Um grupo de alunos da Escola Secundária de Mem Martins juntou-se e começou a dar vida ao que queriam ver na comunidade escolar: mais cultura. O resultado? São dias menos repetitivos e uma vontade maior de ir à escola. Tudo começou com a auscultação de turmas da Escola Secundária de Mem Martins sobre a cultura que existe no concelho de Sintra – muita, só que tantas vezes sem espaço de divulgação.

Em abril de 2024, Rodrigo Faria e Nilene Veiga, técnicos de desenvolvimento comunitário da Fundação Aga Khan, começaram, dentro das salas de aula, com turmas inteiras, a tentar perceber quais as ligações que os alunos tinham à arte e à cultura do concelho de Sintra. Uma ideia impulsionada pelo projeto da Fundação Aga Khan “Na Zona-Mais Território”, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência – um programa de reformas e de investimentos com fundos europeus.

“Temos vindo a fazer o mapeamento das atividades de cultura de Sintra e trouxemos esse trabalho para as escolas, em que, através de uns mapas, mapeamos que artistas existem, que áreas artísticas e de cultura existem, que espaços culturais, que eventos culturais é que os alunos conhecem e que iniciativas culturais gostavam de fazer na escola”, detalha Rodrigo Faria.

Do primeiro contacto com 200 alunos, seguiu-se um segundo. Uma “call to action”, com o objetivo de reunir os jovens que gostariam de dinamizar projetos relativos à escola. No dia combinado, apareceram três ou quatro alunos, mas o número, à partida redutor, não impediu o avanço da iniciativa.

Nesse momento, Rodrigo e Nilene passaram para as mãos dos alunos a responsabilidade de fazer dos sonhos realidade. “A ideia é preparar esta lógica de desenvolvimento de atividades culturais pensadas por eles”, explica Nilene. O grupo cresceu e, hoje, já são mais de 10 alunos, unidos num projeto comum: o “100 Criatividade”.

Com criatividade ou sem ela, reúnem todas as sextas-feiras no refeitório da escola às 16h30, com mesas juntas, cadeiras à volta, canetas à disposição e papéis com anotações que significam mais do que meras ideias soltas. Daqui, já saíram eventos culturais na escola como um Open Mic (onde qualquer um pode ir ao microfone mostrar o seu talento) e encontro com artistas.

O que acabou por acontecer no dia 14 de março, quando o grupo “100 Criatividade” reuniu, no refeitório da Escola Secundária de Mem Martins, mais de 100 outros alunos para assistirem à vinda de artistas locais à escola. Entre eles Sepher AWK, Moami, e Tristany Mundu, para falarem um pouco dos trajetos e projetos de cada um.

E isso está a transformar a relação destes alunos com a escola.

O grupo cresceu e, hoje, já são mais de 10 alunos, unidos num projeto comum: o “100 Criatividade”. Foto: Rita Ansone.

Ver a escola com outros olhos

“Pelo que eu vi, a escola não tinha muitas iniciativas que vinham da parte dos alunos. Era muito aquilo que os professores falavam, aquilo que os professores queriam. Agora, com o ‘100 Criatividade’, nós estamos a fazer com que os alunos tenham uma voz”, esclarece Abdul Djabula, 15 anos, aluno do 10.º ano de Línguas e Humanidades, que pretende levar este projeto para fora das paredes da escola – quem sabe, tentar “algo mais internacional”, sonha.

Antes do projeto, Abigaël Conceição, 17 anos e aluna do 11.º ano de Artes Visuais, pensava que a escola era só um lugar para ir, estudar e voltar para a casa.

“Agora temos algo que pode inspirar as pessoas, que pode juntar os alunos.”

Agora, com o ‘100 Criatividade’, nós estamos a fazer com que os alunos tenham uma voz”, esclarece Abdul Djabula, 15 anos. Foto: Rita Ansone

Márcia Alves, aluna de 17 anos do 11.º ano de Artes Visuais, acredita que o projeto acrescenta “uma dinâmica diferente para os dias não serem todos iguais”. Adianta que aprendeu bastante e que abriu os “horizontes para a vida”.

Diogo Santos, aluno de 16 anos, do 11.º ano de Artes Visuais, junta-se à conversa, defendendo que o projeto ajuda os alunos a prepararem-se “para a vida adulta”.

E Abigaël Conceição vai mais longe: “A escola é muito mais que ir para as aulas, estudar, fazer o teste, almoçar e ir para casa. Nós somos pessoas, não somos só máquinas que estão aqui para estudar. Passamos muito tempo na escola e há outras formas de utilizar esse tempo, de forma a que seja importante e memorável para nós”.

“Passamos muito tempo na escola e há outras formas de utilizar esse tempo, de forma a que seja importante e memorável para nós”. Foto: Rita Ansone

Chamar os alunos para a ação

Os alunos passam grande parte do seu dia na escola, onde aprendem e estudam, mas para Rodrigo Reis, 16 anos, “a escola é um lugar vazio”. O jovem, que está no 10.º ano em Línguas e Humanidades, acredita que os alunos passam “nove, dez anos a escrever, a decorar” para acabarem a escola sem saberem o que fazer para além disso.

Mas também acredita que são os alunos quem pode alterar a relação com a escola. “Mostrando ideias e que há formas de as fazer, mostrando que, sim, não há desculpas para essas ideias não acontecerem. Acho que temos mostrado como é que os alunos têm mais poder que a própria escola para fazer as coisas”, explica.

Rodrigo Faria enfatiza que neste momento o mais importante é ter a porta aberta para este tipo de iniciativas acontecer na escola.

“Nós temos que compreender que as escolas têm que se adaptar à comunidade, têm que se adaptar ao território.”

Nilene Veiga destaca ainda que este projeto na Escola Secundária de Mem Martins é um exemplo da participação juvenil e não só nas questões sobre cultura. “Este é um grupo totalmente informal, que não tem apoio de docentes, que parte apenas do interesse dos alunos, que começa a partir deles e é materializado por eles”, reforça.

O grupo “100 Criatividade” não dinamiza apenas eventos artísticos e de cultura. Os alunos tentam representar os pedidos da comunidade escolar, ouvindo os desejos dos restantes colegas e escrevendo, na larga folha de anotações, o novo pedido para que possa ser concretizado. 

Neste contexto de ação e representação estudantil, resta uma pergunta: porque é que é importante ouvir os alunos? Abigaël Conceição responde de forma simples: “Porque não havia escola se não houvesse alunos. Somos nós que fazemos a escola”.

O 100 Criatividade é uma iniciativa na Escola Secundária de Mem Martins. Foto: Rita Ansone

Texto editado por Álvaro Filho


Gonçalo da Silva Amaral

Nascido em Lisboa, mas criado na Margem Sul do Tejo, apaixonou-se por contar histórias na Avenida de Berna ao estudar Jornalismo. Veio para a Mensagem de Lisboa fazer o que mais gosta: conhecer e contar as histórias.

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