Para Abílio, é primavera o ano todo. Nas manhãs de janeiro a janeiro, quem cruzar pela esquina da Avenida de Igreja com a Rua Marquesa de Alorna, em Alvalade, facilmente vai encontrá-lo, em pé, com os cabelos longos já a pratear a escorrer pelos ombros, as mãos enfiadas no bolso do casaco, ladeado pelas cores e o perfume das flores.
As mãos hoje enfiadas nos bolsos já fizeram jus ao outfit de um reformado vocalista de banda de rock. “Cheguei a tocar teclado eletrónico”, lembra Abílio dos Santos, 63 anos, enquanto agora usa as mesmas mãos para reunir os ramos de um ramalhete de rosas, podar a base dos talos e montar mais um bouquet, no trabalho com o qual ficou famoso no bairro lisboeta: o de florista.
Se não conquistou uma plateia com os acordes do teclado, esse fã dos AC/DC, Guns N’ Roses e Bon Jovi conseguiu arregimentar uma legião de clientes, sugerindo sempre a flor certa para o momento certo, seja as rosas para o Dia dos Namorados que se avizinha, as margaridas do Dia da Mãe, os cravos do 25 de Abril ou os lírios para lembrar de alguém que se amava e já partiu.
Uma qualidade que o transformou no passar dos anos num dos vizinhos queridos de Alvalade, como o senhor João do restaurante Pirilampo, o engraxador Joaquim ou “Velho” da loja de doces do bairro.
A prova disso é o número de vezes que foi cumprimentado pelos demais vizinhos durante a entrevista. Um deles, uma senhora a caminhar em direção à pastelaria, ofereceu-lhe um café. “Não é preciso. Obrigado. Já tenho um ali pago”, respondeu o florista com um sorriso.
Em vão.
Cinco minutos depois, a senhora retornava com uma chávena descartável a fumegar.
— Chegou! — avisou a mulher, entregando-lhe a chávena.
— Não precisava, você é demais — agradeceu o florista.
— Ainda bem para o senhor que sou demais — retrucou a imodesta vizinha.
Quando a senhora se afastou, Abílio não resistiu e comentou o óbvio: “Sinto-me acarinhado pelo bairro”.
Disso não há dúvidas, Abílio.
Salário pago em pães… e corrida atrás de ladrões
Tem sido assim há quase meio século, desde que o lisboeta Abílio, nascido no bairro de Santa Justa, na Baixa, há 63 anos, passou a vender flores em Alvalade. Tinha então 16 anos. A carreira de florista, porém, começou mais cedo, aos 7, quando o pequeno Abílio largou a escola “na segunda classe” para ajudar a avó Evangelina, a matriarca de uma família de floristas.
“Comprávamos as flores no Mercado da Ribeira e vínhamos de lá a pé até à Praça do Chile para revendê-las”, recorda-se o florista de Alvalade.

Hoje, o Mercado da Ribeira já não é o mesmo da infância de Abílio e as flores vêm de estufas de Loures e do Montijo, de boleia na carrinha branca do florista. Não é difícil encontrá-la estacionada ao pé da antiga pastelaria Nova Lisboa, agora em reforma, onde Abílio fica a observar os arranjos coloridos armados no passeio oposto, protegidos à sombra.
“As flores não gostam nem de sol nem de chuva. Gostam do frio”, ensina o florista, que parece discordar da preferência das flores, aquecendo-se com o café oferecido pela vizinha.
Nos primeiros anos em Alvalade, Abílio revezava-se entre o trabalho de florista e o de padeiro, ofício aprendido na adolescência na padaria de um primo, na Rua da Beneficência. Acolhido pelo parente, dormia sobre os sacos de farinha e recebia o “ordenado” em pão: nove carcaças por uma noite de trabalho, que praticamente consistiam na refeição diária.
Padeiro à noite e florista durante a manhã em Alvalade, Abílio transportava os molhes na bagageira de um triciclo motorizado. Além de prático, o veículo era mais ágil na hora do florista enfrentar a sua maior dor de cabeça à época: a fiscalização.
“Não tinha licença para vender as flores e estava constantemente a fugir dos polícias”, diverte-se com a lembrança.
A estratégia para driblar a fiscalização era revezar os pontos de venda, ora na esquina com a avenida do Rio de Janeiro, ora “ao pé dos Correios” da Avenida da Igreja ou ainda pelas bandas da Rua José Duro. Isto tudo num mesmo dia. Vez ou outra, acelerava o triciclo até os limites de Alvalade para expor as flores “na boca da estação do metro de Entrecampos”.
Abílio viveu a rotina de dribles aos polícias do bairro por cerca de cinco anos, até que em meados da década de 1980 surgiu a oportunidade de se regularizar. Um concurso realizado pela Câmara Municipal de Lisboa oferecia duas alternativas: a primeira através de uma oferta em dinheiro do interessado pelo ponto, outra pela avaliação profissional.
“No dia de abrirem o envelope, lá estava, mas o valor que eu tinha sugerido não foi o suficiente”, recorda o florista. O desânimo pelo falhanço inicial não durou muito e dois dias depois, numa véspera de Natal, Abílio foi contactado pela Câmara. “Disseram-me que tinha sido escolhido para ficar com o ponto por causa do meu currículo”, conta.
No “currículo” de Abílio, para além de reconhecidamente dominar o métier do ofício de florista, havia outras habilidades que não costumam surgir nos currículos que se vê por aí. “Diziam que era um bom rapaz, muito educado e que deixava o passeio limpo após o trabalho. Além, ainda, de perseguir os ladrões”, explica.
Espere lá: como assim “perseguir os ladrões”?
“A minha vida teve dessas coisas: numa época, fugia da polícia por não estar regularizado como florista, noutra corria atrás dos ladrões e recuperava o que tinham roubado – um fio de ouro, uma mala -, para devolver às madames. Era jovem para isso, agora já não é assim”, relembra.
Testemunha das mudanças de Alvalade
Alvalade também já não é assim. Não se vê ladrões a correr pelas ruas com fios de ouro roubados às madames, assim como não há mais madames a desfilar pelo bairro com fios de ouro à mostra. Com a tesoura de podar às mãos, Abílio viu a mudança cruzar a Avenida da Igreja e passar pelos olhos.
Viu lojas virarem agências bancárias para depois os bancos virarem cafés e restaurantes. Viu o comércio tradicional lentamente ser substituído por lojas de cadeias e os escritórios a fecharem as portas. Viu ainda os velhotes do bairro, durante muito tempo uma das marcas registadas de Alvalade, cederem lugar a jovens casais de profissionais liberais e hábitos sofisticados.
Muitos deles, imigrantes, como a cliente francesa que se aproximou a perguntar em inglês sobre as flores expostas. Mesmo sem falar o idioma, Abílio não perdeu a venda.

