A maior lição do Índice Cidadão da Qualidade do Ar em Lisboa, no qual participei (juntamente com mais 14 voluntários), não é a poluição que se respira, mas sim o silêncio institucional perante um diagnóstico robusto e inequívoco. A cidade precisa de respostas, não de relatórios arquivados, sites obscuros e mal mantidos ou de estruturas de medição em fraca quantidade. Lisboa precisa – e merece – maior qualidade do ar nos espaços interiores e, pontualmente, em algumas ruas e arruamentos e no afastamento de alguns veículos que – apesar da passagem do tempo – insistem em poluir as ruas de Lisboa.

O ar está pesado em Lisboa. E não é só por causa das partículas finas, do CO2, ou do cheiro a fritos nas ruas e centros comerciais. Está pesado de responsabilidade. O recente levantamento levado a cabo por voluntários em Lisboa, conhecido como Índice Cidadão da Qualidade do Ar, representa não apenas um exercício de ciência participativa, mas um verdadeiro murro na mesa política e ambiental do país.

Durante três meses, 14 cidadãos monitorizaram a qualidade do ar na capital com sensores portáteis. Percorreram ruas, entraram em estabelecimentos, mediram o ar em casa e até nos transportes públicos. O resultado foi um mapa detalhado com mais de 1600 medições que pode ser consultado aqui.

Fica um alerta claro: Lisboa respira mal. E pior ainda: respira pior onde achávamos estar seguros: dentro de casa e em espaços comerciais, escritórios e lares de terceira idade.

Fonte: Índice Cidadão da Qualidade do Ar em Lisboa

O silêncio perante a poluição do ar

Este estudo revelou que o índice médio de poluição do ar em interiores ultrapassa largamente os níveis de segurança. Cozinhas, casas de banho, salas de estar, elevadores, cafés e até casas de repouso apresentaram níveis de poluentes — PM2.5, PM10, CO2 e formaldeído — perigosos para a saúde humana.

Na rua, medições em freguesias como Campo de Ourique e Santa Maria Maior atingiram valores muito superiores à média. Pior: as horas críticas de exposição coincidem com os horários de maior tráfego, sugerindo uma correlação muito directa entre mobilidade urbana e poluição atmosférica.

E onde está a resposta institucional? Em lugar nenhum.

O site oficial da qualidade do ar (QualAr) tem apenas seis estações em Lisboa. Muitas vezes incompletas e com dados inconsistentes. E absolutamente nenhuma acção concreta com base neles. A estação da Avenida da Liberdade ultrapassa sistematicamente os limites legais de dióxido de azoto (um poluente associado a doenças respiratórias crónicas) e ninguém parece achar isso preocupante.

O mais preocupante, contudo, é o silêncio. O silêncio das autoridades de saúde. O silêncio da Câmara. O silêncio do Governo. O silêncio das empresas e instituições onde estes dados deveriam provocar reacção imediata.

Os cidadãos fizeram o que lhes competia: andaram cerca de 100 Km pela cidade (mapa de locais aqui), mediram, analisaram (desenvolvendo dezenas de programas de análise), cruzaram dados, identificaram padrões. O que falta agora? Falta a política estar à altura da cidadania: Esperamos.

O medidor que os cidadãos utilizaram. Fonte: Índice Cidadão da Qualidade do Ar em Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa precisa de adoptar medidas concretas: reduzir o tráfego com mais zonas de emissões reduzidas, aumentar a rede de sensores para freguesias mais afectadas, instalar sensores em escolas e lares de idosos, e divulgar alertas de ar poluído através de apps e painéis urbanos.

E, sobretudo, precisa de ouvir quem está a medir. Porque a política que não ouve os seus cidadãos está condenada à irrelevância.

Ao nível nacional, urge legislar sobre qualidade do ar interior. Precisamos de uma estratégia que vá além do papel e do powerpoint. Precisamos de metas, fiscalização e penalizações. E precisamos de responsabilidade institucional. É inadmissível que um café, centro comercial ou livraria possa estar aberto ao público e expor os seus trabalhadores a níveis de CO2 cinco vezes acima do limite saudável (e que um lar de idosos apresente níveis elevados de PM2.5 sem qualquer tipo de inspeção). Basta ver os dados aqui.

O ar não é de esquerda nem de direita. Mas a resposta à sua degradação é profundamente política. E as consequências da inação não se medem em conferências de imprensa: medem-se em consultas nos hospitais.

Se os cidadãos conseguem organizar-se para recolher dados de qualidade, analisar mais de 1600 registos, produzir relatórios rigorosos e oferecer soluções concretas, por que razão continuam as instituições a fingir que não têm nada a aprender com eles?

A democracia não é apenas o direito ao voto. É o direito a respirar.


Rui Martins

Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”).

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1 Comment

  1. Onde está o certificado desses aparelhos? É que fazer leituras com aparelhos que se compram num AliExpress ou similar, como indicam as fotografias, pode mostrar proeficiência na elaboração de gráficos e mapas, mas como validade dos dados, e por consequência, a validade das conclusões, é zero.

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