Foi numa noite de inverno em que descemos a pé por entre o nevoeiro de início de madrugada em Alfama. Ao dobrar uma esquina depois da Casa Cesariny, nas pedras escorregadias, tropeçamos num burburinho. Altas horas da noite, as ruas de Alfama vivem ainda? E nem tudo é sobre fado aqui. Numa sala de estar da rua do Vigário, esconde-se a Típica de Alfama, com uma programação de música internacional variada, que pode ir do samba aos ritmos balcânicos, do chorinho à tarantella, passando por um repertório de covers de rock’n roll. Os músicos, de múltiplas nacionalidades e instrumentos, fazem deste lugar uma alegre babilónia.

Pela porta entreaberta, espreitamos para uma pequena sala de café com meia dúzia de mesas, decoração simples e um balcão ao fundo em forma de L. Cá perto da porta, com as luzes quase apagadas e algumas velas aqui e ali, do lado esquerdo um conjunto de músicos à mesa tocam como se estivessem na sala de estar. Do lado direito, sem separação, os ouvintes sentados com os seus copos. E tantos outros de pé, encostados ao balcão, às paredes ou onde houver espaço.

É a Típica de Alfama, vizinha do Tejo Bar, logo ali ao dobrar da esquina, companheira deste bar já icónico das noites de Alfama. Todas as noites de segunda a sábado, também com fado (às segundas-feiras).

Antes da pandemia, porém, esta era uma tasca de bairro, onde por vezes se passava para vir beber um copo e comer um croquete. Que mudança se deu aqui, afinal?

A Típica de Alfama já teve várias vidas. Foto: Inês Leote

Um negócio de geração para geração

Paulo Antunes, mais conhecido como “Paulinho”, é proprietário do bar e dinamizador das noites musicais. Nasceu e cresceu em Alfama, na casa dos pais logo ali ao virar da esquina, na rua dos corvos. Foi em 1998, quando tinha 18 anos, que os desafiou a abrir um restaurante ou um café.

Assim nasceu a Típica.

Manuel e Lurdes nasceram na Pampilhosa da Serra, mas, na altura, “naquela zona não havia trabalho, então eles vieram para Lisboa”, começa por contar. “O meu pai trabalhou muitos anos nas tabernas aqui de Alfama e depois foi trabalhar para a estiva. Era o que 90% da malta daqui fazia, iam todos para o porto de Lisboa fazer a descarga dos navios.”

Foi já depois de se reformar do trabalho de estivador que comprou a gelataria a um antigo colega de trabalho e a transformou num café de bairro “que vendia copinhos de vinho, cafezinhos, croissants e pouco mais”.

“Paulinho” está aos comandos da Típica de Alfama. Foto: Inês Leote

Com o passar dos anos e o envelhecimento, o “senhor Manuel” estava já muito debilitado fisicamente e tanto a mulher como o filho insistiam constantemente para que largasse o café. “Mas ele nem pensar. Vinham aqui os amigos do bairro todos ter com ele à tarde, isto era a sala de estar dele. Mas, quer dizer, nunca estava sentado, vinha sempre para trás do balcão”, recorda.

Foi durante a pandemia, que obrigou os vizinhos a irem para casa ditando o fim daqueles convívios, que Paulo finalmente conseguiu convencer os pais a deixarem definitivamente o café e a mudarem-se de volta para a terra. Desta feita, tomou sozinho as rédeas da Típica em 2021, com a reabertura dos comércios.

O bar veio trazer uma movida a Afama. Foto: Inês Leote

O café que virou estúdio comunitário

Esta já é, há muitos anos, uma área frequentada por músicos, o que fazia naturalmente com que muitos fossem seus clientes e “viessem muitas vezes comer uma bifaninha ou ver o futebol”, conta.

Gustavo, músico paulista de 33 anos, um destes fregueses, foi um dos primeiros impulsionadores da música ao vivo no café.

