Foto: Inês Leote Credit: INES LEOTE

Antes de ser o “Sinho” do Casal da Boba, Amadora, já era José Maria, nascido na antiga freguesia de Santo António de Arroios, em 1976, filho de pai cabo-verdiano e mãe angolana. Depois disso, foi o “Sinho das Fontaínhas”, do bairro às portas de Lisboa onde viveu até 2001. Depois, tornou-se Sinho, mediador e impulsionador das comunidades por onde passa, e hoje um dos responsáveis pela Associação Cavaleiros de São Brás, no Casal da Boba.

Sinho tinha 13 anos quando ouviu a “Grândola, Vila Morena” pela primeira vez, num dos encontros culturais promovidos pela associação. “Em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade”, a frase cantada por todos à volta de uma fogueira, acabou a marcar o seu início de juventude ativista. E faz dela mote ainda hoje, onde vive e atua.

Houve anos em que se via como “um adolescente sem perspetiva”. Aos 16 ou 17 anos, já não sabe ao certo, trocou a escola pelo trabalho na construção civil e passou a ter aulas à noite. “Não sabia o que queria ser e fazer. A motivação da escola já não tinha, a única coisa que havia era as obras.”

Isto antes da crise da construção civil, nos anos 1990, que acabou com o trabalho.

O grupo de hip-hop BFH, Bairro das Fontaínhas in the House. Foto cedida por Sinho

Foi nesta altura de revolta interior que, muito organicamente, começou num grupo de hip-hop com os amigos: Bairro das Fontaínhas in the House, mais conhecido pela sigla BFH. Corriam os anos 1990, de forte influência do hip-hop e do rap, e o Sinho passava os dias no bairro.

A contestação já ecoava nas Fontainhas. “Foi o momento para consciencializar as pessoas sobre direitos humanos, a violência policial, o racismo… as nossas músicas eram nessa vertente de intervenção.”

“Racismo é mundial / Vivemos no guetto”, BFH

Mas ao contrário do que tudo parecia indicar, o caminho de Sinho tornou-se o da moderação: na tropa ou como segurança num centro comercial, onde apregoa que a violência física não pode ser a primeira resposta para os fardados como ele.

A marca que as Fontaínhas deixaram

Nas Fontainhas, Sinho descreve a sua infância como tendo sido rica, mesmo dentro do contexto do bairro. Os pais tinham trabalho. E quando ele nasceu, as casas já eram de tijolo, já não de chapa e madeira mesmo que à socapa: porque os moradores estavam impedidos de construir casas em tijolo, sob a ameaça da destruição por parte das autoridades, construiram por dentro. Quem passava na rua, via chapa ou madeira, por dentro tijolo. Quando terminavam o telhado, quase teatralmente, faziam cair a capa da casa.

As famílias construíam as próprias casas no Bairro das Fontaínhas. Foto: BFH-Bairro Fontainhas HardCorre & Boba 503 Guetto

“Filho de um, filho de todos”, recorda Sinho. Lembra-se de brincar nas ruas, mas sempre cercado pelos limites do bairro: “Porque o meu pai também era muito rígido. Deixava-me a poucas para saídas, as atividades eram todas por perto.”

Com o passar dos anos, enquanto ia crescendo, foi percebendo o porquê de todo o zelo, que na altura achava exagerado: “Havia um compromisso entre os pais de controlar todos filhos, por segurança. De querer mantê-los na comunidade, com medo que acontecesse alguma coisa. Porque é um país estranho. Eles vieram de Cabo Verde. Já tinham passado por várias segregações e humilhações. Imagina aqui, em Portugal! Nós, as crianças, nascemos aqui, estávamos no nosso país, por mais que nos pudessem querer dizer o contrário. Os nossos pais não contaram o que de mal passaram na sua infância, o que viram, o que deixaram de ver, qual foi o contexto…”

Sinho aponta o dedo ao regime português, diz que pouco ou nada fez para combater a fome de 1947 em Cabo Verde, quando ainda se tratava de uma colónia portuguesa. A mãe, Ana Maria, é angolana porque os avós do lado da mãe foram, nos anos 1950, para Angola, numa tentativa de fugir à seca e à fome em Cabo Verde, que nesses anos lhes tirou o trabalho. Ana Maria nasceu lá. 

