Neste artigo:

1 - Como sofre Lisboa com o calor?
2 - Como se arrefece a cidade?
3 - A sombra, "em primeiro lugar"
4 - A ventilação
5 - O calor antrópico
6 - Lisboa continua sem plano para fugir ao calor
7 - O que tem sido feito?
8 - "Projetos isolados" e Lisboa "a ficar para trás"

Este artigo faz parte da investigação Cidades resistentes ao calor, que junta as redações da Mensagem de Lisboa, em Portugal, da Maldita.es, em Espanha e do Slow News, em Itália, num projeto dedicado ao Jornalismo de Soluções com o apoio de Journalismfund Europe.

Lisboa tem atingido picos de calor neste início de verão. Na praça do Terreiro do Paço, o único refúgio é a sombra da estátua e é nos seus degraus que os turistas se juntam, a ouvir com mais ou menos atenção o guia que têm vindo a seguir pelas ruas da Baixa.

Mas há outros espaços da cidade que oferecem refúgio. Na renovada Praça de Sete Rios, há sombra e uma criança refresca-se nos novos repuxos. O mesmo acontece na praça do Fonte Nova, em Benfica, e no Parque das Nações. Aqui, a água é brincadeira para dias de calor, delicia e refresca crianças e pessoas adultas.


Como sofre Lisboa com o calor?

Os fenómenos climáticos extremos estão a tornar-se cada vez mais frequentes e Lisboa pode esperar mais ondas de calor e ondas de calor mais intensas. O calor mata e até 2100 as mortes causadas pelo calor em Portugal podem duplicar. O calor não é a causa direta da morte. É, antes, causa indireta: coloca o corpo em esforço e desidrata, dificulta a regulação da temperatura corporal e agrava condições de saúde preexistentes – cardíacas, respiratórias ou renais, afetando particularmente as pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Num único mês, entre julho e agosto de 2022, o excesso calculado de mortalidade associado ao calor em Portugal foi de 2401 pessoas. O período de 1 a 17 de julho foi o mais quente deste século. Quatro anos antes, em 2018, um episódio extremo de calor, entre 1 e 9 de agosto, motivou 707 óbitos em excesso. Desses, 426 registaram-se na região de Lisboa e Vale do Tejo. O dados são do ÍCARO, instrumento de observação do efeito de fatores climáticos na saúde humana desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

E os dados não mentem – nas cidades, o calor mata mais. Lisboa é mesmo a sétima cidade europeia mais exposta a ondas de calor – entre mais de 100. No primeiro e segundo lugares, vêm Madrid e Milão, cujas realidades são abordadas nesta investigação pela Maldita.es (Espanha) e pelo Slow News (Itália). Este ranking é o resultado de um estudo de 2022, da autoria dos investigadores portugueses Ana Oliveira, Amílcar Soares e António Lopes.

A pobreza energética em Portugal deixa as pessoas mais desprotegidas no interior das suas próprias casas, especialmente os grupos mais vulneráveis. A Estratégia Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Lisboa, publicada em 2017, aponta para que, no futuro, cerca de 130 mil residentes – mais de um quinto do total da cidade – sejam deixados em situação de grande vulnerabilidade durante o verão, devido ao desconforto térmico nas habitações.

Fora de casa, na rua, a forma como construímos a cidade também faz subir a temperatura, o que faz dos centros urbanos espaços particularmente vulneráveis a ondas de calor. A densidade de construção, a impermeabilização dos solos, os materiais e cores utilizadas, a cobertura vegetal – tudo isto impacta o calor que se sente nas ruas.

É o chamado efeito ilha de calor urbano: mede o contraste de temperatura entre os locais mais urbanizados da cidade e os arredores. Durante as horas de sol, os edifícios, as suas coberturas e os pavimentos captam a radiação solar e a “radiação que é absorvida ao longo do dia vai ser libertada para as ruas durante a noite”, impedindo o arrefecimento natural, detalha Cláudia Reis, investigadora no Zephyrus, a unidade de investigação em alterações climáticas da Universidade de Lisboa.

Mas, fora de casa, intervir no espaço público pode aumentar o conforto térmico e permitir criar verdadeiros refúgios climáticos para os residentes de Lisboa.