A coisa fez-se de forma espontânea. “Nós morávamos aqui ao lado e decidimos um dia pedir ao Paulinho para fazermos aqui os nossos ensaios e ficar a beber cerveja. Aí, o Paulinho disse para começarmos a fazer uma vez por semana e começou a virar uma tradição”, recorda.

Aos poucos e poucos, outros músicos começaram a perguntar se podiam ensaiar ali, até o café virar estúdio comunitário.

Muitas vezes está a tocar o grupo previsto para aquela noite, e abre a roda a dois ou três músicos que acabaram de chegar e que querem experimentar tocar com os presentes. Foto: Inês Leote

Sofia, madeirense de 39 anos, gerente do bar e uma das caras emblemáticas do staff, recorda que “a cena da música ao vivo surgiu de forma orgânica”. “O Paulinho começou a notar que as pessoas paravam e ficavam a ouvir, a observar, e decidiu começar a ter música. Surgiu naturalmente, não foi um bar criado para ter música.”

Progressivamente e sem que se tenha planeado, uma mudança extraordinária ocorreu neste lugar. Juninho Ibituruna, músico brasileiro morador de Alfama há 14 anos e frequentador da Típica desde a altura do pai de Paulo, testemunhou esse processo com entusiasmo.

“Agora desde que começou a ter música que isto se tornou num local de encontro de músicos que se conhecem, ou não, e é sempre uma surpresa agradável. É um lugar para todo o mundo, do mais famoso ao que toca pouco, ou apenas um público leigo.”

E Paulinho remata: “Quase todos os músicos que tocam aqui hoje já cá vinham antes de eu mudar isto. Só que agora vêm cá tocar, e temos sempre excelentes concertos porque eles são todos muito bons”.

Sofia, ao balcão, é gerente do bar. Foto: Inês Leote

Um laboratório de experimentação onde todos podem participar

Já lá vai mais de um ano desde que esta aventura começou e as sessões têm agora uma constância maior do que no início. Alguns músicos tocam em dias fixos e vêm todas as semanas. Todos eles frisam o mesmo aspeto que torna este lugar tão especial e que reside no facto de ser um laboratório musical.

Por não ter sido concebido como um espaço de música – como uma casa de fados ou uma sala de concertos –, e por ter nos bastidores o espírito de abertura e recetividade de Paulo, este lugar alberga possibilidades de criação e de aliança infinitas.

Aquilo a que muitas vezes se assiste aqui é estar a tocar o grupo previsto para aquela noite, que terá o seu cachet, e de repente abrir a roda a dois ou três músicos que acabaram de chegar e que querem experimentar tocar com os presentes. Ou, noutras circunstâncias, músicos que já se conheciam vagamente e que puderam explorar trabalho em conjunto por se encontrarem neste contexto mais informal.

João Pires. Foto: Inês Leote

Yossef Alous, um dos músicos no comando das noites balcânicas do sábado, relata exatamente este processo. “Quando eu comecei a vir tocar aqui vinha com o repertório habitual do meu projecto pessoal, Ajsan Balkan, mas depois começamos a tocar todas as semanas juntos com o Marian no violino, o Andrea no contrabaixo, o Wolly no clarinete e o Martín no Saxofone. Foi graças à continuidade semanal dos nossos gigs na Típica que se consolidou um novo grupo, o Lis Ensemble, com as nossas músicas e sonoridades novas. Também foi na Típica que nos viram tocar e que depois nos chamaram para a inauguração da Casa do Comum.”

Thiakov, brasileiro de 41 anos, ao comando das noites de rock-n’roll da sexta feira, partilha a mesma experiência. “Aqui é um laboratório, o Paulinho permite fazer o que nós quisermos. Todo o mundo tem a mesma sensação, você experimenta fazer o que você quiser aqui.”

O artista considera também que este lugar veio ocupar um espaço de algo que não é muito comum em Portugal, que é “o conceito de bar de música de entretenimento”. “Quando tem é no Bairro Alto para gringo, ou então é nas casas de fado, uma coisa bem específica e endémica que não se mistura, não pode chegar lá com uma guitarra de rock e fazer uma jam.”

João Pires, guitarrista e compositor português de 42 anos, conta que “têm aparecido imensos músicos que tocam connosco espontaneamente e esse para mim é o grande objetivo de estar aqui, é a troca”.

“Aparece alguém que não conhecemos de lado nenhum, a gente abre o espaço e eles interagem connosco e isso é lindo. Muitos músicos vêm aqui e experimentam tocar o repertório deles com outros instrumentos e com outros músicos, e isso é uma mais-valia e é uma filosofia deste lugar que dificilmente poderás encontrar numa casa de fados aqui em Alfama. Esse lugar da espontaneidade, de dizer ‘trouxe o meu instrumento, não conheço ninguém, mas estou a gostar do som e curtia tocar com vocês’. Siga!”, conta.

Um tasco musical fora das lógicas turísticas

Aqui, a programação da noite é anunciada a giz numa ardósia encostada à porta do café. Não existe valor a pagar pela entrada, e podem ouvir-se músicos cujos concertos noutros estabelecimentos noturnos de Lisboa são pagos.

A imperial custa 1,5 e serve-se salgados e bifanas quase até às 2 horas da manhã.

A presença nas redes sociais é fraca, ou quase inexistente, “por desleixo”, afirma Paulo, sendo porém ao mesmo tempo algo “que torna este sítio mais característico”, segundo Sofia. 

Foto: Inês Leote

No comando atrás do balcão, incansável, forma juntamente com Aires o duo de caras conhecidas por músicos e habitués. Sofia começou a trabalhar na Típica depois de sentir os efeitos do isolamento social do teletrabalho e confessa que “durante a pandemia comecei a sentir falta de ter algo que fosse mais no exterior”. Moradora na zona de Santa Apolónia, começou por vir aqui beber uns copos e acabou por saltar para trás do balcão.

“O Paulinho é um excelente patrão, deixa-nos trabalhar à vontade, deixa os músicos terem ideias novas. Por exemplo: ontem tivemos umas projeções meio psicadélicas na parede.” Sofia acrescenta ainda que foi muito bem recebida no bairro e que faz questão de criar uma relação com as pessoas. “Elas querem sentir-se bem-vindas, cerveja há em todo o lado. Apesar de agora vivermos muito da música, continua a ser uma tasca e há imensa gente que vem aqui todos os dias, eu acho isso magnífico.”

Aires Gouveia, 40 anos, acabou eventualmente por ser chamado por Sofia, sua amiga de infância, para a acompanhar nesta experiência. Frequentador da antiga Típica, vinha aqui ver jogos do Benfica quando estava nesta zona da cidade e lembra-se de quando a Típica “era um tasco com a sua dinâmica local. O senhor Manuel, o pai do Paulo, era uma pessoa maior que a vida e dava um encanto especial à casa. Mas os tempos alteraram-se, Alfama já não é a mesma Alfama”, afirma.

A antiga tasca. Foto: Inês Leote

Muito antes de a música ao vivo introduzir algumas mudanças neste espaço, a descaracterização que Alfama sofreu ao longo da última década com o boom do alojamento local já tinha provocado grandes alterações na vida social do bairro. Paulo partilha justamente que, de entre os habitués da altura do seu pai, “alguns já morreram, mas outros saíram do bairro para as periferias devido à mudança que houve no valor das rendas”. “Da velha guarda de Alfama já há poucos que se mantêm aqui, talvez uns 3 ou 4 regulares.”

Aires, que se vê a si mesmo e a Sofia como “filhos adoptivos de Alfama”, refletindo sobre estas problemáticas considera que “as cidades são organismos vivos, evoluem, por vezes há um conceito muito exclusivo de querer conservar algo no tempo e no espaço, mas eu sempre acreditei que há várias dinâmicas e que as coisas vão adquirindo novos rumos.” O problema atualmente em Lisboa, na sua visão, é haver “preocupação apenas com uma das camadas das folhas desta grande alface: a camada turística, a cidade dos unicórnios, mas depois não há uma preocupação em manter outro tipo de camadas mais populares que não dão tantos likes.”

