Leio num poderoso ensaio sobre a vida e a obra de Camões – uma espécie de “não-biografia” da autoria de Carlos Maria Bobone, jovem de rara erudição – que “a rima é um dos mais intrigantes fenómenos da história da cultura” pois, estando presente tanto na literatura popular como na erudita, corresponde a “um sinal de esmero no uso da língua” que o distingue do meramente instrumental.

Realmente, embora a poesia tenha hoje bem menos leitores do que a prosa, a verdade é que quase toda a literatura ocidental se iniciou pelo texto poético rimado e que as trovas e canções (que eram também em si uma espécie de narrativas) já existiam há muito quando apareceram os primeiros romances.

O historiador da literatura Óscar Lopes diz mesmo que, em termos de estabelecimento da comunicação, o verso e a rima são elementos extremamente eficazes, porque ajudam a ritmar a fala de uma forma que facilita a memorização e a compreensão por parte do ouvinte; e, se pensarmos até quando tivemos em Portugal um número monstruoso de analfabetos, tanto nas aldeias como nas cidades, é de louvar que este vastíssimo património poético, que abrange praticamente todas as situações da vida (amor, morte, miséria, ciúme, solidão…), se tenha transformado em fados e canções, cujas mensagens (por vezes também políticas e sociais) ficaram gravadas nas mentes e nos corações de gente que nem ler sabia.

Mas importa dizer que nem tudo é fácil, que o fado tem a sua cartilha própria e que não teria funcionado sem uns certos “armários” onde se metem a palavras, muitos dos quais inspirados por poetas como Camões; falo de estrofes, claro, mas também de métrica, de rima e ritmo, de sílabas tónicas em lugares precisos do verso – em suma, de modelos pré estabelecidos, entre os quais talvez o dominante seja a redondilha maior, o verso de sete sílabas (oito, se a última for muda) presente em quadras, quintilhas e sextilhas. Numa casa de fados, podemos, aliás, ouvir facilmente um fadista pedir determinada melodia aos músicos recorrendo ao nome do respectivo compositor e ao tipo de estrofe: José António de Sextilhas, Pedro Rodrigues de Quadras, Alexandrino do Armandinho, etc.

Porém, além dos modelos de rimas se terem multiplicado e complicado ao longo do tempo (a sequência vulgar a-b-a-b deu lugar a muitas outras combinações que punham à prova o desempenho dos intérpretes e desafiavam os que se dedicavam ao improviso em sessões de despique), criaram-se novas estruturas que mostram bem as habilidades dos nossos poetas populares, fosse através da inserção de um “versículo” (uma espécie de “aparte” que Marceneiro acrescenta ao seu Fado Menor, enriquecendo-o sobremaneira), fosse por meio de glosas com rima cruzada, como nos fados Duplicado e Triplicado, composições que criavam inúmeras dificuldades aos pobres fadistas, separando logo os bons dos sofríveis.

E tanto se inventou que, na década de 1930, António Amargo escrevia a Cartilha do Poeta como suplemento de uma revista de fado, descrevendo o seu trabalho como “exposição quanto possível simplificada e prática dos preceitos da métrica e da poética”; e, uns anos mais tarde, Amorim de Carvalho publicaria, já em volume independente, o Tratado da Versificação Portuguesa, alegando que ninguém compreende totalmente a poesia se não conhecer a respectiva técnica.

Afinal, o que parecia entrar facilmente na cabeça de quem ouvia tinha muito mais ciência do que se pensava…


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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