
“Agora estamos no coração do Fado, em Lisboa, em Alfama, e todo este ambiente está cheio de lugares de Fado — tascas — e elas acordam um pouco mais tarde, à noite. É aqui que as almas e os corações choram e se expressam,” diz Fiona Dsegni como se já pudesse sentir a emoção que surgiria à medida que a noite caísse.
Embora originalmente de Paris, a jornada de Fiona levou-a por vários países ao longo dos anos. “Apaixonei-me por Lisboa em 2018. Foi quando descobri o Fado. Pensei: ‘Um dia, vou morar aqui e vou aprendê-lo’.”
Em 2020, na incerteza da pandemia de COVID, a oportunidade surgiu. A sua empresa, que tinha laços com Portugal, ofereceu-lhe a chance de se mudar, e Fiona não hesitou.
“Pensei três minutos e decidi vir”, ela diz, rindo.
O profundo amor de Fiona por performance e arte era evidente desde a infância. “Acho que sempre fui uma artista. Sempre tive um amor pela expressão artística.”
Embora Fiona fale várias línguas — francês, inglês, italiano e um pouco de português — cantar Fado em português nunca foi uma questão. “Claro, estou a jogar com as regras, estou a jogar o jogo. Na verdade, comecei a cantar antes mesmo de falar português,” explica, enfatizando que a essência do Fado vai além da língua. Mas compreender as letras era crucial. “Fado é tudo sobre sentir, transmitir e conectar-se com as pessoas. Se eu não souber o significado das palavras, não posso sentir, não posso fazer nada.”
Para Fiona, Alfama incorpora não apenas o Fado, mas a complexidade e a alma de Lisboa. “Esta área é a alma de Lisboa. Tem toda a expressividade da cidade e está cheia de ruas e cantos escondidos. Alfama não é reta; é toda sobre a complexidade do povo português também,” ela observa, descrevendo a energia única do bairro.
À medida que a luz desaparece, caminhamos por alguns lugares turísticos de Fado. Ouvimos uma cantora num restaurante ao ar livre. “Existem muitos lugares para experimentar Fado, mas é importante saber para onde ir, onde a atmosfera parece certa.” Enquanto os turistas lotam certas casas de Fado, Fiona tem seus próprios lugares favoritos — locais onde o ambiente é local e autêntico, onde ela se sente em casa.
À medida que aprofundamos a viagem do Fado de Fiona, fica claro que sua conexão com a música vai além da curiosidade.
“O que me fez gostar de Fado? Não sei”, ela diz suavemente.

“É um sentimento. Quando ouvi pela primeira vez, senti-me conectada. Adoro este canto cru, e mesmo que eu não entendesse as palavras, podia sentir as vibrações. Sabia que era a minha maneira de me conectar com a cultura.”
Quando Fiona chegou a Lisboa, procurou maneiras de aprofundar essa conexão. Um amigo português apresentou-lhe a Tasca do Chico, no Bairro Alto — uma das famosas Casas de Fado de Lisboa. “O dono olhou para mim e disse: ‘Ela nem fala português.’” Mas isso não desanimou Fiona. Um amigo lançou o desafio: dentro de um ano, Fiona estaria a cantar Fado ali. “Dois meses depois, tive coragem de pedir a uma fadista aulas.”
Não era qualquer fadista. Claudia Picado, celebrada fadista, tornou-se a mentora de Fiona. “Nunca tinha dado aulas, mas aceitou.” Após dois meses de prática, Claudia levou Fiona a um restaurante com guitarristas ao vivo. “Disse: ‘Vais cantar em cinco minutos.’ Empurrou-me para o palco, e esse foi o começo da minha jornada no Fado.”
Claudia continuou a encorajar Fiona, incentivando-a a cantar em diferentes locais, construindo a sua confiança. “Ela realmente iniciou-me. Ainda fico nervosa quando canto. Nesses espaços íntimos de Fado, estamos tão perto das pessoas. Quanto mais estreito o espaço, melhor é, porque realmente sente-se a conexão. Isso é o que o Fado é.”
Recentemente, Fiona teve uma experiência incrível voltando para Lisboa com o renomado guitarrista Luís Ribeiro, que tocou para a lendária Amália Rodrigues. “Foi incrível conversar com ele e aprender mais sobre a comunidade e sua história.”
Como uma francesa cantando Fado, Fiona entende o equilíbrio entre ser acolhida e ser uma estrangeira.
“Acho que sou uma estrangeira aceite. Os portugueses têm orgulho de ver o seu património cantado por outros, mas também são protetores. Encontramos pessoas que adoram ouvir o Fado com o meu sotaque francês, e outras que são mais conservadoras, que acham que deve permanecer intocado por estrangeiros. Mas, no geral, eles ficam intrigados com a ideia de que o Fado está a ir além de Portugal, que tem uma essência universal.”