O que são refúgios climáticos? É “auto explicativo”, diz António Lopes, especialista em climatologia urbana, investigador e professor no IGOT. São “áreas onde nos podemos refugiar dos extremos”. “As igrejas, por exemplo, são ótimos locais, porque normalmente o seu interior não aquece muito. São refúgios climáticos por natureza, por causa da sua forma de construção.”

Mas muitos outros lugares se qualificam, explica Cláudia Reis. Refúgios climáticos podem ser “espaços públicos refrigerados, centros comerciais com ar condicionado, espaços verdes com sombra, com disponibilidade de água”. Jardins, bibliotecas, museus, estações de metro.


Três eixos de ação contra o calor

O mapa da ilha de calor urbano que consta do relatório Ondas de Calor, elaborado para a Câmara Municipal de Lisboa (CML) por uma equipa de investigadores do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa e coordenado por António Lopes, mostra os locais da cidade em que a construção e o espaço urbano mais dificultam o arrefecimento: na zona do Parque das Nações, na zona ribeirinha e na Baixa da cidade.

António Lopes, professor associado no IGOT e membro do Zephyrus, tem dedicado a carreira a investigar os efeitos das alterações climáticas no clima urbano e destaca aquilo a que chama “as três bombas de calor”: o aquecimento global, as ilhas de calor e as ondas de calor. É a esta perigosa combinação de fatores que as cidades devem prestar mais atenção na hora de criar condições no espaço público para oferecer alívio às pessoas nos períodos de calor mais intenso.

Quando se pensa em intervir para arrefecer a cidade, para Cláudia Reis são três os fatores que mais pesam na hora de pensar em mitigar os efeitos do calor – e da ilha de calor urbano – na cidade: a ventilação, a sombra e o calor antrópico – isto é, o calor resultante da atividade humana, como o que resulta dos veículos que circulam pela cidade.

Na cidade, dizem os especialistas, a intervenção no espaço público deve centrar-se ao nível do bairro e da rua, melhorando os microclimas urbanos e atenuando, à escala hiperlocal, o efeito ilha de calor urbano.

A sombra em primeiro lugar

“Se ficarmos debaixo deste plátano num dia de calor, conseguimos arrefecer”, aponta António Lopes durante a entrevista, na renovada Praça de Sete Rios. “Parece-me que [a praça] é composta por dois espaços bastante distintos”, diz, identificando uma “dualidade de um espaço relativamente bem conseguido: um terço [bem conseguido] e os outros dois terços menos”.

A entrevista acontece numa tarde soalheira de setembro. Aqui, o vento penetra com facilidade. Ao lado, há bastante sombra, há bancos para sentar e encontrar alívio em dias de calor. Há um parque infantil à sombra de árvores de grande porte. “É um espaço que tem uma influência ótima no conforto térmico”. Ao lado, há jogos de água – repuxos que nos dias de maior calor oferecem frescura. Mas há também uma grande superfície deste novo espaço público, onde antes reinava o alcatrão e o caos rodoviário, mais árida, sem proteção do sol e com “uma superfície impermeável muito clara”, com grande refletividade solar e que “pode provocar algum constrangimento ao caminhar”.

Na emblemática praça do Terreiro do Paço, em plena Baixa de Lisboa – e num dos locais em que o efeito da ilha de calor urbano na temperatura mais se faz sentir – também a superfície clara causa desconforto ocular. No centro da vasta praça, não há sombra nem bancos para se estar. É uma praça “um pouco intocável”, considera António Lopes. A Câmara Municipal explica que, aqui, qualquer “colocação de mobiliário urbano terá de ser ponderada e validade à luz da necessidade de preservação do conjunto paisagístico e arquitetónico”. Apesar disso, nas esplanadas instaladas nas margens da praça, foram encontradas soluções para criar sombra e para sentar.

Aqui, como noutras praças e espaços públicos da cidade, deviam promover-se “intervenções mais localizadas que permitissem [a criação de] abrigos microclimáticos”, considera o investigador no IGOT. “Faltam, por exemplo, locais para as pessoas repousarem. Não há bancos, não há assentos para as pessoas. Um banco com uma árvore, mesmo com um refúgio mais pequeno, uma copa mais pequena, se calhar seria um bom refúgio”.

