Uma reabertura é sempre motivo de festa. 30 anos desde o fecho do Teatro Variedades no Parque Mayer, foi uma festa que se celebrou no passado sábado, dia 5, quando o teatro – originalmente inaugurado em 1926 – reabriu portas.
Desde os anos 90 que o fecho de teatros como o Capitólio e o Variedades ditaram o abandono do Parque Mayer. Este espaço tonou-se uma ferida na cidade. Um lugar que foi de encontros e vida e divertimento. O Parque Mayer – junto à Avenida da Liberdade, com o seu corpo entre a Praça da Alegria e a Rua do Salitre – abriu portas em 1922 e tornou-um fervilhante centro lúdico: às barracas de diversões juntaram-se os cafés, as esplanadas, os salões artísticos, os cabarés e os teatros.
Em 2016, o Capitólio – com desenho de Cristino da Silva e reconhecido como Imóvel de Interesse Público nos anos 80 – reabriu. Agora, foi a vez do Variedades, reabilitado pelo arquiteto Aires Mateus – um processo demorado, visto que, em 2017, a insolvência do anterior empreiteiro levou ao embargo das obras, que só seriam retomadas em 2020.
Em cena as produções “The Swimming Pool Party” e “Entraria Nesta Sala”, ambas com texto e encenação de Ricardo Neves-Neves. Nos próximos tempos, o Variedades vai receber companhias independentes e sem casa, como os Artistas Unidos, com programação pensada em articulação com o Capitólio e o Cinema São Jorge.
É o anúncio do renascer do velho Parque Mayer?



Apesar da reabertura dos dois teatros, a verdade é que o futuro do Parque Mayer permanece hoje uma incógnita. Depois de muitos planos – alguns deles imaginados por arquitetos como Norman Foster ou Frank Gehry -, foi aprovado um Plano de Pormenor em 2012, contestado pela sua construção excessiva nas proximidades do Jardim Botânico, e que nunca chegou a ser concretizado.
Hoje, o Parque Mayer é um lugar ainda à espera. “O Parque Mayer ainda não se impôs na cidade como um sítio de passagem obrigatória. O sítio é um bocadinho desconfortável: no exterior, não há bancos para nos sentarmos, não há árvores, durante o dia serve de parque de estacionamento…”, diz Ricardo Neves-Neves, o encenador e dramaturgo que inaugurou o Variedades.
O polémico Plano de Pormenor
Em 2010, era apresentado o Plano de Pormenor do Parque Mayer, do Jardim Botânico e da Zona Envolvente – fruto do concurso de ideias que fora lançado pelo presidente da CML António Costa, e cujo vencedor foi o atelier de arquitetura Aires Mateus.
O plano previa mais de 30 mil metros de construção nova para habitação, comércio, serviços e equipamentos turísticos, propondo:
- Até 1700 lugares de espectadores no Teatro Capitólio e no Teatro Variedades;
- A construção de dois parques de estacionamento subterrâneo (um deles com 200 lugares);
- A criação de uma zona infantil;
- A realização de projetos de recuperação do Museu da Ciência e História Natural e do Observatório Astronómico;
- A construção de novos percursos pedonais;
- A construção de um edifício, junto à entrada da rua do Salitre, que poderia ser um museu ou centro interpretativo do jardim, com cafetaria, livraria e uma loja.
Sobre o plano, o arquiteto Tiago Mota Saraiva diz: “Foi um plano realizado no mesmo contexto do PDM (Plano Diretor Municipal), numa lógica de atrair investimento. Não era esse o caminho que a cidade devia seguir.”
E a contestação fez-se ouvir desde cedo, sobretudo por parte da Plataforma Em Defesa da Missão do Jardim Botânico de Lisboa, que engloba 15 organizações. Para a plataforma, o Plano de Pormenor não salvaguardava o Jardim Botânico, propiciando as cheias na cidade e promovendo a construção excessiva.
O plano seria aprovado em 2012, com votos favoráveis do PS e do PCP e com a abstenção do PSD e o CDS. Na altura da sua aprovação, o presidente da plataforma apontava que o plano era ilegal, ao não cumprir a Lei do Património que exige a criação de uma zona especial de proteção com 50 metros – as construções previstas pelo plano distavam 1,2 metros da cerca do Jardim Botânico.
No entanto, este ano foi aprovada em reunião de Câmara Municipal uma alteração ao Plano de Pormenor do Parque Mayer – uma vez que “não foram alcançados os objetivos nem executadas as ações previstas neste instrumento de planeamento”, diz a CML à Mensagem.
Neste momento, está a ser concluída a proposta – depois de um período de participação preventiva – para ser submetida à CCDRLVT (Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo) para a fase seguinte.
A alteração tem entre os seus principais objetivos “abrir o Parque Mayer à cidade, implementar um conjunto de infra-estruturas culturais, introduzir uma maior flexibilidade de usos e consolidar as medidas de proteção ao Monumento Nacional Jardim Botânico de Lisboa”, diz a CML. Mas não se sabem pormenores.

