Sabia que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem no seu arquivo histórico cerca de cinco quilómetros de documentação que remonta até ao século XVI? Nesse arquivo, moram alguns livros raros de Luís de Camões, escondido – até agora – aos olhos de quase todos. São documentos vivos que evocam a importância do poeta português cujos 500 anos se comemoram agora. De exemplares de sonetos, até Os Lusíadas.

Agora, as páginas amareladas dos livros da autoria do poeta português nascido em 1524 – em parte incerta, mas cuja vida passou muito por Lisboa – estão expostas na biblioteca da SCML que abriu visitas ao público, excepcionalmente.  

Onde é que encontraram este “tesouro”?

São oito tesouros. 

Contam-se quatro volumes, de anos diferentes, que fazem parte de uma compilação de sonetos, rimas e poemas heroicos do poeta português, o Príncipe dos Poetas de Hespanha. Desta obra, há ainda uma edição repetida do 2.º tomo, uma de 1779 e outra de 1783.

Mas não se fica por aí. Desta pequena “arca de tesouro” fazem parte 3 livros escritos em francês, uma tradução d’Os Lusíadas feita por Duperron de Castera, um tradutor francês do século XVIII.

Aos 7 livros mencionados, junta-se ainda o 3.º tomo dos Príncipe dos Poetas Portugueses, onde se pode ler o famoso poema “Aquela cativa” de Luís de Camões.

E como é que estes oito exemplares, ou, melhor dizendo, oito tesouros, chegaram até aqui? Como é que se mantiveram intactos ao longo dos séculos? 

Francisco D’Orey Manoel, o responsável pelo arquivo histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, explica que as suas origens são variadas. A SCML tem uma missão também a nível educativo e cultural. “Ao longo da história tem sido esse sempre o objetivo. Ajudar as pessoas e também dar-lhes ensino, dar bom conselho ou ensinar os simples, e também educar as crianças.”

Foto: Catarina Ferreira

E foi por acreditarem nessa missão e a partilharem que muitos doaram os seus bens à SCML, que ficou responsável pela preservação e tratamento. Têm o nome de benemerências. Desde pertences de reis, de nobres, uns com mais posses e outros com menos, como explica Francisco D’Orey. Alguns deles, só mais recentemente foram adicionados ao arquivo histórico da instituição. 

“A sua aquisição, muitas vezes, foi feita ao longo dos séculos, não sabemos exatamente quando. Mas há alguns que têm marcas de posse, como este, de Martiniano Ernesto Serpa. Ou este aqui também, de um João Pires Coelho. São pessoas que entregam, não só verbas em dinheiro, mas também a sua casa, a sua propriedade, os seus bens e com eles as suas bibliotecas.”

Francisco d’Orey mostra os muitos documentos guardados na SCML. Foto: Catarina Ferreira

A SCML fica responsável pelo estudo, preservação e divulgação da documentação. Através de catálogos online, passa a ser possível que quem esteja em Coimbra, ou até mesmo em Paris, como explica Francisco D’Orey Manoel, tenha acesso às obras presentes no arquivo histórico.

Selos, pinturas, jornais e muito mais…

Nesta exposição dedicada a Camões há livros de sonetos, de rimas, poemas heróicos, ou os famosos Os Lusíadas – editados em 1572 – com datas de 1779 ou 1780. Pequenas cápsulas no tempo que permitem recuar nele. Nesta mostra, a Biblioteca da SCML quis também fazer uma espécie de tunel no tempo de livros ligados à comemoração. Por isso foram selecionados estudos musicológicos que interpretam Camões, até a edições de Os Lusíadas mais recentes, mas que contam com comentários adicionais, ilustrações e até mesmo contos da escritora portuguesa Lídia Jorge. 

Numa vitrine, um conjunto de recortes e selos coloridos alinhados. Poderiam ser excertos de jornais que pertenceram a fãs de Beatles ou de Queen, com as últimas notícias de algumas das bandas de rock mais famosas da história. São algo parecido, muito tempo antes. São recortes de admiradores de Camões, que fizeram questão de preservar, nas suas coleções pessoais, objetos sobre as obras e a vida do poeta. 

Lê-se  na entrada de uma das notícias recortadas: “A inquietação não podia deixar de ser o signo sob o qual Camões veio ao Mundo. E tão obsessiva que nem na morte encontraram repouso os seus ossos”.  Este texto, que fala sobre a sepultura de Camões, veio do Correio do Rio de Janeiro, o primeiro jornal brasileiro a ser publicado diariamente.

O texto, de 1983, fazia parte do arquivo familiar Benito Maçãs, cuja preservação e recolha de informação e documentação para espólio estava ao encargo de Delmira Maçãs. A benemérita viria a eleger a SCML como sua herdeira universal, aquando da sua morte em 2007.

Estas ofertas de coleções pessoais dedicadas a Camões, que vão para lá dos livros, fazem parte do arquivo particular dos beneméritos, tal como o desenho de Camões feito por Rodrigues Alves, ou o bilhete de lotaria comemorativa d’Os Lusíadas recente, de 1991.

Estas peças expostas não são as únicas no arquivo da Santa Casa. “Temos aqui vários quilómetros de estantes com documentação antiga que a Misericórdia preserva”, diz, orgulhoso, Francisco. E explica como estes objetos estão recuperados e prontos para serem expostos a qualquer momento, devido ao investimento permanente “na recolha, no tratamento e na preservação de todo este espólio.”.

O arquivo é uma espécie de gruta secreta onde se pode encontrar documentação que remonta ao início da tipografia – os Incunábulos -, até ao livro antigo, como aqueles apresentados nesta exposição. Tesouros dentro de tesouros.


Mariana Vital

Alfacinha de gema, criada no elétrico 28, foi nas ruas onde cresceu e através das pessoas que a cidade lhe foi dando a conhecer que descobriu a paixão por contar histórias. É através da palavra – lida, escrita, falada ou cantada – que chega, por esses carris fora, à sua paragem. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

3 Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *