porão de um navio uma arma diferente: uma receita de gelados e os instrumentos para a pôr em prática.

“O meu avô e os dois sobrinhos prepararam-se para a viagem, fizeram cursos com os afamados gelatiere da região de Cadore, conhecida pela produção de gelados. Embarcaram em Génova e trouxeram a fábrica no porão e, na bagagem,  as receitas de um dos melhores gelados do mundo à època”, conta Angelo.

Aos 65 anos, os olhos azuis de Angelo brilham de orgulho e nostalgia ao repetir uma história que os filhos João e Clara, já ouviram centenas de vezes à mesa nas refeições em família. 

Apesar de a placa na porta de entrada da geladaria ostentar um “desde 1933”, os dois primeiros anos de atividade do trio de gelatieri italiano foram vividos num engenhoso sistema de vendas volante em gôndolas pelas ruas de Lisboa, a partir da fábrica instalada num prédio na Avenida de Berna, nas proximidades da Avenida da República.

Angelo aponta o dedo para as fotografias em preto e branco emolduradas na parede d’A Veneziana, onde se vê as bicicletas adaptadas em forma de gôndolas, uma referência ao peculiar transporte dos canais de Veneza, a vizinha mais famosa da região do Vêneto.

A bordo das gôndolas sobre rodas o gelado passou a circular pelas ruas de Lisboa. 

Angelo Sala começou a trabalhar na antiga fábrica d’A Veneziana, na Avenida de Berna, aos 14 anos. Foto: Rita Ansone.

Em rigor, a primeira morada da geladaria A Veneziana foi na Avenida de Berna. “Era a fábrica, mas estava aberta ao público e as pessoas iam lá para comprar o gelado”, conta Angelo. O bom acolhimento dos lisboetas e a fama crescente foram responsáveis pelo passo seguinte, a abertura na Praça dos Restauradores, em 1935.

Na fotografia ao lado das inusitadas gôndolas-bicicletas, Angelo aponta para um sorridente Arcangelo, cujo filho Aristide seguiria com o negócio nos anos posteriores, depois continuado pelos filhos do sobrinho e sócio Giovanni, Bortolo e o já citado Fulvio.

Arcanjo, um dos fundadores do negócio familiar que tornou a história de Lisboa mais deliciosa. Foto: Rita Ansone.

A árvore genealógica dos gelatieri italianos em Lisboa daria novos frutos. Em 2014, escudado pela experiência de quem começou aos 14 anos na fábrica na Avenida de Berna, Angelo abriria a geladaria La Fabbrica, no Arco do Cego, produzindo gelados a partir de uma raridade: a receita manuscrita num papel já amarelada, trazida da Itália por Arcangelo.

“Guardo a receita original e secreta de gelados do meu avô Arcangelo muito bem guardada comigo, escrita num papel já gasto, com a cor de café fraquinho”, conta Angelo.

Para se ter uma ideia, o segredo é tão bem guardado que os filhos só souberam da relíquia durante a entrevista.

Os gelados produzidos na Fabbrica acabariam por ser os mesmos servidos n’A Veneziana, após o fecho definitivo da antiga fábrica na Avenida de Berna, após o fecho definitivo em 1996. 

A nova geração dos Sala a serviço da história

De avental azul, João e Clara Sala preparam-se para dar seguimento à tradição. Os filhos de Angelo, respectivamente com 29 e 27 anos, contam com a experiência do pai na produção dos gelados na Fabbrica, embora o experiente gelateiro anuncie o paulatino retirar de cena. 

Os dois irmão não escondem o friozinho na barriga com a estreia à frente de um negócio com quase cem anos de história. João e Clara sabem da importância na missão de manter viva a fama da primeira geladaria de Lisboa, mas não fogem do desafio.

“O maior dos desafios é continuar com o apreço dos clientes antigos”, resume João.

Um apreço que se mede pelo interesse dos lisboetas. Durante a entrevista para a Mensagem, dois dias antes da geladaria reabrir, por inúmeras vezes João foi interrompido para ter de avisar aos clientes à porta que ainda não havia chegado a hora de voltar a apreciar o famoso gelado  d’A Veneziana.

É de João a responsabilidade de produzir a matéria-prima de uma das joias da casa, o gelado de amêndoa, a partir de amêndoas delicadamente torradas nos robustos tachos de cobre originais dos tempos de Arcangelo, forjados em Lisboa pelas mãos do italiano Biaggio Conte, responsável por abastecer as cozinhas das melhores geladarias da época. 

Por trás da juventude de Clara, a mais nova dos Sala, esconde-se uma verdadeira mestra na arte dos gelados. As queimaduras nas mãos não a deixam mentir, fruto do trabalho genuinamente fabril de transformar leite, ovos e açúcar em gelado que, da primeira mexida nos ingredientes à bolinha no cone, leva no mínimo cinco horas. 

“Ela domina todo o processo”, reforça, orgulhosa, a mãe Teresa Sala, responsável pela parte menos saborosa de qualquer  empreendimento, a gestão financeira e as questões burocráticas.

Juntos, a famiglia Sala une os esforços para que A Veneziana siga uma referência não apenas para os milhares de turistas que circulam pela Baixa, mas que continue a atrair o público tradicional de lisboetas de todas as partes do mundo.

Para isso, a receita é clara: apostar na tradição, desde o mobiliário original da esplanada, uma das primeiras a funcionar em Lisboa, até o modo de preparo dos gelados escrito à mão pelo patriarca Arcangelo.

Essa receita, porém, segue secreta, guardada a sete chaves por Angelo, como deve ser.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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1 Comment

  1. Que boa notícia! Sentia um enorme aperto quando ali passava e via a gelataria fechada. Ia constantemente à porta ver se existia algum aviso de encerramento e claro que pensei que fosse um pouco mais da nossa Lisboa autêntica a desaparecer.
    A Veneziana faz parte da minha memória, do tempo em que trabalhei na Virgin Megastore, o almoço acontecia no Café Pirata, sendo a sobremesa sempre um delicioso gelado da Veneziana.

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