Claro, ela não é alheia às críticas. “Nos bairros locais, onde moro, as pessoas postam os meus vídeos no Facebook. Alguns adoram, outros dizem que é horrível. Mas isso é normal. Nem todos vão gostar. O que posso fazer?”
Fora da sua paixão pelo Fado, a vida de Fiona é no mundo das startups. “Estou no lado da tecnologia,” diz. O seu último trabalho foi como Diretora de Parcerias, um cargo que envolvia “construir confiança, conectar pessoas, pensar criativamente. Mas eles sabiam que eu também era uma fadista. Poderia cantar uma música entre duas reuniões.”
Esse equilíbrio entre tecnologia e Fado reflete a personalidade multifacetada de Fiona.
Na Tasca Do Chico, em Alfama, Fiona conversa – e até flerta – com vários músicos e cantores. A atmosfera é de bom humor. Um cantor — José Matoso — a chama de simpática e bonita, antes de sugerir que ela poderia se chamar Rosa. Fiona sorri, “Pelo menos acertou no ‘A’.”
A conversa volta às suas performances e aos nervos sempre presentes que as acompanham. Fica nervosa? “Claro! Não é como se simplesmente cantasse. Espero. Há outros cantores, e nunca sabemos quando é nossa vez. Há pausas, pessoas falando em português, caos. E então — silêncio.” Esse é o ritual das casas de fado à desgarrada.
Fiona parece conhecer todos, recebendo vários beijos de rostos familiares. Canta algumas músicas no restaurante escuro e silencioso. Como todo bom Fado, há uma intensidade na sala que poderia ser cortada à faca.
Após a performance, Fiona reflete sobre o lado físico da experiência. “Os meus abdominais — posso dizer, fiz o exercício do dia. Há tanto em jogo quando se canta Fado que não tem espaço mental para chorar,” ela diz, rindo, revelando a intensidade e o controlo emocional que o género exige.

A primeira canção foi O meu amor Marinheiro. “É sobre o que é o Fado e como tudo é Fado.” Ela explica como as letras exploram a essência.
“É tudo sobre almas partidas, noites nostálgicas, portas entreabertas, dor, arrependimentos… toda a tristeza que existe. Mas também é sobre reconhecer que o Fado está em toda parte. Não é necessariamente triste. É sobre tentar definir esse sentimento profundo que permeia a vida.”
O que lhe falta, diz, é “correr riscos.” “Cantar novas músicas. Sempre é difícil mergulhar no desconhecido, especialmente com músicos que não conheço.”
Ri, lembrando como costumava implorar aos guitarristas durante os intervalos para ensaiar por um minuto. “Eles olhavam para mim como se eu fosse uma turista do Fado, mas agora, eu simplesmente vou em frente. Aprendi a confiar no momento.”
O amor de Fiona por Alfama é evidente.
“O que eu amo neste bairro é como tudo acontece de forma tão aleatória. Por acaso, encontra-se alguém que te leva a algum lugar para cantar. Então outra pessoa pega na tua mão, levando-te para outro lugar. É uma cadeia, uma história sem fim.”
E a saduade? Já a absorveu? “Sim, eu sei o que saudade significa,” diz, hesitando como se estivesse procurando as palavras certas. “É difícil de explicar. É como nostalgia, mas mais… uma nostalgia satisfatória, quase alegre de certa forma. Essa é a essência do Fado — é saudade.”
Fiona passou no teste com o seu amor pelo Fado que a enraiza neste lugar atemporal, sempre em busca do próximo guitarrista, da próxima canção, da próxima conexão.

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