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Nunca fui de guardar um número incontável de bonecas, toda a minha infância guardei livros.

Claro que ainda tenho algumas bonecas, demais para o gosto da minha mãe que insiste em que eu as doe por ocuparem demasiado espaço na cave. Mesmo a cave sendo dela, permanecerá ocupada a 80% com os meus livros infanto-juvenis, um ou outro manual escolar de história que não passou no exercício do desapego e carradas de dossiers com apontamentos que vão da cadeira de Cultura Portuguesa até às disciplinas do 10.º ano em Carnide.

Assim, guardo duas ou três bonecas de que jamais me desfarei, a clássica máquina de escrever e todos os livros que não cabem nem nas estantes da minha casa, nem nas estantes do quarto que permanece meu em casa da minha mãe.

Introduzo agora na crónica o passeio de um destes dias. Em vez de descer a Calçada do Galvão, subi em direção à Avenida Ilha da Madeira para sossegar os pés no Museu Nacional de Etnologia, beber um sumo de laranja e espreitar uma das exposições permanentes.

Cliente do Museu Nacional de Etnologia muito antes de viver em Belém, terá sido durante a adolescência que lhe fiz a primeira visita, demorando-me na recepção, onde resiste uma pequena livraria surpreendente ao ponto de nos perdermos na compra de obras improváveis.

Andando, que eu não quero perder o fio às bonecas. Sim, é de bonecas do sudoeste de Angola que trata esta crónica que se passeia pelo Museu Nacional de Etnologia onde reside, entre as quatro exposições permanentes, uma onde se mostram 83 bonecas negras, representações etnográficas do “feminino”, da “infância” e do “feito disso” – contraia o final da oração e leia “feitiço”.

Há sempre algo de nós que fica do olhar de uma boneca e quem delas não se desfaz também sabe que as bonecas negras transparecem um cativeiro de «Olhos sossegados / Pretos e cansados» que, com tota la sang que ens corre a las venas, nunca sabemos o quanto é infindável.

Na lista de argumentos que torcem por uma visita à exposição de bonecas do sudoeste de Angola, terra onde o declínio só se fez quando o poder matriarcal foi entregue aos homens, o primeiro faz-se mergulhando no feminino que é África, desvelado muito para lá de panos.

Depois, numa viagem pelo sol à volta da terra (dois elementos também presentes nos trapos das bonecas do sudoeste) a exposição aporta na infância e logo imaginamos o quanto de segredos esconderá uma bonecas fora do lugar, no fundo baú ou no banco traseiro do carro.

Do feitiço porque as bonecas negras, africanas ou mais europeias, de pano, porcelana ou mesmo de silicone, transmitem sempre algo de indizível, algo que ultrapassa os segredos d’As Meninas de Velázquez para se manter guardado numa gaveta forrada a tecido num dos salões do Palácio Foz.

E no fundo, esperando que o sopro quente ou o vento cacimbado roubado pelos desenraizados se desassossegue e faça o que abril não fez, derrubando de uma só vez todas as portas, abrindo com fúria todas as janelas, mantém-se o segredo: um vendaval repousa nos olhos abertos, às vezes fechados, das 83 bonecas negras expostas.

Mas o fado, desbocado, prega que acordem a sorte, reclamando, «A nau do meu amor tem outro rumo»

De regresso ao Museu Nacional de Etnologia foi iniciado no final da década de 50 do século passado, Estado Novo, numa das tantas missões levadas a cabo pelos portugueses com o objetivo de estudar outras etnias.

É um facto, o luso-tropicalismo de António Oliveira Salazar bebia com uma sede feroz estudos geográficos e antropológicos das extensões de território, o que contrastava com a irrelevância a que legava estudos dessas mesmas disciplinas em território continental. Como se bastasse saber os grandes feitos da Dinastia de Avis, alardeados para português ver, e os pequenos afazeres de cada transeunte, esmiuçados para os bufos manter.