Os primórdios do Parque Mayer
O início desta longa história remonta ao início do século passado, quando o empresário Adolfo Lima Mayer mandou construir o Palácio Lima Mayer, nos terrenos da antiga Quinta da Legacia, onde chegara a viver a Marquesa de Alorna. O Palácio Lima Mayer foi projetado pelo arquiteto italiano Nicola Bigaglia e venceu o primeiro Prémio Valmor de sempre, em 1902.

Em 1920, a propriedade e os seus terrenos seriam postos à venda e comprados pelo capitalista Artur Brandão que, por sua vez, os vendeu no ano seguinte à Sociedade Avenida Parque, Lda., uma sociedade com dez sócios, entre os quais o escritor, jornalista e empresário ligado ao meio teatral Luís Galhardo.
Dois anos depois da compra, o Palácio Lima Mayer era já conhecido como “Avenida Parque” ou “Parque Mayer“, um espaço dedicado à diversão e boémia de Lisboa, composto sobretudo por barracas de diversão, com tirinhos e argolas. Porém, o complexo estava prestes a ganhar novas valências, como um carrossel, uma esplanada e, claro, um teatro.

O primeiro foi o Teatro Maria Vitória, que abriu portas nesse mesmo ano, estreando-se com a revista “Lua Nova”.
Entretanto, novos restaurantes, cafés, salões artísticos e cabarés foram surgindo no Parque Mayer. Em 1926, foi a vez do Teatro Variedades, erguido segundo um projeto de Urbano de Castro. Inaugurou-se com a revista “Pó de Arroz”, da autoria da dupla conhecida como “Os Troianos” (Ernesto Rodrigues e Luís Galhardo). Já na década de 30, no espaço dantes ocupado pela também célebre “Esplanada Egípcia”, nascia o Teatro Capitólio, um projeto do arquiteto Luís Cristino da Silva.
O Parque Mayer assumia-se, assim, como um espaço à semelhança do Luna Park, de Paris, o Tivoli Gardens, de Copenhaga, ou o Coney Island, de Nova Iorque. Em 1933, o Diário de Notícias escrevia sobre este polo de divertimentos na cidade de Lisboa:
“O número de espetáculos de toda a espécie de diversões, de jogo e de esplanadas que lá dentro encontra, satisfaz todas as fantasias e gostos, por muito exigente que seja. Mas todas essas diversões têm um aspeto definitivo, cuidado, decente, sem o ar ambulante de feira de aldeia (…) O Parque Mayer é indiscutivelmente o paraíso do lisboeta e onde em breve se poderá assistir a um espetáculo inédito, nunca antes visto em Portugal: um concurso de luta feminina ao ar livre (…) O Alhandra, por exemplo, é o ponto de encontro da jeunesse e de todos aqueles que pretendem passar agradavelmente a noite. Aquilo a que os franceses chamam cabaret.”

Ao longo dos anos, abriram portas o Teatro do Recreio – que, no entanto, encerrou pouco tempo depois, dando lugar a um ringue de boxe, e o Teatro ABC (junto ao muito célebre “Pavilhão Português”, um recinto de diversões). Para além disso, foi no Parque Mayer que se celebraram pela primeira vez as Marchas de Lisboa.
Mas o fulgor do Parque Mayer foi decaindo com o tempo. Nos anos 90, o Capitólio e o Variedades fechavam portas. E, durante anos a fio, a cidade não soube dar resposta a este espaço, outrora fervilhante, subitamente degradado e votado ao abandono.
Os muitos planos do Parque Mayer
A história deste lugar é conturbada desde sempre. Em 2005, o arquiteto paisagista Rui Valada escrevia num artigo de opinião do Público:
“O Parque Mayer sempre teve uma existência atribulada e, talvez por ser objeto permanente de controvérsia, nunca deixou de ter um aspeto abarracado, provisório, sempre à espera de uma renovação que nunca aconteceu.”
As ideias para este lugar foram muitas e começaram a surgir ainda antes do Parque Mayer se ter tornado um fantasma na cidade. Nos anos 40, propunha-se o prolongamento do Jardim Botânico até à entrada da Avenida da Liberdade. De facto, o Jardim Botânico foi sempre uma preocupação para os lisboetas, como lembra Rui Valada no artigo de opinião do Público, onde cita o olissipógrafo Gustavo de Matos Sequeira:
“A transformação do local não ocorreu sem sobressaltos. Disso nos dá conta o olissipógrafo Gustavo de Matos Sequeira ao escrever: ‘Quando há quarenta anos se construiu o Palácio Mayer, tornejando da rua do Salitre para a travessa das Vacas, levantou-se na imprensa de Lisboa um clamor de protesto (…) Tinha sido realmente pena que a cidade se tivesse privado de um melhoramento importante: a abertura de uma passagem, por um portão monumental, que comunicasse diretamente a Avenida da Liberdade com o Jardim Botânico.'”
Nos anos 60, surgia uma nova proposta para o Parque Mayer, apresentada pela Avenida Parque SA e com desenho de Carlos Ramos, que previa a construção de dois hotéis no terreno do parque, transferindo-se os espaços de representação para o subsolo. Propunha-se ainda uma ligação subterrânea com São Bento e outra com a Praça do Martim Moniz.
Mas a ideia não avançou.
Nem uma outra, discutida nos anos 90, que previa áreas de habitação, escritórios, galerias comerciais, restaurantes, oito salas de cinema (ou seis de cinema e duas de teatro) e a demolição do Variedades, embora se preservasse o Maria Vitória, o Capitólio e o ABC, segundo um projeto de Arsénio Cordeiro, o arquiteto responsável pela Torre do Tombo e a Caixa Geral de Depósitos.


Foi também na última década do século XX que se publicou o “Plano de urbanização da Avenida da Liberdade e Zona Envolvente” pelos arquitetos Fernandes de Sá e Francisco Barata, que, no que dizia respeito ao Parque Mayer, procurava salvaguardar “o café dos artistas, o Capitólio, e o pórtico de entrada, acrescentando-lhe novos restaurantes, um museu-biblioteca do teatro de revista, uma casa da música, um anfiteatro ao ar livre, escritórios e ainda um hotel”, segundo escreve Ana Rita Araújo Garcia na sua tese de mestrado.
Foi também considerada uma outra proposta – entre a CML e a Avenida Parque SA – que previa a construção de ateliers para artistas, discotecas e espaços de comércio. Mas, uma vez mais, não se chegou a nenhum consenso e o futuro do Parque Mayer permaneceu uma incógnita…
De Norman Foster a Frank Gehry
Na viragem do milénio, o presidente da Câmara Municipal João Soares convidava o arquiteto britânico Norman Forster para criar uma proposta de intervenção no Parque Mayer, na altura em que os terrenos foram vendidos à Bragaparques. Uma das ideias discutidas foi a construção de um edifício-torre de vinte andares, com escritórios, habitação, um museu, teatros, cinemas, café e um ginásio. Entre muita polémica, os trabalhos… não avançaram.
Em 2005, foi a vez de um outro arquiteto receber o convite, desta vez por parte de Santana Lopes: Frank Gehry. O projeto inicial previa a integração de um casino no Parque Mayer, salvaguardando-se os teatros.
No entanto, com o casino deslocado para o Parque das Nações, surgia um novo projeto, orçado em 134 milhões de euros, que incluía a criação de três teatros (um para grandes produções teatrais, outro mais voltada para as novas tecnologias e o multimédia e uma blackbox), um clube de jazz e uma mediateca. Uma revisão do plano passaria também a incluir a manutenção do teatro Capitólio.
O projeto acabou por ser abandonado pelo presidente da Câmara Municipal António Costa, não sem que a CML pagasse 2,9 milhões de euros ao arquiteto através da EPUL (Empresa Municipal de Urbanização de Lisboa).
O imbróglio seria resolvido com o lançamento do concurso de ideias, que seria vencido por unanimidade pelo atelier de arquitetura Aires Mateus em 2008. Assim se definia o Plano de Pormenor do Parque Mayer.

Tudo isto se desenrolou ao mesmo tempo que CML e a Bragaparques enfrentavam um processo em tribunal. Em causa estava a permuta de terrenos do Parque Mayer à CML em troca dos lotes municipais da antiga feira popular, em Entrecampos. Permuta que em 2004 levou a uma crise governativa e à demissão, em 2007, do presidente da Câmara Carmona Rodrigues. Durante o mandato de António Costa, aprovou-se que se defenderia a nulidade da permuta em tribunal.
Entretanto, em 2014, a CML e a Bragaparques assinaram acordo para a aquisição dos terrenos da Feira Popular e do Parque Mayer, por 101.673.436,05 euros. Mas a Bragaparques pediu uma indemnização com base nos lucros que perdeu com a anulação da permuta.
Entre avanços e recuos, o desfecho, em 2021: ficava anulada a decisão do Tribunal Central Administrativo que obrigava a CML a pagar a dita indemnização – no valor de 240 milhões de euros.
E hoje, o que poderia ser o Parque Mayer?
Hoje, já é possível ir ao Parque Mayer e assistir a três espetáculos num só dia: “The Swimming Pool Party”, às 15h, no Teatro Variedades, “Entraria Nesta Sala”, às 17h, também no Variedades, e o “E Ninguém Vai Preso?”, no Teatro Maria Vitória, às 21h30.
“Com a reabertura do Variedades, após três longas décadas de encerramento, demos mais um passo para afirmar este espaço como um polo polivalente e moderno da cultura e como um espaço de referência na cidade de Lisboa”, anunciou o presidente da CML, Carlos Moedas.
Mas ainda muito está por cumprir.
Para o arquiteto Tiago Mota Saraiva, o futuro do Parque Mayer terá de passar pela cultura. “Faz sentido que ali haja um cluster de cultura de teatro. O Parque Mayer cruzava a cultura popular com a erudita. Havia ali uma certa tertúlia lisboeta, e era isso que devia ser. Mas, para tal, é preciso não deixar que as pessoas sejam empurradas para fora de Lisboa.”
Ricardo Neves-Neves acrescenta: “O Parque Mayer precisa de um olhar para que o espectador não venha só para entrar diretamente no foyer do teatro. Dantes, havia até pessoas a viver aqui, como o cenógrafo Mário Alberto.”
Não só fixar os residentes em Lisboa, mas também criar condições para que o Parque Mayer volte a ser um lugar de permanência: “O Parque Mayer não pode ser um beco. A criação de bancos, de esplanadas, onde as pessoas possam estar, mas que não sejam demasiado caras, é fundamental para que se torne um ponto de passagem na cidade.”
Dentro dessa lógica, a mobilidade é também uma questão a ter em conta, diz o arquiteto. “A ideia do Parque Mayer enquanto espaço para se estar remete para uma lógica pedonal, de transportes públicos, e menos de automóvel.”
Para Ricardo Neves-Neves, o objetivo é recuperar a velha vida do Parque Mayer. “O Parque Mayer podia começar por se inspirar naquilo que o Parque Mayer já foi, isto é, um espaço de reunião entre quatro áreas: a arte, a cultura, o pensamento e a alegria. Não há muitos sítios no mundo com três teatros virados para uma praça.”

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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