Crónica escrita em 2022, na visita ao Bairro de Talude com a Culinary Backstreets e a Associação para a Mudança e Representação Cultural.

Já tinha ouvido esta história, mas há uns dias o meu companheiro repetiu-a: há uns anos, num processo de realojamento de um bairro de lata dos subúrbios de Lisboa, a chegada das famílias às habitações sociais foi feita sem apoio. Ninguém lhes mostrou a casa, moveram-nas como peões no tabuleiro, em condições “desumanas” – sem água, luz, saneamento. Estas famílias nunca tinham tido uma banheira e, perante este pedaço de cerâmica, optaram por plantar uma horta caseira.

Foi graças à Culinary Backstreets que viajei vinte minutos até ao Talude, um bairro em Loures, arredores de Lisboa. Provei kuskus, um bolo matinal de farinha de milho com mandioca, cozinhado ao vapor num vaso de barro furado, e bebi leite morno com kamoka – farinha de milho tostada.

Partimos para as hortas, onde dissemos “bom dia, bom dia”; a Emília mostrou-nos o feijão congo, “que não é costume juntar à Katchupa, porque é muito forte”. Em cada talhão, centenas de garrafões de água empilhados mostram que aqui não há rega, e por isso não foi uma surpresa ver os jovens mais entroncados a carregá-los cheios pelo bairro para matar a sede ao terreno.

A visita teve uma primeira paragem na destilaria do Cecílio.

Há seis destas – disse-nos, Rolando Borges, na altura representante da AMRT (Associação para a Mudança e Representação Cultural) –, seis pequenas casas/fábrica onde as canas de açúcar empilhadas esperam a sua vez para entraram nas roldanas que as estilhaçam e lhes espremem o suco, doce e vegetal, que depois de destilado no alambique aquecido a lenha se transforma no grogue, uma bebida tradicional de Cabo Verde, com produção na ilha há mais de 300 anos.

De peito aquecido com a mistura do suco da cana e do grogue, o cocktail que envergonha a gentrificação, juntámo-nos aos vizinhos, num pátio de portões pintados a vermelho e azul.

As tias de bata usam pedras sobre brasas para pousar os tachos carbonizados, e uma de cada lado seguram as pegas com folhas de couve lombarda para proteger os dedos das queimaduras. A katchupa está pronta e vai em braços até à associação, onde se ensaiam os acordes da música que se segue. Almoçarada com “Katchupa feita a lenha, hoje; no nosso bairro, na nossa cultura. Senhas: 2€.”

No bairro de Talude, em Loures, uma comunidade cabo-verdiana de mais de 70 famílias, ou seja, quase 300 pessoas, tornaram um terreno alto, com vista sobre o Tejo, na sua casa.

“Todos têm direito à habitação, para si e para a sua família, independentemente da ascendência ou origem étnica, sexo, língua, território de origem, nacionalidade, religião, crença, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, género, orientação sexual, idade, deficiência ou condição de saúde”, diz a Constituição. Cabe ao Estado garanti-lo. Na falta deste, as pessoas montaram tijolos e cimento com as próprias mãos. Ao redor das suas casas, portas antigas formam muros, entrelaçadas com restos de cana de açúcar e paus velhos. No vocabulário do privilégio diz-se wabi sabi.

As hortas organizadas enchem o solo de canas de açúcar, feijão, batata, alfaces e couves.

Foto: Inês Matos Andrade

Estes terrenos são privados e a casa desta gente tem prazo de validade (como hoje sabemos – este texto foi escrito antes das demolições).

Apesar do trabalho da AMRT, a associação que pretende mediar a relação da comunidade com o município, a cada ano há novas casas clandestinas e a cada ano se destroem outras tantas. O realojamento é uma inevitabilidade e Rolando Borges, que lidera as conversações, tem como único objetivo garantir que estas pessoas não são apenas números, prevenir o seu desenraizamento, a perda de tradições e de comunidade.

Há muitas faces na crueldade, na dor e no sofrimento.

Um exemplo. Era frequente os soldados nazis aterrorizarem os judeus na chegada às suas casas atirando os gatos e cães pelas janelas. Em 2022, numa conversa no Mercado de Arroios, Ronald Ranta – professor catedrático de Política, Relações Internacionais e Direitos Humanos na Universidade de Kingston, focado na alimentação e no nacionalismo no conflito israelo-árabe, bem como cofundador da Alliance of Dignified Food Support – contava como os israelitas desnudaram os palestinianos da sua identidade gastronómica, primeiro banindo-a e mais tarde apropriando-a. 

Numerosos estudos apontam as relações sociais e as comunidades como um fator determinante na saúde humana e no aumento da esperança média de vida.

Realojar não é apenas dar luz, água, paredes pintadas. Talude é cana-de-açúcar, é feijão congo, é grogue, é batuco. Cabe a Rolando, ao Estado, a todos nós, evitar mais hortas em banheiras.


Inês Matos Andrade

Inês Matos Andrade já gosta de comer desde que era uma bebé de seis meses, rosada e gordinha, que suava de sofreguidão enquanto mamava. Em adolescente, preencheu dezenas de diários em viagens de família com descrições visuais, gustativas e olfativas das refeições que fazia ao longo do dia, e menus roubados dos restaurantes visitados. Tirou jornalismo na Faculdade de Letras, no Porto, foi editora da secção Comer&Beber da Time Out Porto e Lisboa e hoje em dia é diretora do departamento de gastronomia e eventos na agência O Apartamento.

Dorme oito horas por dia, trabalha mais oito, as restantes oito são passadas a cozinhar, a comer, a pesquisar sobre comida, a montar mapas e guias de restaurantes ou a publicar sobre o assunto na conta de Instagram @inesmatosandrade. Parece uma obsessão, mas Inês prefere chamá-la gula crónica.

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