Quando comecei, tudo estava certo: ia estudar em Lisboa por dois anos. A universidade aceitou-me e poupei dinheiro, de vários empregos, nos anos anteriores, para tornar isso possível. Ia sair dos Países Baixos em setembro.

Mesmo nunca tendo estado em Lisboa antes, eu tinha um bom pressentimento sobre a cidade. O que eu ainda não tinha percebido era que a maior jornada estava prestes a começar mesmo antes de dar início à minha aventura: encontrar um lugar para morar.

Foi uma experiência estranha, procurar um quarto numa cidade que nunca tinha visitado e sobre a qual não sabia nada. Onde devia procurar? Em que bairros me devia focar? Como garantir que as ofertas de quartos são de confiança? Além disso, eu não teria a oportunidade de visitar o apartamento e o quarto antecipadamente. Claro, pesquisei informações online, mas é muito diferente de vivenciar a cidade, o bairro, a casa e o quarto.

Como iria ser estava inteiramente deixado à minha imaginação.”

Bolsa de estudos rejeitada: futuro indefinido

A minha busca começou passando por todas as ofertas em plataformas de aluguer e páginas do Facebook para alugar quartos em Lisboa. As opções eram mais caras do que eu esperava. As boas ofertas desapareciam rapidamente e era preciso muita sorte para consegui-las.

Os quartos nas páginas do Facebook eram muitas vezes mais baratos, mas frequentemente quartos pequenos, com aspecto empoeirado, contendo apenas uma cama e nada mais, às vezes nem mesmo uma janela. Isso não era o que eu imaginava ao fantasiar sobre minha vida em Lisboa…

Quando percebi o quão difícil seria esta busca com o meu orçamento, decidi procurar por bolsas de estudo. Os procedimentos de seleção das possíveis bolsas eram longos e os requisitos altos. Encontrei diferentes fundos holandeses que ofereciam bolsas para estudar no estrangeiro. A primeira bolsa que tentei tinha um processo com várias etapas, incluindo responder a muitas perguntas online, escrever uma carta de motivação e um ensaio.

Consegui chegar à última etapa: uma entrevista com o gerente da organização da bolsa e três funcionários, que me bombardearam com perguntas sobre que tarefas e trabalhos eu tinha feito além dos estudos para contribuir para a sociedade, por que era tão importante para mim ir estudar para Lisboa e quais eram meus planos para o futuro.

Nem conseguia imaginar como seria minha vida em Lisboa no próximo ano, como poderia ter um plano claro para o futuro?

Alguns dias após a entrevista, recebi um e-mail informando-me de que fui rejeitada. O motivo: os meus planos para o futuro não estavam suficientemente definidos.

Tentei outras bolsas de estudo com procedimentos parecidos. Após muitas rondas promovendo-me, acabei por ser aceite por uma delas. No entanto, eles financiavam apenas um quinto do valor que eu tinha solicitado. Embora útil, não era o que eu esperava. Decidi seguir em frente; o primeiro semestre em Lisboa seria viável com esse dinheiro extra, e eu poderia continuar a minha jornada em busca de um quarto.

A primeira crise: novo contrato enviado

Através do site da minha universidade, encontrei uma empresa que alugava quartos em diferentes apartamentos em Lisboa. A empresa era focada em estrangeiros. Estudantes e recém-chegados de diferentes países e culturas viviam juntos nesses apartamentos, o que me deixou entusiasmada.

Os quartos estavam mobiliados e os mais pequenos não eram extremamente caros. Depois de entrar em contato e discutir as possibilidades, o quarto foi providenciado surpreendentemente rápido.

Como não tinha ideia de como seria o quarto e o apartamento, decidi começar com um contrato de meio ano – disseram-me que a extensão sempre seria possível.

A 4 de setembro de 2022, a aventura começou.

Cheguei ao meu apartamento em Lisboa e vi meu quarto e colegas de casa pela primeira vez. Era tudo o que eu tinha esperado. Era muito diferente, mas pelo menos tão bom quanto tinha imaginado. A cidade logo se tornou familiar para mim, eu estava a morar num quarto acolhedor, num bom apartamento, num bairro charmoso, com pessoas que logo se tornariam meus amigos.

Senti-me em casa.

Após alguns meses da minha estadia, a organização de aluguer perguntou se eu queria estender meu contrato após os primeiros seis meses. Eu estava feliz aqui; é claro que eu queria estender meu contrato. Nem estava a duvidar disso até ver o novo contrato que eles me enviaram.

Ao ler as novas condições, congelei por um segundo; a renda aumentou mais de 100 (!) euros por mês. O stress bateu e, em pânico, comecei a procurar outros quartos pela cidade, mas as rendas eram semelhantes ao que eu ia pagar com o novo contrato do meu apartamento atual.

Alguns dias depois, quando estava um pouco mais calma, enviei uma mensagem para a empresa de aluguer pedindo uma explicação para o aumento bizarro no aluguel. “É a inflação”, disseram-me. Após conversar com a empresa a explicar minha situação, eles quiseram fazer um acordo. Eu poderia pagar um pouco menos porque já alugava o apartamento há alguns meses. Ainda precisava encontrar uma maneira de pagar esse aumento de aluguel, mas ia ser possível. Eu poderia ficar em casa.

Um conto de sorte

Como disse, mudar-me para Lisboa correspondeu às minhas expectativas desde o início, e ainda corresponde. Infelizmente, é preciso atravessar uma jornada desafiante para encontrar um lugar para ficar e tornar possível iniciar essa nova aventura.

Cada vez mais percebo o quão sortuda sou por ter este quarto. Ouvi muitas histórias de estudantes que lutaram para encontrar alojamento. Conheço estudantes internacionais que passaram os primeiros meses a morar num Airbnb, simplesmente porque não conseguiram encontrar outro lugar para viver. Tenho até colegas que foram burlados ao alugar um quarto em Lisboa. Chegaram a Lisboa, ao apartamento alugado, e ele simplesmente não existia – mas deixarei essa história para a próxima vez que escrever aqui na Mensagem.

Eu tinha minhas poupanças, a minha bolsa de estudos, um senhorio aberto a ajustar o preço e o meu apartamento existia. Mesmo tendo que superar algumas barreiras, tive a sorte da minha aventura imaginada se ter tornado possível e real.

Procurar uma casa em Lisboa como estudante estrangeira está longe de ser fácil. Agora, depois de ter morado em Lisboa por mais de um ano, sei onde procurar quando preciso de encontrar um quarto, em quais bairros me focar, e posso visitar um quarto antes de assinar um contrato. Mas a coisa mais importante que sei agora, e isso vale para todos os estudantes estrangeiros que estão desesperadamente à procura de um quarto, é que a jornada vale a pena.

Quando encontra um lugar para morar, a sua aventura em Lisboa será melhor do que pode imaginar.

Nele van den Broek nasceu em Breda, nos Países Baixos, em 1997. Formou-se em sociologia, mas sempre quis seguir sua paixão pela escrita. Em setembro de 2022, mudou-se para Lisboa e iniciou um mestrado em jornalismo. Ela está a aproveitar a experiência num novo país, numa nova cidade e o contato com pessoas de diferentes culturas. Nele é estagiária na Mensagem de Lisboa.


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