Num dia normal, o palco vazio da sala de espetáculos do Teatro da Politécnica, à entrada do Jardim Botânico, seria motivo de entusiasmo. Significaria o fim de um espetáculo, o início de um outro. É por isso que este caos de cabos, cenários e adereços em nada é estranho para João Meireles e Pedro Carraca, os dois parte da companhia Artistas Unidos praticamente desde a sua formação, em 1995.
Mas, desta vez, não é uma nova peça de teatro que aqui se anuncia: é mesmo o fim deste espaço enquanto Teatro da Politécnica.



Foi associação de estudantes dos alunos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, espaço de tantas histórias e de resistências na cidade. Mas, mais recentemente, e durante 13 anos, aquele edifício na rua da Escola Politécnica ficou conhecida como a casa dos Artistas Unidos. Dizem que sempre souberam tratar-se de uma casa temporária, com o contrato de arrendamento da Reitoria da Universidade de Lisboa, que detém o espaço, a ser renovado de dois em dois anos.
Aliás, em 2022 a companhia já se vira na iminência de sair, quando a Reitoria terá anunciado a cessação do contrato de arrendamento.
Só um acordo mediado pela Câmara Municipal de Lisboa terá permitido ficarem até agora, sob uma condição: a de que a autarquia teria de encontrar um espaço para a companhia até ao final do contrato.
Mas, passado o tempo acordado entre a CML e a companhia, nenhuma solução parece estar à vista. E a 31 de julho, o Politécnica esvazia definitivamente, para que o espaço passe a integrar o Museu de História Natural e da Ciência, segundo informação prestada pela Reitoria.
Entretanto, a saída do Teatro da Politécnica já obrigou ao despedimento de trabalhadores de bilheteira e direção de cena da companhia. “Essa é a parte angustiante, porque são pessoas, e pessoas que durante anos deram a sua força de trabalho aos Artistas Unidos e agora os Artistas Unidos estão a falhar.”
Uma história resistência na cidade
Nada poderia, pois, preparar a equipa para o momento que agora se avizinha: o de serem obrigados a sair, sem terem nenhuma ideia de qual será a futura morada desta companhia fundada pelo ator, encenador e dramaturgo Jorge Silva Melo, que morreu em 2022.
Os Artistas Unidos chegaram ao Teatro da Politécnica em 2011, depois de assinado um contrato entre a companhia, a Câmara Municipal de Lisboa, o Ministério da Ciência e do Ensino Superior da Ciência e Tecnologia e a Reitoria da Universidade de Lisboa. Julgaram que seria mais uma casa temporária, como aquelas por que tinham passado desde o seu despejo do edifício d’A Capital em 2002 (o Teatro Taborda, o Convento das Mónicas…).
Acabariam por ficar 13 anos.
João lembra-se bem da primeira vez que entrou no edifício que se tornaria a morada mais longa dos Artistas Unidos: “Ali, na sala das janelas, havia uma parede que era uma cascata: chovia, chovia!”, recorda. Mesmo antes de se instalarem, Pedro Carraca lembra-se de ter guardado um cenário naquele edifício, e de o terem alertado: “Tem cuidado que o teto está em risco de cair!”.
Mas os Artistas Unidos descobriram ali um enorme potencial de transformação: “Esta parte central foi toda remodelada, mas consegue-se perceber que é um espaço com um potencial interessante”, diz João.
E um espaço carregado de história.


Foi Noviciado do Alto da Cotovia e Real Colégio dos Nobres mas, em 1837, ali se instalou a Escola Politécnica de Lisboa – edifício que deu o nome à rua onde hoje se encontra o Museu da História Natural e da Ciência. Uma escola que se destinava ao ensino preparatório científico dos candidatos a oficiais do Exército e da Marinha e que dava continuidade à Academia Real da Marinha – impulsionada pelo político e diplomata Martinho de Melo, em funcionamento desde 1779 naquele edifício.
Dez anos depois da inauguração da Escola Politécnica, em 1847, o edifício sofreria um incêndio, que levaria à sua reconstrução.
Em 1877, o rei D. Luís visitaria a Escola Politécnica, vendo-se acompanhado dos representantes diplomáticos da Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, Áustria e Brasil. E o diretor da escola terá discursado, tal como transcrito pelo cineasta Lopes Ribeiro:
“A Escola Politécnica conta já 40 anos de existência. Nasceu com as instituições que asseguraram à nação a liberdade. Representante da ideia nova, em oposição às velhas tradições, que tendiam a imobilizar o ensino público, assim como imobilizavam todas as instituições sociais e políticas: consequência remota mas necessária da famosa reforma dos estudos do Marquês de Pombal, que abrira as portas das aulas e academias às ciências naturais, às ciências de observação e com estas à filosofia moderna.”



Em 1911, seria então transformada na Faculdade de Ciências de Lisboa.
Desses tempos, restam as memórias. Logo à entrada do ainda teatro, uma placa assinala que este foi também lugar de resistência: aqui ficava a associação de estudantes da dita faculdade, onde em 1971 se conspirava contra o Estado Novo.
Ainda há dias, um senhor veio visitar o espaço e contou a João e Pedro ter sido presidente da associação de estudantes nesse ano que ficou marcado pelo fecho da associação, com a polícia política a perseguir os alunos dirigentes, expulsando-os da Universidade.
“50 anos depois, o antigo presidente da associação de estudantes voltou para ver o espaço, esteve aqui um bocadinho à conversa, foi até comovente”, lembra João.

Já na década de 80, a Faculdade de Ciências foi transferida para a Cidade Universitária, e a antiga Escola Politécnica transformada no Museu de História Natural e da Ciência.
Não é de admirar, pois, que na antiga associação de estudantes (onde inclusive os estudantes terão atuado em peças), se instalasse uma outra forma de resistência: o teatro.
Escrevem os Artistas Unidos que, antes de aqui chegarem, o espaço já servira para propósitos artísticos:
“Foi aqui que ‘gente como Rui Mário Gonçalves’ organizou […] as primeiras defesas da arte abstrata, onde Nikias Skapinakis expôs pela 1ª vez, onde Mário Dionísio deveria ter feito as conferencias que deram lugar à Paleta e o Mundo […] onde Manuela Porto apresentou o seu Pirandello (Limões da Sicília) e onde Lopes Graça trazia o Coro da Academia dos Amadores de Música, onde temos fotografias de Glicínia Quartin, sentada. Ou de Mário Ruivo. E de José Júlio, os que vieram antes de nós.”



Artistas: o adeus definitivo à Politécnica?

As paredes do antigo Teatro da Politécnica serão então ocupadas pelas coleções líquidas de animais do Museu de História Natural e da Ciência, conforme explica a Reitoria da Universidade de Lisboa.
Mas, para os Artistas Unidos, a busca por uma nova casa continua.
À Mensagem, a CML diz que tem procurado uma solução em auditórios “municipais e não só –, mas até ao momento não foi possível encontrar um espaço que reúna as características necessárias para o acolhimento dos projetos que os Artistas Unidos têm em curso”.
Procuram um espaço onde consigam encenar os seus espetáculos, e onde consigam também promover conversas com os autores das peças, como aconteceu ainda há pouco tempo com Enda Walsh e Pau Miró. “Não somos úteis para fazer teatro de rua”, brinca até João Meireles. “Para termos a perceção do público, precisamos de um sítio. Conseguimos aguentar até dezembro de 2024 aos saltinhos… mas depois, sem espaço próprio, não sei se conseguimos manter a companhia a funcionar”.
“Estamos num misto de emoções”, desabafam João e Pedro, perante a sala de espetáculos onde a companhia encenou mais de 100 espetáculos. Um momento que se vive ao mesmo tempo que o espetáculo “Búfalos”, a terceira parte de uma trilogia pelo dramaturgo Pau Miró, se prepara para estrear no festival Citemor, em Montemor-o-Velho, e em que “Remédio”, de Enda Walsh, está em cena no Festival de Almada.
Preparam-se para despir por completo o Teatro da Politécnica, ainda sem certezas de para onde é que vão levar todo o material. Com uma nota de tristeza na voz, João Meireles lamenta: “Estamos sem cabeça para qualquer tipo de nostalgia. E montar e desmontar é o que estamos habituados a fazer…”.

Regresso ao edifício d’A Capital?
Terem de abandonar um espaço é, na verdade, uma história que se repete, como todas as noites se repete um espetáculo de teatro: em 2002, os Artistas Unidos foram despejados por razões de segurança do edifício d’A Capital, onde estavam desde 1999. Um edifício entre a rua Diário de Notícias e rua do Norte e assim chamado por ali ter funcionado o jornal com o mesmo nome.
Um lugar que os marcou enquanto companhia. Foi n’A Capital que testaram aquele que se tornaria o conceito dos Artistas Unidos: atores que se juntam e tratam da escolha da peça, do elenco, da produção, recorrendo a técnicos especialistas apenas para a luz e o som.
Foi ali que se afirmaram enquanto grupo que aposta em dramaturgias contemporâneas, na descoberta de novos autores, de novos atores e de novos encenadores. Ali, onde Jorge Silva Melo sonhava com um Centro de Artes do Bairro Alto, chegaram a ter quatro peças em cena ao mesmo tempo.

Parece, pois, irónico que agora uma das soluções apresentadas passe exatamente pelo regresso ao edifício d’ A Capital. Uma hipótese já colocada há dois anos e que ainda não foi realmente estudada, especialmente porque no antigo edifício serão construídas habitações de renda acessível.
“Há um ano, faltavam-nos uma série de elementos técnicos para perceber se é possível instalar ali uma sala de espetáculos ou duas, que era o que nós gostávamos de fazer”, explica João Meireles. “Pedimos esses dados em 2022 e eles chegaram na semana passada. Ainda não sabemos se é possível fazer a obra necessária e, se for possível, vai demorar anos até estar completa.”
Ou seja, por enquanto é uma ideia longínqua.
Sem espaço, tudo o que os Artistas Unidos sabem é que poderão estrear o espetáculo “Vento Forte”, da autoria de Jon Fosse, no Teatro Variedades, que reabrirá portas em outubro deste ano. E provavelmente conseguirão estrear outros espetáculos em salas dispersas pelo país, até ao final de 2024.
Mas nada mais será do que uma curta estadia.
“É como uma pessoa que anda à procura de casa para viver, e alguém generoso oferece um fim-de-semana em casa do vizinho”, explica João Meireles. “Portanto, vamos para a casa do vizinho do sr. Presidente passar o fim-de-semana, esperando que o duche seja bom e que tenha boas vistas, mas, na segunda-feira seguinte, estamos na rua outra vez.”



Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário