De segunda a sexta, ainda mal se avista a luz do sol e são já centenas as pessoas que, num vai e vem apressado, formam filas ao longo de uma das laterais do Parque Eduardo VII, no Marquês de Pombal. É aqui que que muitos dos que trabalham nos vários concelhos do distrito de Lisboa enfrentam o seu primeiro obstáculo do dia, à espera dos autocarros no terminal rodoviário da Carris Metropolitana de Lisboa, na esperança de conseguir embarcar.
Quem passa perto deste terminal da Carris Metropolitana em horas de pouco movimento, dificilmente se apercebe que este é, efetivamente, um terminal rodoviário, o do Marquês de Pombal. Disfarçado de paragens de autocarro “normais”, como as que se encontram por todo o concelho de Lisboa. Até porque as condições em nada se assemelham às de outros, nomeadamente o do Colégio Militar, junto ao Colombo ou ao Campo Grande, de onde partem rotas semelhantes.
Os treze autocarros com diferentes destinos que aqui recolhem os passageiros são servidos por apenas sete paragens, e pequenas. Embora tenham sido recentemente sujeitas a obras de melhoria, não houve mudanças de tamanho ou de assentos. Pelo contrário: receberam os novos bancos da JCDecaux que já tanta polémica levantaram. “Fizeram alterações há pouco, mas os problemas continuam exatamente os mesmos”, é a queixa regular dos passageiros.
Durante as últimas semanas, o mau tempo não tem dado tréguas e deixa em evidência os a falta de infraestruturas adequadas à afluência destas paragens. Embora esta seja uma zona de árvores altas, que protegem com sombra quem aqui se encontra em manhãs quentes de verão, em dias de chuva fica- se completamente desprotegido.
Rui Salvador chega por volta das 7h para apanhar o autocarro das 7h20 até
Queijas. Espera invariavelmente em pé, já a meio da fila que se formou. É evidente que o espaço é escasso. E embora não saiba bem qual a solução, Rui entende o que qualquer leigo vê: “Para o número de pessoas que aqui estão, as paragens não são adequadas, principalmente quando chove bastante.”

“Precisamos de um toldo, de uma proteção maior em vez das habituais paragens. Se não for possível, é preferível mover o espaço para outra zona”, aponta outra passageira, Carolina.
Nas novas paragens deste “terminal”, há apenas sete bancos metalizados, sem qualquer encosto, onde se sentam, no máximo, três pessoas em cada. “Não se pode fazer as coisas só porque é bonito, tem de se fazer par estarem aptas para o cidadão”, diz Carolina, que refere as condições a que são submetidas as pessoas com problemas de mobilidade, com deficiências e as crianças.
A dois passos das paragens, alguns passageiros vencidos pelo cansaço sentam-se num dos quatro banquinhos de jardim, ainda assim molhados pela chuva que caiu toda a madrugada. Sentados, mas sempre inquietos, levantam-se a todo os minutos para averiguar se o autocarro já lá vem a rasgar a curva.
Nova Carris, velhos problemas
Não é apenas a falta de condições das paragens de que as pessoas se queixam. Numa manhã habitual de quinta feira, o ponteiro do relógio marcava já 7h44 quando chegou o autocarro que deveria ter partido, de acordo com o horário afixado num dos vidros da paragem, às 7h20. Esses 20 minutos de atraso podem significar muito na vida dos que trabalham ou frequentam as aulas longe. E sendo esta uma estação inicial, os atrasos não parecem justificáveis.
Das 13 carreiras com diferentes destinos que partem deste terminal, é a 1733, com sentido São Marcos, Sintra, aquela que mais faz ecoar os suspiros de frustração. Este é um dos autocarros mais concorridos da manhã, aquele que muitas dezenas de pessoas esperam, impacientes, que chegue dentro da hora prevista – e que muitas vezes, ou não conseguem apanhar, ou têm de ir de pé.
Com os atrasos vem outro problema: os horários destas carreiras são insuficientes para fazer face ao número de pessoas. Das mais de cinco dezenas de pessoas que aguardavam, cerca de um terço seguiu em pé, carregada com sacos e mochilas, para percorrer os dezanove quilómetros, alguns deles em autoestrada, que separam o início e o fim desta viagem.
Rui Salvador, utente, explica: “Além de os autocarros não serem suficientes, o tempo que demora de um a outro é muito elevado”, diz. Em plena hora de ponta, o tempo de espera na melhor das hipóteses é de 35 minutos, isso caso sejam respeitados os horários afixados.
Sofia diz partir deste terminal cinco dias por semana, há dois anos. Após fazer a viagem em pé, nunca mais arriscou chegar depois das 6h45, para apanhar o autocarro das 7h20. Se tiver sorte, consegue até aguardar sentada, no pequeno banco de metal que serve a paragem. Muitas vezes acaba a esperar mais de um hora por causa dos atrasos.
Desde 2023, as antigas marcas de transportes como a Vimeca e a Transportes Sul do Tejo foram substituídas pela Carris Metropolitana a marca integrada dos transportes da Área Metropolitana de Lisboa – embora continuem a ser elas a operar por detrás daquela marca. Prometia-se, a par da renovação da frota de autocarros e da instalação de duas mil novas paragens e o aumento da eficiência dos transportes rodoviários em Lisboa.
A Transportes Metropolitanos de Lisboa, garantiu que seria feito o controlo e posterior penalização da não pontualidade dos operadores de serviço de transportes. Mas para quem espera e desespera, diariamente, pela chegada dos autocarros, a exigência no controlo está longe de ser suficiente.