Na sua investigação, Cláudia Reis concluiu que para alcançar uma redução local da temperatura do ar de um grau é necessária uma cobertura vegetal com 50 metros quadrados. Mas não é qualquer cobertura vegetal. É necessário determinado tipo de vegetação e, sobretudo, vegetação que produza sombra.

Criança à sombra, num jardim do Parque das Nações, em Lisboa. Foto: Inês Leote

Um dos aspetos mais importantes na construção de espaços públicos confortáveis em dias de calor intensos é a sombra. Isto é, para António Lopes e Cláudia Reis, consensual. A norte do Terreiro do Paço, na Alameda Dom Afonso Henriques, há um extenso relvado de quase meio quilómetro, interrompido poucas vezes por estradas que o atravessam. Aqui não há uma única árvore, o que torna este espaço verde num lugar pouco apetecível em dias de calor. Aqui, António não vê “razão nenhuma para não ter aquilo que nós chamamos hoje de micro florestas urbanas – ter um pequeno conjunto de árvores, porque, na verdade, os relvados, além de consumidores de água, não servem para melhorar o nosso conforto térmico”.

Ao longo dos extensos relvados da Alameda D. Afonso Henriques, não há árvores. Foto: Rita Ansone

Ter relva na cidade, por si só, não contribui para a redução da temperatura. Um estudo de Cláudia Reis em Lisboa tornou ainda mais clara a ineficácia de espaços relvados sem sombra ou sem outro tipo de cobertura vegetal. No Jardim Fernando Pessa, provou que os relvados não só não provocam um efeito de arrefecimento, como podem até “estar mais quentes que os seus arredores”, absorvendo mais energia em comparação com outro tipo de vegetação.

Para Cláudia Reis, a sombra surge “em primeiro lugar” na prioridade de intervenção para criar espaços mais frescos na cidade. “Porque, realmente, sentimo-nos muito mais confortáveis se estivermos à sombra e, sobretudo, na sombra produzida a partir da vegetação”. Uma cidade que procura intervir no seu espaço público para o arrefecer e oferecer alívio à população, tem de pensar-se em “criar mais sombra, em como podemos colocar mais árvores e tentar aumentar a quantidade de vegetação”.

“A vegetação e as árvores não têm só benefícios para nos arrefecermos. Vão dar-nos outros benefícios na qualidade do ar, são espaços de recreio e lazer, valorização do património imobiliário.”

Mas mesmo quando não há a possibilidade de colocar árvores ou vegetação capaz de criar sombra, “podemos usar sombra artificial”, como toldos.

A ventilação

Apesar de ter uma extensa faixa ribeirinha e de estar próxima do oceano, isso, por si só, não arrefece a cidade. Aliás, é junto ao rio que o efeito da construção e densidade urbana da cidade mais se fazem sentir, impedindo o arrefecimento. A construção compacta e em altura teve, em Lisboa, um efeito bloqueador dos corredores de ventilação.

Ao longo das últimas décadas, o processo de urban sprawl – ou expansão urbana – revelou-se um obstáculo ao vento que corria para a cidade. A nortada – o vento de norte que chega à cidade em cerca de “84% dos dias do ano” – foi travada pelo crescimento urbano à volta da cidade.

Há décadas, a ventilação “era muito mais eficaz na redução da temperatura em Lisboa e na redução dos poluentes”, diz Cláudia Reis, mas com o desenvolvimento dos concelhos a norte da cidade – como aconteceu na Amadora ou em Loures – a ventilação natural da cidade foi afetada e houve uma redução da velocidade do vento. Mais recentemente, aconteceu na zona do Parque das Nações. É aqui que o efeito ilha de calor urbano mais se faz sentir em Lisboa. Ao entardecer, o ambiente construído leva a temperaturas que chegam a ser 4,5 graus mais elevadas do que nos pontos menos urbanizados da cidade – como é o caso do aeroporto.

