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No camarim 13, número de que gosta particularmente, Pedro Silva ainda traz a maquilhagem do espetáculo que terminou perto das sete, um pouco de pó e contorno preto nos olhos. Aos sábados, há duas sessões. A próxima começa às nove e meia, por isso há que jantar qualquer coisa. Pedro já se habituou à rotina dos horários, mas em palco não há dias iguais. Ainda que mantenha alguns hábitos, como benzer-se antes de cada espetáculo, o imprevisto é o que mais lhe agrada no teatro de revista. “O teatro é a vida”, diz sorridente.

Pedro Silva, 34 anos, nasceu em São Domingos de Benfica, com o sonho de ser ator. Recorda-se perfeitamente da primeira vez que veio à “Catedral da Revista”, como é conhecido o Maria Vitória. “Tinha 12 anos. Pedi muito à minha mãe e ao meu tio para ir ver a Revista É Linda, com a Alice Pires e o Paulo Vasco. Quando aqui entrei, pensei logo que era isto que queria fazer”, recorda.

O entusiasmo da primeira revista mudou a vida de Pedro. “Nunca contei isto a ninguém. Depois, mandei um e-mail ao senhor Hélder Freire Costa, empresário e produtor, a dizer que queria fazer revista.” Sem resposta, Pedro convenceu uma das suas professoras a levar a turma, numa visita de estudo, à próxima revista em exibição. “Tanto insisti que marcaram a excursão.”

O sonho do jovem Pedro, com 12 anos, tornou-se realidade 15 anos depois, em 2015, quando foi selecionado num casting para a peça Quero É Parque Mayer. “A primeira revista nunca se esquece. Fazia uma personagem muito gira, de um empregado numa casa de fados, no número de apresentação da Alice Pires, que então regressava em grande”, conta Pedro.

Passou pela televisão, em participações especiais, embora prefira sempre o teatro e particularmente a revista. “O teatro está a acontecer, é o que estás a sentir. Gosto da revista pela adrenalina. Hoje não é igual a ontem, nem vai ser igual a amanhã”, diz.

“A revista tem muitas personagens, passas do 0 ao 80”, explica Pedro. No camarim, guarda a peruca que serve para a cena em que faz de velho, uma das personagens de que mais gosta em Vamos ao Parque, de momento em cena no Parque Mayer, que em 2022 celebra 100 anos. Outro número favorito é o “das duas bichinhas fãs da Dora”. O humor do texto é algo que o apaixona.

“A revista coloca-nos diante de um espelho. E divertimo-nos com isso”

Flávio Gil, 31 anos, já passou pelo Maria Vitória como ator, encenador e, agora, co-autor dos guiões. Tinha 21 anos quando escreveu a sua primeira revista, O Amor com Amor se Paga, em 2012, a convite de Hélder Freire Costa, o empresário do teatro, depois de se estrear como ator em 2008, com 18 anos.

Ao contrário de Pedro, o teatro surgiu na vida de Flávio por acaso. Em mente, estava tirar um curso de Direito. “O que nunca aconteceu”, diz. Aos 15 anos já fazia teatro amador, sem “pretensões de profissionalização”, até ao momento que participou na primeira revista, Já Chegámos à Madeira, encomendada pelo Município do Funchal e com produção de Tozé Martinho.

Começar aos 21 anos a escrever não foi tão assustador quanto isso. “Estava desempregado, na altura, e era algo que queria muito fazer. Tinha outros autores mais velhos, que se comprometeram a selecionar o mais importante e a ajudar-me”, recorda Flávio.

Flávio Gil, 31 anos, é ator, autor e encenador de teatro de revista, mas também trabalha em televisão. Foto cedida por João Gil

O nervosismo veio mais ao de cima com o desafio da encenação, em 2016, com 25 anos, até porque Flávio era responsável artisticamente por algumas das suas referências, como Adelaide Ferreira e Paulo Vasco.

Hoje, a trabalhar na Plural, para televisão, Flávio sabe bem que o “teatro é a base”. Em particular, a revista torna-se desafiante pelo “desafio de fazer rir”. “Sobretudo a revista, que se propõe a fazer rir sobre assuntos que as pessoas conhecem, não há surpresas. Está nas notícias. Como autor, obriga-me a estar atento a tudo o que nos rodeia.”

Entre a escrita, a encenação e a performance, Flávio prefere a última. “Em revista, ser ator implica representar, cantar e dançar. É ter de fazer muitas personagens no mesmo espetáculo. É um desafio”, diz.

Co-autor da última peça, Vamos ao Parque, Flávio gosta em particular do número do «Vivo Rosa», um juiz cujas semelhanças com a realidade não são pura coincidência. “A revista coloca-nos diante de um espelho. E divertimo-nos com isso. Não tem uma função de crítica, mas, se perder esse aspeto, torna-se menos interessante.”

“A crítica social e política que fazemos na revista continua a ser relevante”

Com o humor, vem a crítica, característica do teatro de revista, elemento fundamental da oposição ao Estado Novo. Pedro Silva, já no palco, fala sobre a importância da capacidade de a revista fazer rir: “Não olho para o cómico como «vamos dar ali uma facadinha», acho importante que as pessoas estejam bem-dispostas”.

Já para André, 27 anos, a crítica “social e política” é fascinante e continua a ser “importante”. André vive em Sintra, onde começou a fazer teatro na escola, com apenas nove anos e saiu já com 16. Desde então, mesmo sem formação profissional, singrou no teatro musical.Vamos ao Parque é a sua primeira revista profissional, uma “oportunidade única”. “Aqui, também tenho a música, o teatro e a crítica. É uma comédia fantástica.”

Tal como Flávio, autor da peça, o número favorito de André, em Vamos ao Parque, é o do Vivo Rosa. “A revista é uma voz ativa. Gosto do número do Vivo Rosa, em que ele diz que o processo ainda não prescreveu, mas quando prescrever vai lá estar”, conta.

“Outro número importante desta última revista é protagonizado pela Dora, sobre a condição feminina na sociedade portuguesa. Passa a mensagem educativa a pessoas que não ligam a notícias.” A crítica, diz André, também chega ao público mais jovem. “Identificam-se muito com temas mais próximos, como as influencers, as redes sociais e a superficialidade que isso envolve.”

Nem Pedro, nem André, nem Flávio escondem que a maioria da assistência é mais envelhecida, mas admitem que têm “de tudo”. Pedro considera que o preconceito em relação ao teatro de revista já “foi maior” e há muitas escolas a organizar visitas de estudo ao Maria Vitória, embora a maioria do público provenha de excursões – “por norma quem vem são os avós”.

“Passava dias a ver gravações de revistas no YouTube”

O humor do palco está presente nos bastidores. “Um beijo, coisa boa”, tem gravado Pedro no espelho do seu camarim. “Foi uma bailarina que saiu há uns meses, a Carina Domingos, que escreveu. Na revista acabamos por ser uma família. Às vezes parece que fica bem dizer isto, mas é a verdade”, diz Pedro.

Na porta do camarim de André, está colada uma nota “não deixam as empregadas domésticas entrar”, numa referência a Gabriela, de 19 anos, que está no seu primeiro emprego, assistente de produção. “Como ela trata das roupas, chamamos-lhe, na brincadeira, empregada doméstica”, explica André.

Gabriela estuda na escola D. Pedro V. Depois de um estágio, ficou a trabalhar em setembro no Maria Vitória, como assistente de produção. “Trabalho especificamente com a roupa. Quinta-feira é o primeiro dia da semana, passamos a roupa que vem lavada. E faço as mudanças rápidas, durante o espetáculo”, conta a jovem de 19 anos.

O camarim de transição, junto do palco, guarda as roupas que os atores têm de vestir no curto intervalo entre cenas. “Eles saem de cena, com calor e energia, despem-se, já estou com as coisas nas mãos, verifico se está tudo bem”, explica.

Gabriela gosta do género descarado e popular da revista e sente que está a aprender observando, mesmo com os colegas mais jovens. “O Pedro já é um exemplo, a maneira de ele ser condiz muito com a revista. Sai-lhe tudo e não deixa nada guardado.”  

Apesar de estar atrás do palco, o sonho de Gabriela é fazer revista. “Aqui estou mais próxima de tudo. E não é só isso, é saber que os meus ídolos pisaram este palco, como a Marina Mota.”

A paixão pela revista começou cedo. “Quando era mais nova estava sempre a ver as revistas que estavam gravadas no YouTube, a repetir, a repetir.” O que mais gosta é da energia associada ao espetáculo. “Aqui, a energia muda tudo. Às vezes, o público chega não muito bem e esquece-se.”

Assim é o Parque Mayer, 100 anos depois do seu nascimento, um espaço renovado pela paixão de muitos. Jovens talentos que sabem que rir continua a ser mesmo o melhor remédio.

Lisboa celebra o centenário do Parque Mayer

De 1 a 31 de julho, a Câmara Municipal de Lisboa e a Junta de Freguesia de Santo assinalam os 100 anos do Parque Mayer com uma série de espetáculos, exposições, sessões de cinema, tertúlias, itinerários, entre outras atividades. Conheça a programação em: Lisboa celebra o centenário do Parque Mayer.

“O Parque Mayer, espaço icónico da cidade de Lisboa desde 1922, convida todos para o seu centenário, revisitando ou conhecendo a história e as memórias deste lugar, que foi durante décadas o mais importante centro de diversão e de cultura da cidade de Lisboa. Uma programação de música, exposições, itinerários, cinema, tertúlias, e até boxe, é apresentada durante todo o mês de julho”, anuncia o comunicado da autarquia.

Do fado ao jazz, passando pelo funk, soul, blues, dixie, rock e pop, são vários os concertos no Parque Mayer, para recordar êxitos intemporais que fizeram parte da história da música portuguesa e do Teatro de Revista ao longo das décadas ou para conhecer as novas vozes e bandas portuguesas.

No Capitólio, com organização da EGEAC, tem lugar, no dia 1 de julho, às 21h30, um concerto da Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal. Seguem-se, todos os sábados do mês, às 21h30, também no Capitólio, as atuações de Sara Correia, Black Mamba (que convida Adelaide Ferreira), Pedro Moutinho e Real Combo Lisbonense.

Para além da música, são apresentadas duas exposições documentais, uma na Praça dos Restauradores outra no recinto do Parque, que nos contam a história dos 100 anos deste polo cultural que elevou a Revista à categoria de género de eleição.

Realizam-se também itinerários que abordam a história do Parque Mayer ao longo destes 100 anos, desde a sua génese até se transformar num polo cultural, e itinerários sobre a temática do Cinema em Portugal, da sua relação com o Parque Mayer e com as grandes salas de exibição vizinhas, os cinemas da Avenida da Liberdade.

Nas sessões de cinema serão exibidos diversos programas de A Paródia: Comédia à Portugueza, uma série documental e recreativa, realizada em 1987, dedicada a grandes figuras de comédia, do cinema e do teatro portugueses, onde se incluem entrevistas a António Silva, Maria Matos, Humberto Madeira, Laura Alves, Eugénio Salvador, Vasco Santana, Beatriz Costa, Costinha, Ribeirinho, Mirita Casimiro, Barroso Lopes, entre outros.

As tertúlias pretendem mostrar como era afinal a vida no Parque Mayer, convidando pessoas a contarem as suas histórias na primeira pessoa. Artistas, trabalhadores, espetadores e conhecedores das vivências do Parque Mayer partilham as suas memórias e experiências neste lugar, que, segundo a autarquia, está a ser reabilitado por esta “com o intuito de recuperar os teatros e voltar a posicionar o Parque Mayer como um espaço de cultura de referência na cidade de Lisboa”.


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* João Damião é aluno do mestrado de Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa/ FCSH. É um tanto idealista. Acredita que o melhor futuro é pautado pela educação, informação, beleza e tolerância. É isso que o move a contar histórias. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa. Este texto foi editado por Catarina Pires.

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