O Dia dos Namorados é um campo minado para a alma que vaga sem companhia. Quando a folhinha vira o mês de janeiro para fevereiro, o romântico de plantão sente o vazio ocupar o lado esquerdo e o frio aumentar nas costelas, sem ter um cariño do lado para esquentá-las.
E, convenhamos, São Valentim, que maldade, tinha que cair logo numa sexta, dia internacional dos casaizinhos?
O chamado por outro coração vadio poderia estar escrito no cartaz já amarelado colado naquele poste na Alameda, o vazio no peito aos olhos do mundo, pois a solidão derruba os muros do pudor como um triste bulldozer em Gaza.
E o coração que não bate nem apanha é só terra arrasada, onde se vê apenas a bandeira branca hasteada num clemente pedido de paz.
É o ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor das canções do Antonio Maria, o maior cronista do Brasil, pernambucano como o menor deles, esse que agora vos escreve essas maltecladas linhas.
Daí, o solitário sai da trincheira e anuncia, com licença eu vou à luta.
Faixa de Rambo na cabeça e faca nos dentes, o exército de um homem só na linha de frente de batalha, a atirar suas flechas de amor para todos os lados, um cupido kamikaze de peito aberto, disposto também a ser flechado.
Para os românticos e românticas do Brasil em Lisboa, então, é drama em dobro, pois o ano fiscal traz na planilha não apenas um, mas dois Dia dos Namorados pela frente para se sentir o ser mais solitário do planeta.
Lá no Brasil, os pombinhos juntam as asas em 12 de junho, sob as bênçãos de Santo António, pois o Dia dos Namorados em fevereiro durante o carnaval brasileiro não tem futuro.
Fevereiro é quando todo brasileiro prefere estar solteiro, para descer atrás do Elefante nas ladeiras de Olinda.
Ou para subir o Pelô em Salvadôôô, dançar livre, leve e solto, fantasiado no Bola Preta nas ruas do Rio e despido da fantasia de gente séria no Acadêmicos do Baixo Augusta, pois agora paulista deu para dizer que também tem carnaval de rua.
Deus tá vendo.
Mas esse ano o carnaval é em março e no frio fevereiro de Lisboa, meus los hermanos e hermanas, tem apenas o bloco do eu sozinho para desfilar como um triste pierrot.
E a vida sem monogamia, bigamia ou poligamia é uma monotonia para a imensa nação sem um mísero ficante para chamar de seu. E nem adianta voltar à agenda esquecida na gaveta ou no telefone para recorrer a um amor já passado, engomado e estendido no cabide.
Como diria o velho e sábio guru a coçar as barbas brancas: cromo repetido não completa o álbum.
Sem date, sem crush, o único match que sobra ao pugilista solitário de peito massacrado é o match-point, é o game over, fim de jogo, direto no queixo, knockout no clinch do amor.
E então, meu caro, minha cara, se querias beijar alguém.
Só resta a lona, o tapete do ringue, para beijar.
Imigrante, solteiro, procura um amor. Por isso, Lisboa, o solitário nos seus braços implora: quer namorar comigo? Pensa bem, Lisboa, antes de responder. Sei que é ano de eleição e a cabeça anda mais nas coisas da câmara do que na cama, mas, que tal votar nesse candidato aqui do partido do coração partido?
Esquece as chatices dos impostos e as contas do orçamento, deixa esta história de moedas de lado, pois dinheiro não traz felicidade.
Vem, menina-moça, olha para esse pobre moço com o mesmo desejo que o clepto-deputado olha para a mala na esteira do aeroporto. Dá-me um abraço apertado, jura que sou teu tutti-frutti e me arrenda um t1 como prova de amor.
E se você é luz, Lisboa, é também raio, estrela e luar, como no refrão do Wando, o Chico Buarque dos corações rafeiros e sem dono. Me chama de teu ia-iá, teu io-iô, Lisboa, me beija na boca, me ama no chão.
Mas sem violência, Lisboa, sem violência.
Não quero muito, Lisboa, não peço a tua mão nem um pouco do teu braço, apenas um bocadinho de proteção a esse maior abandonado bem em frente à porta da tua casa.
Mentiras sinceras me interessam, Lisboa.
Então vem, vamos ser felizes. Sei da nossa diferença de idade e outras bobagens. Deixa os preconceitos de lado, pois amor vincit omnia, o amor vence tudo, as coisas do coração não são claras, mas um eterno chiaroscuro, como nos quadros de Caravaggio.
E se é verdade que posso até não ser tão bem formoso, mesmo assim, namora comigo, Lisboa.
Afinal, se é para me encostar na parede, que seja pelo menos para me dar um beijo.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