“Nós sabemos que quando a Expo foi projetada, os pavilhões foram pensados com a largura suficiente entre eles, ou com a distância suficiente entre eles, para as brisas poderem penetrar no espaço urbano e aliviar a carga térmica que ali existia. Mas, depois, com a urbanização de todas aquelas novas avenidas com prédios muito altos e muito densos, o que se verificou é que esses prédios tapam as brisas do Tejo”, explica António Lopes.

“Se por termos prédios muito altos, bloqueamos a penetração da Nortada, vamos ter temperaturas mais altas e também uma concentração de poluição mais alta”. É o que hoje acontece numa das principais artérias da cidade, a Avenida da Liberdade, “com níveis de poluição muito acima do que é suposto”, afirma Cláudia. Neste corredor de ventilação da cidade, o excesso de automóveis que ali circula faz as árvores parecer culpadas. Aqui, a sua presença leva a uma “redução da velocidade do vento e à concentração de alguns poluentes”, explica.

Em Lisboa, a penetração dos ventos e brisas “é mais frequente no verão” e faz-se através dos corredores naturais da cidade, “sobretudo os fundos de vale”, como são, em Lisboa, o Vale de Alcântara ou mesmo os corredores da Avenida da Liberdade ou da Avenida Almirante Reis. Mas os processos de urbanização têm vindo a bloquear a ventilação. Para evitar que a ventilação natural dos espaços, essencial no arrefecimento da cidade, ganhe ainda mais obstáculos, é essencial que em determinados corredores “não aumentemos a densidade de edifícios” e que não se construa “obliquamente”, afirma a investigadora. Aqui, o papel do geógrafo ganha especial importância na definição das políticas de ordenamento do território e de definição das regras urbanísticas, para que no crescimento futuro da cidade não se repitam erros do passado.

O calor antrópico: como nos movemos aquece a cidade

Durante a entrevista que deu à Mensagem, na nova Praça de Sete Rios, António Lopes conta que costuma lançar um desafio aos seus alunos: “Simular quantos carros precisamos de tirar da cidade para manter os níveis de poluição abaixo dos limites legais”. E a resposta indica “sempre o mesmo: devíamos retirar metade dos carros”. Apesar disso, a utilização do automóvel na região da Grande Lisboa está no seu nível mais alto de sempre, ultrapassando os valores pré pandemia.

Avenida da Liberdade, em Lisboa. Foto: Inês Leote

Lisboa abraçou o ambicioso objetivo de tornar-se neutra em carbono até 2030 e foi escolhida pela Comissão Europeia para integrar um lote de 100 cidades que pretendem antecipar em 20 anos a meta europeia de alcançar a neutralidade carbónica até 2050, iluminando o caminho para que os restantes centros urbanos o possam seguir. Isso significa alcançar uma redução de 80% nas emissões de gases com efeito de estufa, face aos valores registados em 2002.

Se a redução da utilização do automóvel na cidade é um objetivo determinante para o alcance das metas climáticas, com 2030 a aproximar-se rapidamente, esta é também de grande importância para o conforto térmico na cidade: quando estão ligados, os motores dos carros aquecem Lisboa, mas também quando estão estacionados os automóveis fazem subir localmente a temperatura. E a cor dos carros impacta o calor emitido – carros claros emitem menos calor do que carros escuros.

“É uma coisa que está muito pouco estudada”. Apontando para estudos atualmente em curso, António Lopes avança que “nas medições que fizemos em parques e em algumas ruas de Lisboa, os carros normalmente aquecem o ambiente” e a temperatura chega a aumentar “três, quatro, cinco graus à sua volta”.

“Agora imaginemos uma rua que tem, por exemplo, 100 carros expostos à radiação [e] emitem bastante por causa da sua cor escura – os carros claros normalmente emitem muito menos. E um conjunto de, por exemplo, 100 ou de 200 carros a emitirem todos. É esse o calor antrópico que temos.”

Em janeiro de 2020, Lisboa chegou a anunciar uma Zona de Emissões Reduzidas (ZER) para o centro da cidade, numa medida que prometia eliminar centenas de lugares de estacionamento e restringir o acesso dos carros ao centro da cidade, diminuindo em cerca de 40 mil a circulação diária de automóveis no centro histórico. Mas, quatro anos depois, os planos não se concretizaram.