É impressionante a quantidade de missões que partiam de Portugal para os territórios colonizados com o objetivo de recolha de informação, fazendo com que se somassem grupos de estudos chefiados por investigadores que coletavam e analisavam todo o tipo de objeto que de imediato ganhava o justo estatuto de documento etnográfico, fazendo com que Lisboa sediasse em cada rua um pequeno arquivo.

Não falando dos tesouros por descobrir no maior arquivo do país, a Torre do Tombo, observe-se as centenas de depósitos que a III República e as várias reordenações administrativas foram dissolvendo, inventariando um vastíssimo espólio disperso por pequenos núcleos em arquivos e bibliotecas municipais, em institutos públicos ou fundos nacionais.

Ora o acervo do atual Museu Nacional de Etnologia, que reúne objetos oriundos de várias partes do mundo catalogados em pelo menos quatro exposições permanentes, resulta de muitas expedições pelo interior dos países colonizados, com destaque para as investidas etnográficas do missionário católico Jorge Dias que, com a sua mulher Margot Dias e restante equipa, entre 1957 e 1961, no âmbito de uma linha de ação proposta por Adriano Moreira, na altura diretor do Centro de Estudos Políticos e Sociais, da Junta de Investigações do Ultramar, que viu objetos recolhidos e fotografias captadas junto dos povos Maconde, radicados a norte de Moçambique, reunidos e expostos pela primeira vez em 1959, numa das salas de exposições do Palácio Foz, onde funcionava o Secretariado Nacional da Informação.

Em 1976, é inaugurado o edificado projeto do arquiteto António Saragga Seabra que em 2000, pelo arquiteto Eduardo Trigo de Sousa e sob proposta da direção de Pais de Brito, se vê alargado com uma biblioteca/mediateca, novas áreas de reserva e um jardim interior. Em 2006, inauguram as Galerias da Amazónia, completando-se um importante museu nacional.

As bonecas do sudoeste de Angola neste museu reunidas são oriundas de três províncias – Huíla, Namibe e Kunene. Territórios de pasto, criação de gado, agricultura e caça, em alguns casos com deslocamentos sazonais, os seus povos mantinham uma cultura nómada, nestes territórios onde dominam ainda os povos bantu cuja cultura, etnia e/ou língua nos permite agrupá-los em Ovambos, Nyaneka-Humbis e Hererós e ainda dos povos Mutua.

A maioria das bonecas que chegaram a Portugal foram recolhidas junto dos Nyaneka-Humbis e, dentro deles, das Mwila (grupo constituído exclusivamente por mulheres), mas também em etnias menos representativas como as Kwando e Munda que naquela altura já viviam sob influência dos Nyaneka-Humbis.

Podia discorrer um pouco mais acerca da história de cada um destes povos ou sobre o significado de cada uma destas bonecas quer como objeto de representações de género e de idade, quer como reflexo de relações sociais ou crenças culturais, mas não me deixa esta crónica viajar muito mais por tudo o que é livresco pelo que me precipito a pôr um fim nesta visita guiada e desvendar o que há de segredo.

Chegados à terra vermelha sem que a fortuna os desencontrasse no tempo, do Sudoeste partiram até quase ao fim de Luanda e uma outra vez ele contou-lhe do abril que o levou a Lisboa e ela novamente explicou-lhe como maio a deixou nas colinas.

Nenhum dos dois pesou tudo o que os separava. Ouviram dizer que o vendaval passou, desmoronou a montanha construída por cima do que a revolução deixou por cumprir, os justos homens foram libertos, nem uma porta ficou fechada, foram abertas todas as janelas.

Calados, do Miradouro da Lua, ouviam o Camané cantar o que revelava o segredo nos olhos das bonecas negras do Sudoeste de Angola: «Para ti eu fui um lago de bonança / (Ah!) E tu um vendaval na minha vida»


* Ulika da Paixão Franco é mulher, negra, filha de Angola e irmã de Portugal. Na infância lia alto as palavras que saltavam dos manuais de português e na adolescência trocava as matinés no Crazy Nights, em Lisboa, pelo sofá onde lia O Independente. Um dia, quando o Arco-Íris marchar, diz que será repórter para noticiar com o título: «Homem Pisa Planeta onde as Pessoas são todas Iguais».

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