Nos anos 1960 foram para São Tomé e Príncipe, contratados pelo Estado português em contratos de três anos para trabalharem nas roças de cacau e café. Os avós paternos seguiram a mesma direção. Foi aí que Ana Maria conheceu o Luciano, que viria a ser pai do Sinho e dos seus sete irmãos. 

Em 1971, os quatro avós e Ana Maria e Luciano mudaram de país uma última vez, agora para Portugal.

Luciano veio trabalhar numa empresa que fazia fossas para canalizações e esgotos, antes de ir para a Câmara Municipal da Amadora ocupar funções de cantoneiro durante 26 anos. Ana Maria foi ajudante de cozinha nas cantinas de fábricas, entre elas a Titan, na Amadora e a Tabaqueira do Cabo Ruivo, onde servia mais de 700 pessoas.

“Fizeram-se à vida”, mas desta vez num continente estranho.

“A cultura foi a minha escola”

Com oito anos, ns Fontainhas, Sinho juntou-se às Estrelas da Paz, um grupo de dança e canto da associação Unidos de Cabo Verde, que ensaiava no bairro. “A cultura era a maior ferramenta que a gente tinha para nos identificarmos, para sabermos quem somos. A cultura foi a minha escola.”

Sinho com 18 anos, no bairro das Fontaínhas. Foto cedida por Sinho
Sede da Unidos de Cabo Verde, nos anos 80. Foto cedida por Sinho
As Irmãs Dominicanas do Rosário mudaram-se para o bairro, no inicio dos anos 1980 e por lá ficaram a apoiar a comunidade. Foto cedida por Sinho

A associação Unidos de Cabo Verde foi criada com a ajuda das Irmãs Dominicanas do Rosário, que chegaram ao bairro em 1976. Faziam cursos de alfabetização, tinham um ATL, promoviam encontros de moradores, atividades culturais e mais tanto para os miúdos como para os graúdos, com o objetivo de criar ali uma comunidade unida. 

“A Unidos de Cabo Verde foi muito importante para o bairro. Não só pelas atividades culturais que promoviam, mas também pela ajuda na burocracia, na papelada, no conhecimento dos direitos, na alfabetização da comunidade e essencial no processo de desmantelamento do Bairro das Fontaínhas, no início do milénio.”

Sinho, na sua luta. Foto: Ismael Andrade

Foi nessa altura que Sinho tomou consciência de que informação é mesmo poder.

Quando Sinho nasceu, em 1976, estava em vigor a lei “Jus soli”, que quer dizer “direito de solo”, logo, ao nascer em Portugal teve direito à nacionalidade portuguesa. Mas três dos seus sete irmãos, ao nascerem depois não tiveram a mesma nacionalidade.

A partir de 1981, o governo social-democrata, encabeçado por Francisco Pinto Balsemão, pôs em vigor a Lei da Nacionalidade Portuguesa “Jus sanguinis”, que significava “direito de sangue” e entendia a nacionalidade como hereditária. A partir daqui, já não bastava nascer em Portugal para se ser português.

“Três dos meus oito irmãos foram afetados por esse crime – serem retirados da sua nacionalidade no país onde nasceram. O meu irmão Luís, que nasceu em 1982 e as minhas irmãs gémeas, Luciana e Vera que nasceram em 1989. Conseguiram reaver [a nacionalidade portuguesa], mas o meu pai teve de pagar 10 contos por cada filho para pedir a nacionalidade deles.”

O pai de Sinho já previa os problemas que poderiam chegar no futuro. E tinha razão: esta lei acabou por atar as mãos a muitos jovens que nasceram em Portugal, mas nunca tiveram nacionalidade portuguesa.

Germinava ali, nos dramas familiares e no trabalho associativo, o que Sinho viria a ser no futuro: um mediador e transformador da comunidade.

O bom soldado que viu na tropa uma forma de fugir

A tropa foi muito importante na vida de Sinho, de novembro de 1996 a março de 1997, quando esteve no Regimento da Infantaria n.º 1, no Cacém. “A minha mãe disse-me ‘Vai só, e faz aquilo que te pedem, o que tens a fazer.”

Foto cedida por Sinho

“Nos anos 1990, tinha 46 amigos presos, estás a ver? 46. Por vários delitos que vais cometendo como adolescente. Quando me deram o papel [para o serviço militar], mentalizei de que aquilo ia ser a minha fuga.”

Sinho fez como a mãe lhe pediu, de tal forma que acabou a recruta com 16,13 valores em 20. O melhor soldado, o primeiro classificado da primeira companhia de instrução do 8.º turno. 

Apesar do bom resultado que teve na recruta, Sinho não quis seguir o caminho militar ou de polícia. “Eu já tinha consciência, vi o que a polícia fazia a mim e à minha comunidade. A violência gratuita. É engraçado porque qualquer criança quer ser polícia. Mas agora eu sabia a formatação que ia ter, onde é que ia estar, o que ia fazer e tinha medo de ser usado.”

Quando saiu da tropa, voltou à construção civil. Esteve como segurança da Expo’98 – acabado de sair da tropa com mérito, entrou diretamente.

Enquanto vigiava os pavilhões da Expo ia conhecendo o mundo. Foi aí que conheceu África: “Aqui, em Portugal e nas escolas, só mostravam a desgraça de África, não mostravam o potencial que aquele continente tinha e tem.”

Páginas do “passaporte” da Expo’98 que Sinho guardou junto do seu extenso arquivo pessoal de fotos. Aqui podemos ver carimbos de vários países em África, continente que Sinho diz apenas ter conhecido bem na Expo.

A Expo chegou ao fim e Sinho foi trabalhar para o centro comercial das Amoreiras. Nos 12 anos em que por lá esteve focou a sua luta na mudança individual: Sinho conseguia conversar com os colegas, fazê-los entender que um furto não justifica violência física, por exemplo.

“Faço a vigilância de um centro comercial, apenas garanto a segurança daquele espaço. Não sou enviado para invadir comunidades, como seria na polícia.” É a principal diferença. Sabe que o trabalho de hoje será igual ao de amanhã, que não tem de entrar em confrontos e que não vai contra nada daquilo em que acredita.

A atitude dialogante e pacifista valeu-lhe a promoção a chefe da equipa de segurança passados dois anos.

O associativismo como arma da comunidade

Em 2013 Sinho torna-se vice-presidente da Associação Cavaleiros de São Brás, que ajudou a fundar em 2005, na sequência do realojamento da comunidade no Casal da Boba. 

O bairro das Fontaínhas foi desmantelado por inteiro, para que se pudesse construir a CRIL (Circular Regional Interior de Lisboa). Era 2001. Desde 2005 que o Casal da Boba reune as pessoas que foram realojadas dos bairros das Fontaínhas, Santa Filomena e Vendas Novas.

A Cavaleiros de São Brás segue os exemplos que Sinho e os outros membros da associação foram vendo ao crescerem junto de tantos movimentos associativos, inspirados na associação Unidos de Cabo Verde (agora no Casal da Mira).  Promovem sessões de esclarecimento e empoderamento na comunidade, ATL com apoio ao estudo às crianças, entre outros.

Todos os membros são voluntários. “O que nós fazemos aqui devia ser feito com o apoio do Estado ou da Câmara Municipal da Amadora ou da Junta de Freguesia. Não há uma preocupação em juntar a comunidade, perceber quais são os problemas e solucioná-los. Nós estamos aqui com o apoio ao estudo, um espaço multiusos onde também fazemos atividades culturais, mas podíamos fazer muito mais, se tivéssemos ajuda.”

“As pessoas vão desanimando, mas eu ainda não perdi o gosto. A luta continua”, remata, olhando o bairro através desta porta.



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Ana Narciso

Ana Narciso tem 25 anos, vem de Rio Maior, mas vive em Lisboa desde os 18. Foi pelas histórias por contar que escolheu licenciar-se em Jornalismo. Durante o curso passou muitas horas na rádio e no jornal, que coordenou.


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