Que me perdoe o fado, mas dos patrimónios de Portugal, logo o fado, logo ele, o verdadeiro hino nacional português, o fado mais santo que o Santo António, o fado mais doce e embriagante que o vinho do Porto, o fado bom de bola, o Cristiano Ronaldo das noites em Alfama, logo ele, vejam só, logo o fado tem sido a única das marcas-registadas patrícias que me escapa.

Em quase uma década desse lado do mar, já me converti a tantas portugalidades, ao pastel de nata, às sardinhas no pão, aos cafés com e sem princípio, às epopeias camonianas, aos desassossegos de Pessoa, a dizer bom dia e ouvir boa tarde de volta, converti-me até ao banho de mar frio no verão, vejam só, mas não ao fado e sigo um infiel não-convertido, pobre de mim.

E o que dirá a Maria do Rosário Pedreira, colega de crónicas aqui na Mensagem, escritora, poeta e editora, o que dirá a Maria do Rosário Pedreira?

Pobre de mim, acabaram-se as ínfimas hipóteses de um dia tê-la como editora após essa confissão pública, firmada em três vias, carimbadas e assinadas pelo notário, da minha incapacidade de perceber a profundidade e a verdadeira beleza do fado.

Talvez seja a tristeza do fado, a sua melancolia, talvez ainda não tenha amado o suficiente, sofrido o suficiente, para ser consumido pela chama do fado como uma vela.

Um dia, porém, a mesma Maria do Rosário Pedreira confidenciou-me, quase em segredo:

— Há fados alegres.

Não duvido, nunca duvidei.

Acredito, sim, haver dezenas de fados alegres a andar serelepes e fagueiros por aí, apenas não tive a sorte de encontrá-los, azar o meu o de sempre que topar com um fado pela proa, ser um fado triste, profundamente triste, o Tejo um rio de lágrimas e Lisboa, uma imensidão de homens e mulheres de coração partido.

Outros já tentaram salvar a minha pobre alma, como o amigo fraterno e músico Walter Areia, um brasileiro assim como eu, vejam só, mas que escuta o fado como um bebé escuta a voz da mãe, enternecido, emocionado, sedento de mais, sempre mais, o cotovelo no tampo da mesa, o queixo apoiado na mão e uma lágrima furtiva discretamente a escorrer pela face.

Quanto a mim, nada de lágrimas, os olhos um Saara sem oásis de tão seco, imerso numa indiferença patológica, o coração de pedra, insensível, insensível.

Pobre de mim.

Que me perdoe o fado.

Para não dizer que o fado nunca me emocionou em nada, já me emocionou, sim. Emocionou-me no caminhar lento e bovino dos fadistas vadios pelas ruelas dos bairros castiços, a enorme barriga forçando os botões da camisa puída até o limite, as papadas homéricas, o par de olheiras profundas, a guitarra sempre apoiada no ombro e o cigarro a pender dos lábios.

Os fadistas vadios, homens rústicos, maduros e renitentes como os pugilistas eternos, à prova dos nocautes da vida.

Emocionou-me ainda o outro lado do ringue, o das jovens fadistas de franja emo e maquiagem gótica, fadistas punks de piercing e cabelos azuis, jovens e fortes, mulheres alheias às modinhas do pop e rock and roll, fieis ao sangue que corre nas veias cerúleas das suas peles alvíssimas, a cantar não com a garganta e as cordas vocais, mas com o coração.

O fado ensinou-me ainda um punhado de coisas.

Ensinou-me a perceber as mulheres portuguesas que cruzaram o meu caminho e as que um dia, espero, ainda irão cruzar.

Ao vê-las ouvir o fado, aprendi a respeitar o ar melancólico, aprendi a admirar o olhar perdido em alguma estrofe do Carlos do Carmo, a abraçar o pensamento ancorado num refrão da Amália e, principalmente, aprendi a amar o silêncio.

O silêncio, não um alerta vermelho de um problema na relação, mas o silêncio como uma eloquente prova da intimidade de um casal.

Ainda com o fado, conheci melhor os amigos portugueses mais próximos, que apesar de mais próximos, seguem reservados, na deles, distantes, mas ainda assim amigos.

Diferente dos amigos brasileiros, é verdade, de portas e braços sempre abertos, pois no samba é assim, a amizade é uma passarela sem cancelas, mas quem foi criado pelo fado sabe que o abraço de hoje é o prenúncio da despedida de amanhã.

Melhor não, melhor não, fecha essa porta aí e nada de abraços.

Nisso, sim, o fado fisgou-me, em seu ensinamento humano, demasiadamente humano, e graças ao fado tenho filosofado, ou melhor, filosoFADO cada vez mais sobre os meandros da alma portuguesa.

Mas quanto ao ouvido, sigo por fora, sem perceber a dimensão da sua grandeza musical, surdo para o seu poder, um verdadeiro bárbaro, um completo fariseu, e podem me atirar pedras que as mereço, da primeira pedra atirada à última delas.

Pobre de mim.

Que me perdoe o fado.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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