Lisboa Bela
Foto: Rita Ansone

Os azulejos que faltam nas fachadas dos prédios; o puzzle de paralelos da calçada portuguesa, avesso à elegância do tacão alto; as desajeitadas ruas estreitas e oblíquas; Alfama extraordinariamente labiríntica; a extenuante subida ao Castelo que serve de treino a aspirantes da escalada na bela Lisboa; o dramatismo das ruínas do Convento do Carmo severamente danificado no terramoto de Lisboa de 1755 e que nunca foi totalmente reconstruído; o desconforto dos assentos apertados do velhinho Elétrico 28; a roupa nos estendais em varandas e janelas, acusada de descaracterizar as fachadas; a dupla toponímia das ruas da baixa pombalina, exímia na arte do baralhar-e-dar-de-novo, como a Rua dos Fanqueiros que é também Rua Nova da Princeza, a Rua da Prata que é também Rua Bella da Raynha ou a Rua Áurea a que todos chamam Rua do Ouro, as castanhas assadas que nos deixam os dedos sujos do carvão, o velhote na fachada d’A Brasileira do Chiado, feio e desdentado…

Em Lisboa ou fora dela, quantos de nós já bebericámos um chá numa chávena lascada e fissurada que era do serviço do enxoval de casamento da nossa avó e que usamos apenas em ocasiões especiais porque as estimamos pela sua história? Quantos poetas escreveram sobre o caos, como Fernando Pessoa que se reconhecia nele e que quanto mais se encontrava, mais no caos assumia perder-se? Quantos rabiscos guardamos dos nossos filhos, desenhos indecifráveis, mas cheios de significado para nós? Quantos livros guardam apontamentos escritos a carvão ou tinta, fruto de interpretações e sensações momentâneas? Quantos portões ferrugentos abriram as portas ao amor? Quantas mesas de madeira tosca foram ponto de encontro de famílias, palco de acesas discussões, refeições demoradas, gargalhadas e revelações íntimas? Quantas ruas de piso irregular e paredes grafitadas testemunharam um primeiro beijo, um abraço apertado, dedos entrelaçados, uma troca de olhares furtiva?

Estes objetos e cenários aparentemente imperfeitos são perfeitos porque são reais. É a sua autenticidade e a história que carregam que os valoriza com um charme que advém da idade e do desgaste natural. As marcas que apresentam atestam que foram usados, usufruídos, apreciados e vividos. São cicatrizes do tempo. Condecorações.

Miradouro São Pedro de Alcântara turistas
Visão de Lisboa do Miradouro de São Pedro de Alcântara. Foto: Inês Leote.

Saber apreciar a beleza num mundo naturalmente imperfeito é uma arte. Nem tudo tem de ter dourados e volutas para ser belo e monumental. Apreciaríamos melhor as fachadas dos edifícios da cidade se os painéis de azulejos estivessem completos? Amaríamos mais a nossa cidade se as ruas nos facilitassem o uso de tacão alto? Preferiríamos ruas largas desenhadas a régua e esquadro? Confortar-nos-ia um elevador para subir à torre de menagem do Castelo de S. Jorge? Rezaríamos mais militantemente no Convento do Carmo com o teto a proteger- nos a cabeça da chuva?

E se o velhinho Elétrico 28 fosse, afinal, novo, e tivesse assentos espaçosos e acolchoados com acabamentos em veludo? Se Lisboa não tivesse roupa nos estendais em varandas e janelas nem dupla toponímia nas ruas da baixa, que Lisboa seria esta? As castanhas assadas teriam o mesmo sabor se não nos sujassem os dedos de carvão? E se o velhote na fachada d’A Brasileira do Chiado fosse um jovem aristocrata sisudo de bigode de pontas enroladas e dedo mindinho airosamente levantado, enquanto pega na chávena para beber a sua bica?

Quando olhamos para a cidade para lá do óbvio ganhamos a capacidade e o privilégio de a ver como alguém que a conhece pela primeira vez. E nesse momento vemos coisas que nos espantam. Sentimos coisas que nunca sentimos. Arriscamo-nos a encontrar uma bela Lisboa na imperfeição, nas coisas impermanentes e incompletas. Rasgamos a monotonia e a estagnação do mundo perfeito e valorizamos o que é simples, mundano e comum. Varremos os pontos de interrogação desdenhosos para dar espaço e uso a pontos de exclamação convictos.

Que linda é a tapeçaria cerâmica de azulejos incompleta das fachadas! Quão desafiantes são os paralelos da calçada portuguesa para os meus sapatos de tacão alto que eu tanto gosto de contrariar! Que pitorescas são as ruas estreitinhas e oblíquas, tão alfacinhas quanto a labiríntica Alfama e a subida íngreme até ao Castelo! Quão majestosas são ruínas do Convento do Carmo e que viagem no tempo nos oferece o velhinho 28, muito para lá das distâncias!

Quanto de uma bela Lisboa vemos pendurada nos estendais em varandas e janelas da cidade! Quão enigmática consegue ser a dupla toponímia das ruas da baixa pombalina, quão delicioso é saborear uma dezena de castanhas assadas enquanto se contemplam as luzes da cidade e quão imprevisível é o velhote na fachada d’A Brasileira do Chiado, de ar jocoso e feliz!

Nada é absoluto. Nada é permanente. Nada é perfeito. Esta Lisboa que se renova continuamente, mas que insiste em manter as suas rugas e arestas, estrias e ferrugem, é autenticamente bela e mais que perfeitamente imperfeita. É o produto da sua história, e liberta das amarras da perfeição. 

Ela é, afinal, presente-perfeito e gerúndio.


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Sónia Santiago

Depois de anos no marketing de duas multinacionais — Navigator Company e Roca — percebi que o que realmente me movia são as marcas com história. Hoje sou Diretora de Marketing do Grupo O Valor do Tempo, onde lidero a comunicação de 13 marcas que têm em comum a mesma missão: contar a História de Portugal de forma autêntica, original e com elevação.

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2 Comments

  1. Ler sobre esta Lisboa presente-perfeito, gerúndio, transporta-me, vivendo agora a 7.000kms de distância, para aquela Lisboa dacadente e suja, porém sempre laboriosa e vibrante, que frequentei nos anos 70-80 do século passado. Mas que contraste. Muito obrigado @soniafelgueiras por teres permitido, através do teu relato, essa viagem no tempo e no espaço.

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