Lisboa continua sem plano para fugir ao calor

“Estamos aqui num exemplo concreto, o Parque Gonçalo Ribeiro Telles, que demonstra como é possível transformar um espaço anteriormente impermeabilizado [e] com altos níveis de temperatura, num amenizador climático – oásis climático, ou refúgio climático.

Maria João Telhado, diretora do Departamento de Ambiente, Energia e Alterações Climáticas da Câmara Municipal de Lisboa, detalha os quatro grandes desafios climáticos da cidade: primeiro, o aumento de temperaturas, máximas, médias e mínimas – o aumento dos dias de calor e das noites quentes. Segundo, a redução da precipitação média anual. Terceiro, o aumento do nível médio das águas do mar, com impacto em todo o corredor ribeirinho. E o últimoo aumento dos eventos extremos.”

A entrevista à responsável da Câmara Municipal de Lisboa acontece na renovada Praça de Espanha – o novo Parque Gonçalo Ribeiro Telles. O extenso parque verde é o resultado de um processo de renaturalização da cidade. Há quatro anos, era um imenso nó rodoviário, caracterizado pelo som das buzinas e do congestionamento automóvel. Este é um dos bons exemplos de requalificação urbana e de adaptação às alterações climáticas da cidade. Foi introduzida vegetação, sombra, bancos para estar. Foi criado um lago e relvados desenhados para inundar com episódios intensos de precipitação. São bacias de retenção – recebem as águas de chuvas intensas no inverno, reduzindo a velocidade de infiltração e o escoamento à superfície, evitando cheias a jusante. No verão, este espaço transforma-se em refúgio climático, oferecendo alívio em alturas de calor intenso.

Cláudia Reis caracteriza estes processos de renaturalização como “muito importantes”. Também a responsável pelo ambiente e alterações climáticas no município de Lisboa destaca a importância dos “espaços verdes, parques e jardins, de vias com árvores de alinhamento, corredores verdes e parques florestais”.

O objetivo de Lisboa, explica Maria João Telhado, é “permitir que haja zonas de arrefecimento ao longo de toda a cidade” e que seja possível uma continuidade da estrutura verde que ofereça alívio em dias de calor, “passando de um corredor verde para um pequeno jardim e de um pequeno jardim para um espaço arrefecido”.


Mas afinal, o que tem sido feito em Lisboa?

Barcelona tem hoje um mapa com mais de 370 refúgios climáticos, identificando os locais mais próximos onde as pessoas podem encontrar alívio em dias de calor – são locais, interiores e exteriores da cidade, onde são garantidas temperaturas inferiores a 27 graus mesmo nos dias mais quentes. Em Paris, a rede de ilhas de frescura conta com mais de 1400 pontos identificados pela cidade.

No verão de 2022, Isabel Mendes Lopes, deputada municipal do partido Livre em Lisboa, apresentava em sessão de Assembleia Municipal, uma recomendação para que algo de semelhante pudesse nascer em Lisboa. O objetivo seria a identificação de locais públicos com “garantia de temperaturas baixas, (…) incentivando a população a abrigar-se [ali] nas horas de maior calor”. A recomendação foi aprovada por maioria, com a abstenção de PSD e CDS e voto contra do Chega, mas, até ao momento, não foi materializada.

Um mês depois, o jornal Público deixava antever a ação de Lisboa, avançando que Lisboa poderia “vir a ter uma rede de refúgios climáticos, como existe em Barcelona”, mas deixava o aviso: “apesar de o diagnóstico estar feito, de os riscos estarem identificados, (…) um plano de fuga ao calor está a demorar a sair do papel”.

E assim continua. Conjunto, já este ano, no relatório Informação Escrita do Sr. Presidente da CML – 1 de março a 30 de abril de 2024, foi anunciada, no âmbito do projeto europeu Cool Noons, o desenvolvimento de projetos para “percursos climaticamente confortáveis e uma Rede de Refúgios Climáticos”.

O diagnóstico há muito que está feito em Lisboa: a necessidade de plantar árvores nas ruas, de alterar as cores dos pavimentos, os materiais dos edifícios, de evitar construir em altura e em grande densidade nos corredores de ventilação, bem como reduzir o número de automóveis em circulação. Da Estratégia Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Lisboa, aos mapas e modelações produzidas ao abrigo do projeto Ondas de Calor, de 2020, ao Plano de Ação Climática (PAC 2030), são vários os documentos municipais que elencam medidas a adotar pela cidade para enfrentar o calor.

No PAC 2030 são referidas várias medidas concretas:

  • Aumento e densificação da infraestrutura verde, com penetrabilidade nas áreas construídas (logradouros, coberturas verdes e jardins/corredores verdes estruturantes à microescala do bairro/integração da infraestrutura azul);
  • Utilização de pavimentos permeáveis e revestimentos refletores;
  • Introdução de coberto vegetal;
  • Mudança na geometria dos elementos urbanos.
  • Criação de sombreamentos;
  • Rega de pavimentos;
  • Introdução de massas de água ou sprays em locais estratégicos;
  • Regulação do tráfego automóvel em zonas críticas da cidade;
  • Introdução de espécies mais resilientes ao tempo quente, favorecendo e fomentando a biodiversidade;
  • Reforço da presença de vegetação à escala do bairro, redefinindo o desenho do espaço público e equacionando a inclusão de áreas de estadia e de lazer;
  • Desenhar e planear os espaços verdes de forma a garantir uma alternância de clareiras e áreas arborizadas de preferência com espécies de folha caduca;
  • Prever no processo de desenho e de planeamento da cidade a existência de barreiras de árvores de folha persistente sobre o quadrante onde sopra o vento dominante, reduzindo-lhe a velocidade, para proteção das áreas de estadia;
  • Equacionar a preservação e renaturalização dos logradouros permeáveis com adoção de vegetação arbórea ou arbustiva que robusteça a conetividade da Infraestrutura Verde;
  • Favorecer a “ilha de frescura” através de soluções que favoreçam a evapotranspiração e possibilitem um maior ensombramento de zonas consideradas críticas;
  • Nos vales, manter desimpedidos os corredores como canais que favoreçam a drenagem atmosférica. Introduzir vegetação para evitar a dissipação acentuada de energia em noites de arrefecimento radiativo no inverno. Nos vales com maior densidade de ocupação, evitar o aumento da densidade, assim como o aumento do número de pisos nas edificações;
  • Privilegiar a drenagem atmosférica nos vales identificados neste estudo como prioritários, de forma a preservá-los como corredores de ventilação, como em Benfica, Vale de Alcântara, Vale de Chelas, Avenida da Liberdade e Almirante Reis.

“Nós, académicos e também a Câmara, já temos muita informação teórica. É preciso aplicá-la e realmente sensibilizar a população. É pôr as mãos na massa”, lembra Cláudia Reis.

O Parque das Nações foi pioneiro na utilização dos jogos de água em Lisboa. Vulcões de água, que explodem com um intervalo temporizado, refrescam – ou encharcam – os lisboetas nos dias mais quentes. No Pavilhão do Conhecimento, há repuxos no pavimento e o mesmo acontece ao lado do Oceanário, onde é possível passar debaixo de uma queda de água ou passear no meio de vapor de água. Mais recentemente, os jogos de água começaram a integrar grandes projetos de requalificação urbana – exemplo disso são as renovadas praças do Fonte Nova ou de Sete Rios.


Lisboa “a ficar para trás”

A própria rede mundial de cidades C40, de que faz parte Lisboa e 95 outras cidades, criou uma sub rede de cidades – a Cool Cities Network – que também integra Lisboa, para dar resposta aos desafios do calor e promover a criação de centros de arrefecimento (ou cooling centres), de uma estratégia de comunicação para o calor e a colocação de árvores nas ruas. Do que isto significa para Lisboa, pouco se sabe.

À Mensagem, Maria João Telhado assegura que o município está a “inventariar vários espaços” e a trabalhar “virado para os refúgios verdes – intervenções em infraestrutura verde”, para, “por um lado, arrefecer a cidade”, e, por outro, “dar a conhecer que espaços são esses”. O objetivo, esclarece, é promover a criação de espaços que sejam “mais [climaticamente] amenizadores do que manter uma família em casa ou ir para um centro comercial”. A autarquia revela que alguns passos concretos foram já dados, entre os quais a “identificação dos locais críticos, tendo por base o mapeamento da ilha de calor”, bem como a “construção de mapas com indicação dos refúgios climáticos”, embora estes não tenham ainda sido tornados públicos.

