Não há nada de poético em viver na rua, mas a experiência de uma vida nem sempre restringe-se aos que estão protegidos por tetos e paredes. A realidade das pessoas em situação de sem-abrigo é a prova disso, um mundo que parte de dentro para fora de cada um e, livres de muros e cercas, percorre as ruas das cidades que muitas vezes lhes viram as costas.
Vivências agora materializadas na edição do livro de poesia Caderno de Rua, editado pela Poets & Painters, lançado em Lisboa a 31 de janeiro, na sede do coletivo criativo, na Rua do Olival, 206, em Alcântara. A edição está disponível para venda online no site da editora.
Uma ideia que de certo ponto lembra a iniciativa também inédita da Mensagem de Lisboa de abrir espaço para um sem-abrigo, Jorge Costa, escrever crónicas sobre a sua realidade e que também terminaram por ser publicadas em livro.

A edição de Caderno de Rua reúne poemas de 24 sem-abrigos, nove mulheres e 15 homens, de várias nacionalidades, habitantes das ruas de Lisboa e da Amadora. Portugueses, brasileiros, nepaleses e moçambicanos, entre outros, acolhidos pelos serviços de duas unidades de intervenção social, o Grupo Ativista em Tratamento (GAT) da Mouraria e o Espaço Ímpar- Crescer.
Eles que, por sua vez, aceitaram o convite de colaborar com três poetas – Inês, Rui e Diogo – portugueses oriundos do Algarve, Açores e Lisboa, unidos pelo mesmo ponto cardeal: o de parar, ouvir, conversar e desafiar os sem-abrigo a transformarem as suas experiências em poemas.
Uma ideia inspirada por um dos sem-abrigo do livro, Luís Celestino, um rosto conhecido pelos peões mais atentos que cruzam o Rossio e os Restauradores, sentado ao passeio, encostado na parede de um banco ou de um hotel, mas sempre com um livro à mão, pacificamente a ler, indiferente ao caos do vai e vem de transeuntes e o tráfego intenso na Baixa de Lisboa.
Celestino que, um dia, provocado em passar do papel de leitor ao de narrador de histórias, pegou numa caneta e folha em branco para virar o exemplo que batizou a iniciativa de transcrever os versos duros da vida dos sem-abrigo em poesia.
O Projeto Celestino.
Rui, o amigo de Celestino
Março de 2020. Era a terceira tentativa de Rui Sousa em trocar os Açores por Lisboa. Após duas passagens onde viveu por alguns meses a trabalhar na restauração, Rui estava decidido em levar em frente o sonho de viver de poesia. De escrever poesia e vendê-las na rua da capital.
O universo, porém, tinha outros planos, e o sonho de andar pelas ruas a vender poesia seria adiado pelo ponto-e-vírgula de um vírus.
“Duas semanas depois de chegar, foi decretado o primeiro confinamento por causa do Covid”, relembra o poeta açoriano, hoje com 46 anos.
As reservas económicas trazidas de Angra do Heroísmo ainda o ajudaram a passar o início do confinamento a salvo numa cama de um hostel, até os últimos cêntimos terminarem em meados de maio. Sem um teto, restava recorrer às ruas, ao relento, à sorte.

“Sinceramente, não sei se aguentaria viver na rua. Pensei em fazer uma direta, passar a noite em branco e, se calhar, descobrir se resistiria à experiência”, conta.
Não foi necessário.
Através de outras pessoas, Rui soube da existência de um centro de acolhimento para sem-abrigo organizado pelas autoridades portuguesas. Foi num pavilhão desportivo que, pela primeira vez, conviveu com pessoas sem um teto para morar. Não seria a última.
Dias depois, Rui foi transferido a um quarto privado, mantido pela Santa Casa da Misericórdia. “Um cómodo interno, sem janelas, com as mesmas medidas de uma cela. Mas foi a minha salvação por quatro anos”, relembra.
Ainda impedido de avançar com os planos de vender os seus poemas nas ruas e, portanto, sem dinheiro, Rui acabou por engrossar as filas de distribuição de alimentos, o último recurso não só para os sem-abrigo, mas para pessoas que, como ele próprio, “estavam a patinar na vida”.
A acomodação ficava na zona da Baixa lisboeta e a fila mais próxima, na vizinha Igreja de São Nicolau. Foi lá que o poeta açoriano voltou a conviver com os sem-abrigo. E que conheceu o futuro poeta das ruas, Celestino.

