Nos corredores um tanto peculiares do centro comercial Columbia, no Campo Pequeno, a oficina envidraçada de Leonel Verdasca não esconde a quem passa o que ali faz. Só com algum esforço é possível vislumbrar a cor das prateleiras que, até ao teto, servem de expositor para as centenas de máquinas fotográficas, ou de partes delas, que ali aguardam por Leonel para que lhes seja dada vida novamente.

Os acasos e as circunstâncias do mundo, como o próprio define, colocaram no seu caminho a possibilidade de se fazer mestre desta arte, ainda menino. Aos 14 anos, sete anos após ter deixado a sua terra natal, Ourém, para viver em Luanda, onde o seu pai trabalhava como jardineiro do Governo-Geral de Angola, Leonel decidiu procurar uma profissão para se ocupar enquanto estudava. À época, operava na cidade uma empresa com uma vasta secção de eletrónica e o seu pai encaminhou-o para que aí começasse a trabalhar.

As opções eram poucas e, portanto, Leonel “aceitou naturalmente” o que seria o seu futuro na área do arranjo de rádios e outros equipamentos eletrónicos. Mas era o que se fazia ali bem próximo dele, numa sala vizinha, que prendia a sua atenção.

“Havia um mundo à parte, que era o da fotografia. Despertou-me logo um certo interesse. Encantava-me. Todos os jovens da empresa queriam ir para aquela secção”, recorda o reparador de máquinas fotográficas.

Ao fim de apenas alguns meses, surgiu a oportunidade que viria a ditar a sua vida, embora ainda não o soubesse. “Eu tinha entrado há muito pouco tempo na empresa. Estivemos num pequeno treino de afinações de máquinas fotográficas, de telémetros e dessas coisas. E depois houve uma seleção. E aconteceu ser eu. E eu queria que fosse eu. Na altura todos queriam, não é?”, conta.

Leonel em frente à oficina que mantém num centro comercial no Campo Pequeno. Foto: Inês Leote.

A perspicácia das mãos e da mente, motivada, talvez, por uma infância carregada de engenhocas que o seu pai o incentivava a contruir com o irmão, na quinta onde viviam, permitiu a Leonel destacar-se na prova de manuseamento de material fotográfico e foi a isso que se dedicou o resto da sua vida.

“O meu pai era muito empreendedor. Habituou- nos a fazer tudo. Até a fazer coisas de construção. Desde galinheiros a eletricidade”, relembra com orgulho.

Um reparador de máquinas zen

Durante os 55 anos que distam do dia de hoje no Campo Pequeno ao seu primeiro dia na secção de fotografia da empresa em Luanda, passou pelas suas mãos um número incalculável de máquinas, de todas as marcas e feitios, analógicas e digitais. Recordá-las a todas seria um exercício de memória impossível, mas há algumas que não esquece.

Na sala de entrada da sua oficina, Leonel traz à mesa uma máquina fotográfica antiga, deixada por um cliente há alguns dias. Esta, diz, foi um dos primeiros modelos com os quais aprendeu a trabalhar.

“Esta máquina é uma Yashica Electro 35. É uma máquina de rolo espetacular e foi a primeira no mundo a ter um circuito eletrónico”, explica.

Com um engenheiro japonês, Leonel aprendeu uma qualidade fundamental no seu ofício no Campo Pequeno: a paciência. Foto: Inês Leote.

A Yashica é, por vários motivos, uma marca que acompanhará para sempre o percurso de Leonel. Não só porque ofereceu ao mundo uma imensidão de material fotográfico de qualidade, com o qual atualmente ainda trabalha na oficina no Campo Pequeno, mas porque lhe deu, de certa forma, a possibilidade de este se tornar o seu mundo.

O ano era 1969 e do Japão havia sido enviado, pela marca japonesa Yashica, um engenheiro especializado na área, para formar os trabalhadores em Angola. De nome Hiromi Sako, com os seus ensinamentos Leonel aprendeu muito para além da técnica.

“Ensinou-me a paciência. Ele tinha uma paciência excecional. Se algo corria mal, se estragássemos alguma coisa, nada de ralhar, de fazer confusão, de ficar exaltado”, diz.

