No ano passado foi publicado, com edição de Luís Manuel Gaspar, o primeiro volume dos Poemas, de Pedro Homem de Mello, escritos entre 1934 e 1961. Fazia muita falta, e é uma alegria podermos agora ler sem ter de procurar em alfarrabistas muitas das poesias que amamos, algumas aprendidas de cor através de fados que Amália Rodrigues tornou inesquecíveis, como Povo Que Lavas no Rio, O Rapaz da Camisola Verde ou Fria Claridade.
É, porém, curioso que este livro tenha saído justamente em 2023, ano do centenário do nascimento de um outro poeta que não quis de certeza ter nada a ver com a nossa fadista. Em primeiro lugar, porque, como me contou há anos certa professora da Faculdade de Letras que o conhecia bem, Eugénio detestava mulheres que se maquilhavam e, quando tinha de falar com uma delas, baixava os olhos para não ter de enfrentar o seu rosto pintado; em segundo lugar, porque numa circunstância em que Eugénio e Amália estavam na mesma sala, a diva – certamente com blush, rímel e batom – chegou bem para ele. Quem o conta é Fernando Dacosta em Amália: A Ressurreição.
Lembram-se das Presidências Abertas de Mário Soares? Uma espécie de campanha já com as eleições ganhas, em que o então Presidente da República deixava a capital por uns dias e, de comitiva atrás, corria o País, apalpando terreno, auscultando os desejos e as queixas do seu povo e reconhecendo, em vilas ou cidades, quem fazia de facto a diferença?
Pois foi exactamente neste âmbito que a certa altura escolheu a cidade de Viana do Castelo como destino e a elegeu, entre outras coisas, para uma evocação do poeta Pedro Homem de Mello (lembram-se do fado Havemos de Ir a Viana, certo?). E Amália foi convidada para participar dessa Presidência Aberta, viajando na comitiva do Presidente.
Eugénio de Andrade fora o escolhido para fazer o discurso de homenagem ao seu confrade, e Amália já devia embirrar com ele: os dois tinham-se, por assim dizer, incompatibilizado na altura do funeral de Homem de Mello, quando Eugénio chamara “grande poeta menor” ao falecido, tendo a fadista comentado aos microfones da RTP que não conseguia perceber como alguém podia ser “grande” e “menor” ao mesmo tempo.
Mas Eugénio conseguiu fazer pior em Viana do Castelo; e, mesmo com os pedidos expressos dos assessores do Presidente para omitir certas partes do seu discurso, recusou-se a mudar uma vírgula, devassando publicamente a vida privada de Homem de Mello e deixando a sala inteira muda e embaraçada com os comentários escusados sobre a vida sexual do homenageado e as suas opções políticas.
Porém, se ninguém o aplaudiu, o que já quer dizer alguma coisa, a única voz que se levantou na audiência foi a de uma Amália Rodrigues, que vociferou completamente escandalizada:
– Isto não é uma homenagem, é uma anti-homenagem!
E não só saiu da sala perante o espanto de todos, como decidiu abandonar aprópria Presidência Aberta e voltar para casa.
Ah, fadista!

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