“Foi uma pena não ter estudado. Dizem que sou inteligente e poderia ter tido uma outra sorte. Deve ser verdade, pois consigo até falar estrangeiro para vender as flores”, diverte-se.
O passar do tempo também se reflete no negócio do florista. Através da página dedicada ao Florista do Bairro de Alvalade no Facebook, é possível perceber que os arranjos de flores de Abílio já ocuparam, pelo menos, o dobro do atual espaço no passeio. “O meu fornecedor de muitos anos morreu e não consegui outros com flores de mesma qualidade”, explica.
A qualidade das flores é reconhecida pelos clientes. Desde que se mudou para Alvalade, há sete anos, Elsa Guerreiro costuma comprar rosas ao florista. “Não venho com tanta frequência, pois as rosas do senhor Abílio costumam durar quatro semanas”, reconhece, enquanto recebe o bouquet em mãos. “Diga lá que tenho as melhores clientes do mundo”, responde ele.
Está dito, Abílio.
Nem tudo foi um mar de rosas na vida do florista
Apesar de menor do que um dia já foi, o balcão do florista conta sempre com rosas de diversas matizes – vermelhas, brancas, amarelas e em tons de salmão – assim como os lírios, margaridas, gerberas, boquinhas-de-lobo, imperiais, cravos e camélias, na miríade de cores e perfumes que faz daquele recanto em Alvalade uma eterna primavera.
Na companhia do marido, uma cliente pede lírios para lembrar a morte do irmão. O telemóvel toca e no outro lado da linha a voz feminina encomenda um ramalhete de flores do campo. Abílio entra na carrinha que é um misto de transporte, armazém e oficina, e volta com as plantas para repetir habilmente o processo de podar, juntar, ornar e transformar a natureza em beleza.
As mãos calejadas dos floristas são à prova de eventuais espinhos. Fazem parte da “armadura” que Abílio veste todos os dias para não deixar os espinhos de uma existência dura transparecer aos clientes. Pai e avô, o florista conheceu amores e desamores, a beleza no sorriso do neto que vive nos Açores e também a tristeza pela perda de entes queridos.
O corpo de Abílio também acusa o passar dos anos e a exigente jornada dupla de padeiro à noite e florista pelas manhãs há muito ficou para trás. Atualmente, trabalha de terça à sexta-feira, numa rotina de se levantar de madrugada para buscar as flores na estufa e vendê-las até, o mais tardar, no começo da tarde.

O vigor físico dos dias em que perseguia os ladrões de fio de ouro das madames pelas ruas do bairro também amainou. Em 2021, apesar da reconhecida segurança em Alvalade, acabou por sofrer um revés dos gatunos. “Era véspera de Natal e estava a ser o melhor dia do ano. Vendia bastante e colocava o dinheiro numa gavetinha dentro da carrinha”, recorda-se.
Abílio diz que, apesar do vem e vai durante as vendas, percebeu que a sua atividade estava a ser observada por uma pessoa, mas não deu muita atenção. Afinal, era o melhor dia do ano.
“Na hora de fechar, quando fui à gaveta, ela estava vazia. Tinham levado tudo”, conta o florista. Abílio lembra-se ainda de ter ficado tão atordoado com o roubo que “em pouco tempo todo o bairro sabia”. Mas não havia muito a fazer, o faturamento estava perdido. Foi aí que sentiu como era realmente “acarinhado” por Alvalade.
Primeiro, alguns moradores resolveram ajudar. Em seguida, recebeu uma visita que o surpreendeu na mesma proporção que o comoveu.
“No outro dia, estava em casa, quando bateram na porta. Era um dos polícias da esquadra de Alvalade e trazia um envelope na mão. Ele e outros polícias da esquadra tinham juntado um dinheiro para repor a minha perda.”
O florista que nunca recebeu flores
O susto do assalto é hoje passado e resiste apenas a feliz lembrança do acalorado abraço do bairro. Olhando sempre para a frente, o florista de Alvalade prepara-se para mais um Dia dos Namorados, um dos pontos altos do ano. Na sua banca, as rosas começam a ocupar mais espaços entre as flores, embora o amor pareça estar no ar durante o ano todo.
“Ultimamente, os homens têm comprado mais flores”, aponta o florista, reposicionando um ramalhete de rosas amarelas na banca. “E não são só para as namoradas, mas para as esposas”, reforça Abílio, sobre o novo cenário romântico de Alvalade.
Romântico como o próprio florista.

Por trás da aparência rock and roll style e de um certo ar durão, há um ex-teclista com aqueles hits de derreter o coração no repertório. Abílio nunca frequentou uma escola de música e começou a tocar “de ouvido”, tampouco como já foi dito, fala inglês. O que não o impediu de conseguir martelar nas teclas uma das suas músicas favoritas.
“It’s my life, dos Bon Jovi”, revela o florista, sobre a canção que no refrão, ao ressaltar que mais importante do que viver para sempre é “viver enquanto se está vivo”, parece resumir a força que o mantém em atividade como florista até hoje.
Um florista que, curiosamente, após mais de meio século entre rosas e margaridas, não se lembra de alguma vez ter recebido flores.
Embora, Abílio, nunca seja tarde para isso.

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