Marvin Gaye passou boa parte do ano de 1970 a tentar convencer a sua editora, a poderosa mas conservadora Motown, a lançar uma canção pacifista e que proclamava o poder do amor para resolver os problemas do mundo. Visto à distância, parece anedota. Mas então isso não tinha ficado resolvido lá atrás, na geração hippie e nos três dias de Woodstock?

Não tinha. Isso era noutro universo, o dos brancos, vedado aos pretos americanos. Na casa dos pretos, a Motown, não queriam chatices e a ordem era continuar a dançar ao som do bada-badum, de miúdas parvas apaixonadas, desprezadas, mas finalmente sempre fiéis. Só que lá fora o mundo estava agreste e nem era preciso entrar pelos pântanos do Vietname.

Do outro lado da rua, a polícia branca praticava o seu desporto favorito de atirar ao preto, o preto tratava a preta pela mesma assimetria e o ambiente geral negava o quadro de peace & love de que o marketing já fazia marca. 

“What´s Goin On” (Que Se Passa Aqui), lançada em janeiro de 1971, faz agora 50 anos, rompia com a tradição um tanto alienada da música negra comercial norte-americana. Mas fazia mais, a canção e especialmente o álbum que sairia uns meses depois, ao convocar para um território de canções de absorção rápida a complexidade e a subtileza do jazz e da clássica. Foi um sucesso, moderadamente influente para a época. Como muitas vezes acontece, só o tempo confere densidade a estas coisas e, na lista dos melhores discos de sempre da Rolling Stone, “What´s Goin On” levou meio século a subir do fundo da tabela até topo. Mas chegou mesmo ao topo.

Estão a ouvir a canção? Aquele início com uma conversa animada entre jogadores de futebol americano? Estavam muito na moda, há 50 anos, estas brincadeiras de estúdio, aproveitando as enormes potencialidades que a tecnologia começava a oferecer.

E foi aproveitando essas novas maravilhas da técnica que José Mário Branco se lembrou de espalhar uns microfones pela gravilha dos Strawberry Studios, em Herouville (França), para captar o arrastar de pés que constitui hoje, a seguir ao trinar das guitarras, a segunda sonoridade musical portuguesa mais reconhecida em todo o mundo, o compasso de “Grândola Vila Morena”.

Abria o lado B de “Cantigas do Maio”, de José Afonso, que também faz este ano 50 anos, mas que se por heresia ou tenra idade nunca ouviram, esqueçam – não está à venda, não está no Spotify, não existe. Na verdade, está tão proscrito como quando foi lançado.

Esse disco, cimeiro de todos os discos portugueses, encontra-se envolto, como toda a obra de José Afonso, numa inacreditável disputa de direitos de autor, em vez de estar agora a ser reeditado, com gravações restauradas, trechos nunca antes editados, como acontece lá fora, ou, vá lá, com acontece por cá com a exceção Amália. Como a data oficial de lançamento coincide com o Natal, resta-nos a esperança de que quem tem poder para resolver isto nos queira rechear o sapatinho…

Na capa n.º 25 da revista MC – Mundo da Canção, José Mário Branco

Felizmente, os restantes discos de que se fez essa extraordinária colheita de 71 estão todos aí, disponíveis para comemoração. Desde logo, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, que também ele começa com sons captados na vida real por José Mário Branco, no caso, o bulício ferroviário da parisiense Gare de Austerlitz, para depois nos revelar, não apenas um dos maiores autores/compositores do século XX português, mas também um encenador de sons de excelência.

É ainda o mesmo José Mário o mago por detrás do disco de estreia de Sérgio Godinho, “Sobreviventes”, do qual começa por sair o EP “Romance De Um Dia Na Estrada”, em 1971, e depois, num jogo do gato e do rato de proibições, o álbum, já no ano seguinte. Ainda desse ano são também o disco maior de Adriano Correia de Oliveira, “Gente de Aqui e de Agora”, e “Movimento Perpétuo”, a obra de afirmação de Carlos Paredes.

Três anos e mais alguns discos volvidos, muitas daquelas canções, gravadas e viajadas por tantas partes do mundo e do país, confluíram no Coliseu dos Recreios, no I Encontro da Canção Portuguesa, que juntou Zeca, Ary, Tordo, Paredes, Letria, Adriano…

O concerto do Coliseu. Foto: DR

Os muitos PIDES presentes da sala não perceberam, ou não quiserem perceber, e esqueceram-se de avisar a Censura para cortar dos jornais vespertinos do dia seguinte a menção à “Grândola”, entoada, por duas vezes, por uma sala de pé, com as luzes de gala acesas.

Faltavam 27 dias para o 25 de abril e para que todas as canções se soltassem.

Marvin Gaye teve menos sorte. Acabou baleado pelo pai, poucos anos depois, no meio de uma disputa familiar. Falhou-lhe a compreensão de que falava em “What´s Goin On”.


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