Nesse sentido, poder-se-á também considerar que este lugar não é apenas um laboratório musical mas também um laboratório social. Nas palavras de Aires, ao ter-se tornado um “tasco musical”, a Típica proporciona o encontro entre pessoas de diferentes horizontes que jamais se cruzariam noutras circunstancias. “Por exemplo, neste momento está a ocorrer um concerto da Kali, do coletivo Gira, e do Gustavo, que vem de uma filarmónica no Brasil, e de repente nós temos aqui o Tó Zé e a Clarinha, que são habitantes daqui, ali a falar diretamente com eles. E isso é óptimo porque é como se as pessoas extravasassem a sua bolha e tivessem acesso a algo mais.”

Yossef Alous partilha a mesma experiência sociológica sobre este lugar, afirmando que “os habitués daqui são pessoas old school, malta do Benfica e da bola, e há momentos engraçados em que estes portugueses da velha-guarda, quando a música é boa, ouvem-na com prazer e importam-se mesmo. Quando há talento, eles veem, e quando não há, também dizem ‘eh pá, isto hoje não está tão bom, o sax do outro dia era melhor’. Começam a fazer de nosso manager”, graceja.

Em lugares como este, frequentado hoje em dia por tantos estrangeiros, hippies e viajantes do mundo, onde a convivência é rica e amigável com portugueses, do bairro ou não, de todas as idades, temos a sensação de que é possível uma interação real entre portugueses e estrangeiros habitantes da cidade.

Fora das lógicas turísticas e das bolhas do nomadismo digital, a Típica parece representar um vislumbre de uma nova Lisboa possível.

Foto: Inês Leote

Quando a Típica fecha: os “afters” do Miradouro de Santo Estevão

Quase todos os fins-de-semana se tem a sensação de que a festa aqui é sem fim. Depois de o bar fechar, às 2h da manhã, ninguém vai para casa: gera-se uma romaria até ao Miradouro de Santo Estevão e a música continua em jams espontâneas pela noite dentro. “Pode acontecer estarem aí 20 músicos às 5h da manhã a tocar, que é uma coisa incrível que não existe em mais sítio nenhum em Lisboa”, afirma Paulo, que também guarda memórias de jogar à bola em criança no adro da igreja.

Agora, neste miradouro, acontecem pela noite fora “coisas mágicas, de onde já nasceram projetos incríveis”, comenta ainda Juninho. Teco Fonseca, 45 anos, trabalhador ocasional na Típica e uma cara emblemática sempre presente nestes “afters”, acrescenta também que não é apenas um local de exploração musical mas também de diálogo com “escritores, artistas plásticos e atores”.

Os mais antigos saberão, porém, que não é de hoje que este miradouro que parece perdido das rotas turísticas constitui um local de explorações artísticas noturnas. Alguns lisboetas guardarão memória de sessões de fado vadio a acontecerem aqui até de manhã, num tempo em que Alfama era ainda um lugar de bandidagem e em que as rivalidades territoriais se poderiam inclusive exprimir à desgarrada.

Hoje em dia, existem ainda alguns jovens fadistas a frequentar as noites do miradouro, mas a presença internacional é bastante predominante. Neste sentido, a variedade musical que agora se encontra nas noites do miradouro reflete as mudanças da cidade de Lisboa, que no espaço de uma década passou de ser uma capital bastante isolada do resto da Europa para se tornar numa cidade em que já é possível contactar com muitas nacionalidades e culturas distintas.


Eunice Lemos

Nasceu em Lisboa em 1993. Estudou filosofia durante 6 anos entre a FLUL e a Sorbonne. Entre 2014 e 2020 fez de Paris a sua casa, onde trabalhou 4 anos numa editora feminista histórica. Regressada, trabalha em Lisboa com palavras e livros, navegando entre revisora, livreira e tradutora.


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