Com o mestre Hiromi Sako, Leonel acabou por travar uma relação de amizade que se manteve mesmo após regressar para Portugal, na sequência da Independência de Angola. Jovem adulto, chegado a Lisboa com a sua namorada da época, e atual mulher, Leonel começou a fazer aquilo que de melhor sabia.

Do Bairro Alto para as páginas dos jornais

No Bairro Alto, trabalhou por um breve período num escritório nas Escadinhas do Duque, antes mesmo de passar pela Rodrigo Sampaio e pelo Largo do Mastro. Foi durante esse período, e através da loja de fotografia da família Ferrari, que se deu a conhecer e começou a conquistar clientela.

“Conheci fotógrafos do Diário de Notícias, do Diário Popular, do Avante, do Portugal Aí, do Portugal Hoje… daí comecei a trabalhar e nunca me faltou trabalho, nunca mais parei”, conta.

Por essa altura, procurava um espaço onde pudesse instalar-se permanentemente, mas com a instabilidade dos pós 25 de abril, essa tarefa tornou-se difícil. Quando surgiu a oportunidade de ficar na Avenida Júlio Dinis, na mesma rua onde ainda hoje se encontra, Leonel decidiu agarrá-la. “Vim parar a esta rua e fiquei aqui a vida inteira. Estou aqui há 45 anos, quase 46”, conta.

Foi já a trabalhar nesta pequena rua no Campo Pequeno que casou, que viu as suas duas filhas nascer, crescer e voar para outras paragens. Embora nenhuma tenha aprendido a mestria do pai, desta profissão herdaram a possibilidade de estudar e de ter oportunidades que Leonel não teve. “Ganhei toda a minha vida aqui. As minhas filhas puderam estudar por isso. Dei tudo aquilo que pude”, constata.

Foi também nesta rua que reencontrou o mestre Hiromi Sako, que ali ficou com ele durante mais de um ano, a trabalhar. “Devido a problemas políticos teve de fugir de Angola. Veio para Lisboa e esteve durante cerca de um ano comigo. Ainda tenho agendas escritas por ele”, relembra. “Depois foi para o Japão e perdi-lhe o rasto. Já tentei encontrá-lo, mas não consegui. Se for vivo, tem 90 e tal anos. É possível que sim. Os japoneses duram muito tempo”, conclui, rindo.

Durante as mais de cinco décadas de profissão, Leonel nunca pensou mudar de ofício. “Nunca tive necessidade de pensar nisso. Sou muito estável. Mesmo em situações complicadas, penso sempre que vou seguir em frente para conseguir sobreviver às crises. Quando foi a altura da mudança para o digital, pensei que poderia ter dificuldades. Mas não. Felizmente, adaptei-me bem e continuo a ter muito trabalho”, reflete

Aos 70 anos e ainda muito trabalho por fazer

Esse “muito trabalho”, aliás, Leonel diz ter aumentado significativamente nos últimos 10 anos. Apesar disso, recusar arranjos é algo que raramente se atreve a fazer.
“Mesmo se tiver imensa coisa pela frente para fazer, tento resolver. Nunca digo que não”, conta. Nas cerca de 10 a 12 horas diárias que passa na sua oficina no Campo Pequeno, acredita conseguir encaixar sempre mais algum serviço. A semana de trabalho chega mesmo a estender-se ao fim de semana, embora o domingo já seja uma exceção.

“No inverno, ao sábado, normalmente trabalho. Ao domingo, às vezes. Mas por sistema, não. Já é demais. A minha mulher já se chateou muito com isso, agora já se habituou”, confessa.

Leonel não consegue precisar quantas máquinas fotográficas já reparou. E ainda continuam a chegar mais e mais. Foto: Inês Leote.

Na verdade as horas passam sem que dê conta. “Se estiver muito concentrado, não tenho a noção que passou uma manhã, uma tarde. Perde-se a noção completamente”, diz.

Por vezes as mazelas do ofício recaem sobre o corpo cansado, por vezes exausto, de quem se senta curvado por largas horas, a montar e a desmontar peças, algumas quase microscópicas que, embora admita ter uma excelente vista, pregam partidas aos olhos. “A trabalhar com estas peças afiadas, já furei as mãos muitas vezes. Reparar é muito exigente. As pessoas não têm noção. Muitas vezes é preciso montar e desmontar uma coisa duas e três vezes. Uma máquina são milhentas coisinhas”, explica.