Durante algum tempo, o serviço foi mesmo caótico, quando a Vimeca – que até então detinha o serviço de transportes de muitas destas carreiras – foi substituída. Mas depois era suposto melhorar.
“Durante muitos meses o serviço ficou pior e o caos ainda cá continua”, conta Sofia.
Sofia diz ter-se perdido um serviço fundamental que tornava mais organizado e pontual o serviço de transportes: a Vimeca disponibilizava um gestor de frota. “Nós viamo-lo diariamente a fazer esse trabalho”, lembra Sofia, ressaltando que o gestor de frota garantia que os condutores estavam à hora certa nas paragens, que verificava que tudo se desenrolava conforme o previsto, chegando mesmo a telefonar para a central para resolver falhas e incumprimentos de forma imediata.
Sofia já fez várias diligências para obter respostas, mas sempre em vão. Relatou os atrasos e a falta de autocarros, através do número de apoio ao cliente da Carris Metropolitana. A resposta é lenta. Após contacto telefónico, o cliente recebe no email uma mensagem a indicar que a situação reportada será analisada. Contudo, o aviso final é desanimador: “O elevado fluxo de mensagens pode implicar uma resposta mais tardia”. Para Sofia, contactar a Carris Metropolitana é um beco sem saída. “Tentei inúmeras vezes o número que a Carris disponibiliza e é um dead end.”
À semelhança de Sofia, muitos outros passageiros expressam a sua insatisfação através dos comentários que se vão multiplicando no Portal da Queixa.
A Mensagem de Lisboa fez várias tentativas de contacto aos Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML), de forma a pedir esclarecimentos sobre a atuação perante o incumprimento dos horários dos autocarros, mas todas sem respostas.
Soluções para o Marquês de Pombal exigem pouco investimento
Muito embora outros terminais de Lisboa estejam longe de cumprir todas as necessidades de quem ali aguarda, a infraestrutura envolvente está mais adequada ao fluxo de passageiros.
No terminal do Colombo há bancos de madeira, com assento e encosto, protegidos pela estrutura de largos metros, em altura e comprimento, que permite o total abrigo da chuva e do sol. Há ainda um pequeno quiosque com mesas e cadeiras que proporciona a quem aguarda pelo autocarro comprar água ou comida, situação semelhante no Campo Grande. Em Sete Rios há todo um pavilhão.

Mário Alves, especialista em mobilidade e transportes explica que não apostar na melhoria das condições dos transportes públicos e das estruturas que os servem tem outras consequências. “Os transportes públicos têm de ser extremamente confortáveis e extremamente atraentes para as pessoas usarem. Porque se não, elas preferem andar de carro e isso é desastroso para a mobilidade em Lisboa.”
Segundo o especialista, uma solução simples e que não exige grande investimento seria a implementação de outro tipo de abrigo, mais completo, com maior número de bancos disponíveis para quem espera pelo autocarro.

Mário cita soluções encontradas noutros pontos da cidade de Lisboa, como no terminal rodoviário do Campo das Cebolas, junto ao Largo José Saramago, que, na sua opinião, cumpre o básico. “Ali há abrigos em betão que são grandes e corridos. Acho que no Parque Eduardo VII, seria interessante algo desse género”, aponta.
Outra melhoria rápida seria colocar em funcionamento o quiosque do parque junto ao terminal, atualmente sem operação.

Em 2023, a EMEL executou um projecto que procurou, precisamente, encontrar medidas que pudessem responder a necessidades e resolver problemas em cinco grandes terminais rodoviários de Lisboa. O projeto Restart contou com a participação de mais de 3 mil pessoas e de 40 entidades distintas, que manifestaram as suas opiniões e deram sugestões acerca de possíveis melhorias facilmente aplicáveis a outros terminais, como o do Parque Eduardo VII.
Apesar de concluído, o projeto continua no papel e ainda não houve qualquer avanço para um possível investimento, estando, de acordo com a Câmara Municipal de Lisboa, em fase de análise.
Questionada ainda sobre a sua competência na intervenção da infraestrutura do terminal no Parque Eduardo VII, a Câmara apenas referiu que “as questões sobre a operação da Carris Metropolitana não são da alçada da CML”. As paragens, no entanto, são da CML – tal como mostram os desenhos nos vidros. Mas sobre esse assunto, nenhuma resposta.
*Este texto foi editado por Álvaro Filho

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Boa noite, agradeço pelo artigo mas como leitor, senti-me mais desinformado que o contrario. Há algumas coisas que gostaria de deixar nota:
O terminal “Colombo”, vulgo Colégio Militar, situa-se na Avenida do Colégio Militar, dando-lhe esse nome e não a Estrada da Luz.
Seguidamente, a Carris Metropolitana não se trata de um operador mas sim de uma marca. Os operadores são virtualmente os mesmos (tirando a área 4) e não mudaram sendo que a Vimeca apenas se fundiu com a Scotturb dando origem à Viação Alvorada.
Para finalizar, no contrato publico da TML, nunca foi enquadrada a responsabilidade das paragens e terminais, estando delegadas aos municípios.
Tenho em excelente consideração A Mensagem mas exige-se rigor.