“Estamos a beber história”, diz Luís Figueira, sommelier de cerveja na fábrica Dois Corvos. No caso, mais de três séculos de história. “É uma homenagem à cidade de Lisboa e a uma das mais importantes e belas praças da Europa, a Praça do Comércio”, explica Daniel Teodósio, 30 anos, gerente do Museu da Cerveja.
Ambos falam da cerveja Terreiro, que está a ser produzida pela cervejaria artesanal lisboeta Dois Corvos, a partir de um desafio do Museu da Cerveja * estreando uma série de rótulos dedicados aos bairros históricos de Lisboa.
Coube a Daniel e Luís a missão de engarrafar séculos de história: o imponente Arco da Augusta, a simetria das arcadas da praça, a luz de Lisboa, o frescor da brisa do Tejo e uma certa dose de melancolia e saudade acrescentada à tradicional receita composta por água, álcool, lúpulo levedura e malte.

O novo rótulo reúne todos esses elementos num trabalho inspirado numa pintura do pintor português Velhô retratando o Terreiro do Paço, que incorpora ainda uma pessoana capa da revista Orpheu e o inconfundível copo estilo “garrafa dentro de um copo” feito por Júlio Pomar para o Museu da Cerveja.
A Terreiro, de certa forma, sintetiza o percurso profissional do lisboeta Daniel Teodósio. Licenciado em história pela Universidade de Lisboa, trocou a vida dos reis e rainhas de Portugal pela majestade da cerveja em 2022, quando as duas paixões, a história e a cerveja, finalmente se reencontraram.
Fiel súdito da cerveja, Daniel guarda certas críticas a respeito da relação dos portugueses com a bebida, segundo ele, injustamente posicionada na linha de sucessão da família real dos aperitivos no país.

“De uma forma geral, os portugueses não têm o mesmo fascínio pela cerveja que têm pelo vinho, famoso pelas suas variações de castas de uva, o que poucos sabem é que isso também ocorre com a cerveja”, afirma.
Daniel usa a própria Terreiro para exemplificar as variações possíveis de uma cerveja artesanal. Tecnicamente, a bebida situa-se entre as do tipo Ale (há ainda artesanais Lager e Lambics, por exemplo), mais precisamente uma variação da Ale, a Indian Pale Ale, ou simplesmente IPA, que por sua vez se divide em dez categorias, estando a Terreiro entre as Session.
Trocando em miúdos, a Terreiro é uma cerveja artesanal do tipo IPA Session. Mas as possibilidades não param por aí.
“No caso da Terreiro, decidimos com a Dois Corvos por um teor alcoólico mais baixo, de 4.5 graus, para se poder degustar mais o sabor do malte e do lúpulo”, explica Daniel.
A “alquimia” entre o grão e o primeiro gole
Num imenso tanque de metal Luís Figueira degusta a cerveja recém-nascida, na companhia de Daniel Teodósio, com quem andou a queimar os neurónios em busca do sabor do Terreiro do Paço. A fabrico da bebida é uma ciência, mas o processo de criação nem sempre é cem por cento racional.
“Somos dois malucos a trabalhar juntos”, resume o sommelier da Dois Corvos.

“Maluco” como também pode sugerir o percurso profissional de Luís Figueira, um lisboeta de 52 anos que há 13 decidiu deixar a carreira na área da informática para se transformar em sommelier de cerveja. “Fui da inteligência artificial para o trabalho braçal”, brinca Luís, a respeito da exigência física demandada na produção de uma cerveja artesanal.
Uma década e cerca de 400 rótulos depois, a Dois Corvos já é um ícone da cervejaria lisboeta, ombreando cada vez mais com os gigantes do mercado, se ainda não no volume de produção, mas noutra grandeza: no reconhecimento e aprovação da qualidade do produto pelos apreciadores da bebida artesanal.
Quem despreocupadamente dá um gole numa cerveja talvez não faça ideia da engenharia por trás do líquido que gentilmente desce pela garganta. Por isso, uma visita à fábrica da Dois Corvos em Marvila é uma experiência didática e o passeio pelos armazéns repletos de barris, cilindros, centrífugas e outras maquinarias, uma viagem a um mundo saboroso e desconhecido.
Em média, entre a escolha dos ingredientes e o abrir de uma garrafa, uma cerveja pode levar um mês para nascer. A gestação inicia-se pela seleção do grão, moagem, adição do lúpulo, seguidos de uma semana de fermentação e outras três de maturação, antes de a cerveja já quase a nascer girar e girar na centrifugação.
Entre extração do açúcar e ações químicas que aproximam a cerveja a um chá está a busca por sabores que estimulam o paladar com “notas” de frutas que seriam difícil imaginar combinar com uma cerveja, como o maracujá. A alquimia é tamanha que se alcança o objetivo sem que um único maracujá tenha sido adicionado à receita.
No caso específico da Terreiro, ensina Luís, prevalece o aroma com equilíbrio de sabores frutados e cítricos. Ou em bom sommeliês:
“A Terreiro tem aromas com notas de frutas tropicais, em particular o maracujá. Essa combinação faz dela uma escolha perfeita para beber em qualquer ocasião, especialmente em dias mais quentes.”
A dupla “maluca” agora debruça-se sobre a segunda nova cerveja dedicada a Lisboa, a Chiado, para a Brasileira do Chiado que será lançada no próximo inverno e, por isso mesmo, exigirá uma nova fórmula para lidar com a temperatura e a atmosfera de um sítio distinto do Terreiro do Paço.
Enquanto o inverno não chega, a nova cerveja artesanal lisboeta é apropriada para o verão que se avizinha, uma leveza que segundo a dupla Daniel e Luís, combina com a atmosfera solar e leve do Terreiro do Paço, e o baixo teor alcoólico, a garantia de que a experiência sensorial estenda-se por mais tempo de degustação.
Uma deliciosa forma de saborear Lisboa durante os Santos Populares, celebrado também no Museu da Cerveja, em frente à mítica praça que batiza a cerveja.
- O Museu da Ceverja faz parte do grupo Valor do Tempo, sócio da empresa que detém a Mensagem de Lisboa

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