Talvez por esse motivo, nenhum dos aprendizes que teve consigo ao longo dos anos se tenha mantido na profissão. “Infelizmente acho que já desistiram todas. Esta ciência precisa de estofo. Exige muita dedicação. Tem de se estar fechado, sozinho…”, conclui.

A Leonel, a solidão nunca o incomodou. Durante as horas que passa embrenhado nos arranjos, paira no ar o silêncio, interrompido ocasionalmente pelos sons das ferramentas a pousar na mesa ou pelo clique dos botões das máquinas. Em tempos idos fazia-se acompanhar de uma rádio ou de noticiários televisivos, mas atualmente já se desfez de tudo isso. “Acho que me perturba. As notícias são terríveis. Este mundo está terrível. Prefiro o silêncio”, reitera.

Paixão pelas viagens e pelo Benfica

Hoje com 70 anos, e apesar das dificuldades inerentes ao ofício, não pensa reformar- se no futuro próximo. “Vou continuar até poder”, garante. No entretanto, vai ocupando os seus escassos tempos livres com as suas outras paixões: as viagens e o Benfica.

Leonel tem, aliás, um ritual bastante particular que evidencia a paixão que nutre pelo seu clube de futebol. Em dias de jogo “em casa”, não falha a sagrada caminhada, de cerca de quatro quilómetros, desde o Campo Pequeno, onde também mora, até ao Estádio da Luz.

Apesar do constante trabalho, Leonel não perde o foco nas suas duas grandes paixões, viajar e o Benfica. Foto: Inês Leote.

“É algo que gosto de fazer. Em passo rápido, são à volta de cinquenta minutos do Campo Pequeno à Luz”, conta. Mas, e apesar da fieldade ao Benfica, garante não se deixar afetar por clubismos e ser amigo de toda a gente. “Não me chateio por isso. Sou aquele que parabeniza os outros clubes quando ganham”, conclui.

Quanto às viagens, essas são uma das melhores formas de passar tempo com a família que ama e de que tanto se orgulha. É nessas viagens familiares que dá uso a algumas das máquinas fotográficas que foi colecionando ao longo dos anos e com as quais alimenta o seu hobby como fotógrafo.

Alguma dessas máquinas, decerto, há ainda de fotografar e testemunhar para sempre as paisagens japonesas num qualquer destes dias. Ainda não sabe quando, mas tem a certeza que o fará. “Enquanto cá estiver, vou visitar o Japão”, promete. Experimentar a cultura que provou ao longo da vida através do contacto com a técnica japonesa e com o mestre Hiromi Sako e que lhe despertou este desejo imenso.

É possível ouvir esta história aqui:

Esta reportagem faz parte da “Mensagem Rádio”, um programa que passa quinzenalmente na RDP África (do grupo RTP), à terça e sexta-feira, e em permanência: no site da Mensagem, em rdpafrica.rtp.pt e no Spotify.


Mariana Vital

Alfacinha de gema, criada no elétrico 28, foi nas ruas onde cresceu e através das pessoas que a cidade lhe foi dando a conhecer que descobriu a paixão por contar histórias. É através da palavra – lida, escrita, falada ou cantada – que chega, por esses carris fora, à sua paragem. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

Rita Varela

De terras alentejanas rumou a Lisboa, há cinco anos, com o sonho de viver a cidade. Licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais, mas foi no currículo de Jornalismo que se encontrou. Hoje, com 23 anos, é pela arte de contar histórias que se apaixona todos os dias. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

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3 Comments

  1. Tenho uma ” máquina” Lenco que ofereci a um neto.
    A mesma avariou.
    Gostava de a reparar.
    Acha possível?
    Gostaria de saber onde me dirigir à sua loja/oficina.
    Onde fica.
    Obrigada.
    Boa noite.

  2. Olá sr. Leonel, sou da Foto Rui, Torres Vedras, jé estive aí consigo por causa de um Flash(sapata), agora tenho uma máquina Canon 986044 , com um problema, ela não funciona, é manual de rolo, o sistema de cortina está danificado. Há solução? Para que valores?

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