“Já o tinha visto sentado, a ler, ao pé dos Restauradores, e um dia meti conversa com o Celestino. Quando já o conhecia melhor, perguntei se além de ler, ele não gostava de escrever. Daí, ele respondeu-me: ó pá, sim, mas não tenho onde!”, lembra Rui.
Por essa altura, o confinamento já conhecia uma fase menos severa e Rui tinha começado a comercializar os seus poemas, às vezes, durante eventos públicos, como na primeira vez que a Mensagem o viu, no almoço de vizinhos no Príncipe Real. Com o dinheiro das vendas poéticas, comprou um caderno e algumas canetas e entregou-os ao Celestino.
Nascia ali a ideia que viraria um projeto e se transformaria num livro.
Inês, Diogo e os poetas de rua
Foi mais ou menos neste mesmo período que o percurso de Rui cruzou-se com o dos jovens poetas, Inês e Diogo, respetivamente com 28 e 25 anos, responsáveis por iniciativas poéticas em Lisboa, como o Poesia P’ra Todos.
O encontro entre os três deu-se por acaso, durante as diversas tertúlias poéticas em Lisboa, e foi ganhando contornos de uma parceria quando Rui relatou aos novos amigos a experiência vivida com Celestino.
“À época, pensava em repetir a iniciativa com outros sem-abrigo. Quem sabe, meter caderno e canetas no mesmo saco onde ia a comida e depois recolher o que havia sido escrito”, conta Rui, que assina o prefácio do livro.
A ideia parecia interessante, mas difícil de realizar.

Coube a Inês e Diogo tirarem do papel o projeto. “No início, o plano era realmente este, tanto que chegamos a imprimir blocos com os dizeres cadernos de rua nas capas. Mas logo, provou-se impossível de concretizar. Precisávamos de ajuda”, explica Diogo.
Ajuda que chegou por duas vias: primeiro, financeiramente, através de um fundo proveniente do Corpo Europeu de Solidariedade para o então Projeto Celestino; o segundo, de logística, por conta do GAT Mouraria e do Espaço Crescer, que intermediaram o contato com os sem-abrigos.
Na prática, durante um ano entre 2023 e 2024, Inês e Diogo reuniam-se uma ou duas vezes por mês nas instalações das entidades, em Lisboa e Amadora, para as atividades, que consistiam em conversar, ouvir e dinamizar a prática poética, através de técnicas de escrita coletiva e de microfone aberto.

O resultado?
“O Projeto Celestino não está interessado no conteúdo meramente estético da poesia. Houve uma curadoria para os textos no livro, mas não realizada através de um julgamento de validação poética”, explica Inês, que em 2016 trocou Portimão para ser poeta em Lisboa.
Diogo complementa, ao reforçar que o conceito utilizado no projeto era mais amplo.
“Tentamos abrir um espaço de escrita para a expansão de expressões e ideias mais livres de pessoas que, por uma contingência, vivem na rua. E acredito que conseguimos”, conclui.
Além dos textos, alguns de uma docilidade pungente, o livro Caderno de Rua conta com imagens das sessões e de excertos de poemas escritos a próprio punho pelos “poetas das ruas”.

E de tão rico, o Projeto Celestino estende-se a outras artes, como o cinema, com a produção da série de documentários a cargo do realizador João Meirinhos (cujas algumas das imagens ilustram o vídeo da Mensagem). Alguns dos episódios serão exibidos no lançamento desta sexta.
Cenas de vidas que podem até prescindir de um teto, mas são grandes o suficientes para preencherem as páginas e os ecrãs.

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Gratidão
Parabéns, obrigada por mostrarem que ninguém é invisível
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Olá, obrigado pela leitura. No site da editora: https://www.poetspainters.com/product/caderno-de-rua/