Isabel Mendes Lopes olha para a necessidade de criar uma rede de refúgios climáticos como forma de “por uma questão de saúde, mas também de garantir que continuamos a ter espaços de encontro na cidade e que [o calor], que vai ser cada vez mais presente na cidade de Lisboa, não ajuda a desfazer as relações de vizinhança e de comunidade que queremos fomentar”.

“Para nós, esta rede de refúgios climáticos é também uma rede de pontos de encontro em alturas de maior calor.”

À semelhança da identificação de refúgios feita em Barcelona, a deputada municipal recomenda que sejam identificados espaços climatizados, como bibliotecas, museus ou espaços camarários. Na recomendação aprovada, era pedido que a rede estivesse em operação no verão seguinte, em 2023, o que não veio a verificar-se. “Lisboa está claramente a ficar para trás”, diz, lamentando a ausência de novidades, mais de dois anos decorridos da aprovação da recomendação.

Atualmente, são poucos os projetos que a cidade tem a decorrer para melhorar o conforto térmico na cidade.

A Câmara Municipal de Lisboa criou o programa Arrefecer a Cidade, com o objetivo de reverter a impermeabilização dos solos, evitar o bloqueio de ventos e brisas refrescantes, bem como o calor emitido por veículos e edifícios. Como se propõe a fazê-lo? Através da aposta na estrutura verde, aumentando a presença de elementos de água, da disponibilização de água potável e da criação de sombra e, ainda, através da concretização de “projetos de regulação microclimática e de transformação de praças urbanas em praças verdes e mais frescas e aumento da presença de arvoredo nos arruamentos, para atenuar o efeito de ilha de calor urbano”, lia-se no documento das Grandes Opções do Plano da Cidade de Lisboa para o período 2022-2026.

Em projetos recentes de requalificação do espaço público, tem sido notada a aposta na presença de elementos de água, seja através da renaturalização de espaços, como aconteceu na Praça de Espanha, ou da introdução de jogos de água, mas também através da aposta numa nova rede de bebedouros – esta rede, concluída no ano passado, resultou na instalação de 200 bebedouros pelas ruas da cidade, que agora contam com um total de mais de 400 equipamentos desta natureza.

No que toca às intervenções ao nível da rua, as iniciativas ainda são tímidas. Ao abrigo do Arrefecer a Cidade, está o projeto Ruas Verdes+. Sob a égide deste programa, em julho foram colocadas 27 árvores de porte médio e folha caduca – permitindo sombra no verão e sol no inverno – ao longo da Rua Carlos Mardel, entre as freguesias de Arroios e Areeiro. A autarquia explica que foram também “distribuídas 180 floreiras de barro e sementes de plantas diversas que foram instaladas pelos munícipes nas suas varandas e logradouros”.

O programa, com financiamento europeu, viu o seu fim em agosto e não parece existir uma estratégia alargada de replicação desta ou de outras intervenções para melhorar o conforto térmico nas ruas de Lisboa.

Ao longo da Rua Carlos Mardel e no âmbito do projeto Ruas Verdes+, foram colocadas 20 árvores. Foto: Frederico Raposo

Outro programa com financiamento europeu – o Life Lungs – permitiu à Câmara Municipal de Lisboa a plantação de 108 mil árvores pela estrutura verde da cidade e de 2800 árvores em arruamentos, facto que o município considera ser “relevante para a redução da ilha de calor”.

Apesar dos números avançados pela CML, Isabel Mendes Lopes considera que estas intervenções estão “muito aliadas a projetos europeus e [são], portanto, muito limitadas e sem esta visão de conjunto que deveríamos ter”. A deputada municipal acrescenta ainda que “não existe um investimento sério para transformar a cidade” e aponta o dedo ao que considera serem “projetos isolados relativamente à adaptação da cidade às alterações climáticas”.

*Texto publicado originalmente a 3o de setembro de 2024



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Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta – , o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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