Depois de um período de castigo pós-revolução (que até podia ter matado o fado se não fossem artistas como Carlos do Carmo ou Mísia, que nunca desistiram de o cantar, e um menino-prodígio chamado Camané que gravou o primeiro disco aos 13 anos), é já na segunda metade dos anos noventa que começa a aparecer uma nova geração de fadistas, sobretudo mulheres, que dão a cara pela canção de Lisboa e são (finalmente) convidadas para aparecer na televisão.

Algumas nunca tinham cantado em casas de fado, como Mafalda Arnauth ou Maria Ana Bobone, que estudara piano no Conservatório; outras, pelo contrário, conheciam o fado desde novas (Joana Amendoeira ou Ana Sofia Varela) mas tiveram de esperar bastante tempo pelo primeiro álbum; outras ainda, como Cristina Branco, cantavam-no lá fora com sucesso mas demorariam a ser (re)conhecidas em Portugal.

Abriram, porém, caminho a uma das gerações de fadistas mais bem preparadas e talentosas de sempre e que, em boa parte, começou a carreira nos musicais de La Féria ou nas fantásticas “escolas” que foram o Senhor Vinho, o Clube de Fado e a Mesa de Frades, aperfeiçoando com os mestres o que já tinham de bom, quando não de excepcional.

Falo de Mariza, Katia Guerreiro, Ricardo Ribeiro, Ana Moura, Aldina Duarte, os manos Moutinho, Raquel Tavares ou Gisela João, todos eles excelentes intérpretes; uns tiveram direito a entrar no filme Fado, de Carlos Saura; outros fizeram capa de suplementos culturais; outros cantaram em locais míticos como o Piccolo Teatro di Milano; outros foram chamados a partilhar o palco com artistas de topo, como Prince; outros cantaram até para o Papa.

Tudo isto contribuiu certamente para que a UNESCO classificasse o Fado como Património Imaterial da Humanidade em 2011 e, de um momento para o outro, se enchessem as salas de concerto do País inteiro à custa do fado, se multiplicassem as tournées internacionais dos artistas, e os apreciadores voltassem a sentar-se nas casas de fado ou nos teatros para ouvir estes prodígios, escutar Júlio Resende tocar piano para a voz de Amália ou descobrir outros projectos interessantes, como o de Lina Rodrigues com o catalão Raul Refree.

Mas, quiçá forçados pelo público estrangeiro (que, sem perceber patavina das palavras, tem dificuldade em aguentar hora e meia de uma toada algo tristonha), alguém (os managers, presumo) se lembrou de juntar à guitarra e à viola novos instrumentos (desde teclados e sopros até à estridente bateria) e de emprestar à canção lisboeta ritmos africanos e árabes da actualidade, ou então um tom jazzístico ou de chanson française para que tudo se tornasse mais Word Music e chegasse a um público mais amplo.

Nada contra, mas… onde ficou o fado de que já quase não se ouve falar e que, em alguns dos seus melhores intérpretes, parece até ter desaparecido por completo do repertório? Será que, mesmo com a presença constante de Sara Correia nos ecrãs a mostrar o que vale, estará fora de moda?

Talvez Aldina Duarte, a nossa “intelectual” do fado, tenha pressentido este estado de coisas e esteja a salvaguardar a memória com o projecto Fado sem Fim, que dá vida e visibilidade aos novíssimos fadistas: entre outras acções, num álbum patrocinado pelo Museu do Fado, reúne as vozes de Tânia Oleiro, Francisco Salvação Barreto, Soraia Cardoso, José Geadas e Sara Paixão, como a dizer que, embora não os vejamos por aí como víamos a geração precedente, estes nomes merecem sem dúvida ficar registados na história desta arte singular que, afectada desde sempre por altos e baixos, voltará de certeza um dia destes à mó de cima. Ou não se chamasse fado.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.


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